Por Heloisa Villela
Mulheres e crianças são sempre tratadas como as verdadeiras vítimas da agressão israelense na Faixa de Gaza, na Palestina. Mas os homens palestinos também estão soterrados sob os escombros de hospitais, universidades e edifícios residenciais. Também são atingidos por tiros, mísseis, bombas e fósforo branco.
A imprensa e os líderes mundiais, em geral, costumam enfatizar o sofrimento de mulheres e crianças, como se o genocídio, por si só, não fosse digno de condenação. Como se necessitasse de requintes de crueldade para provocar a repulsa mundial.
Essa é a tese central do novo livro do escritor palestino Mohammad El-Kurd, lançado agora no Brasil com o título “Vítimas perfeitas e a política do apelo“. Com textos curtos, como se pensasse em voz alta junto com o leitor, El-Kurd define e expressa, com clareza, um sentimento que muitas pessoas compartilham ao ouvir falar da agressão israelense contra o povo palestino em Gaza e na Cisjordânia: a ênfase em um determinado perfil de vítima, que, essa sim, mereceria a compaixão das pessoas e o luto da humanidade.
“Vítimas Perfeitas” entrou na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times, mas o autor se recusou a expor a informação na capa, como todo mundo costuma fazer para vender mais. “Seria muita hipocrisia”, afirmou. El Kurd lançou esta semana uma campanha, junto com outros 300 escritores, para denunciar o jornal, um dos mais respeitados do mundo, pela cobertura do genocídio palestino, que considera inaceitável.
O jornal publicou, há dois anos, uma matéria de duas páginas, com grande destaque, sobre os supostos estupros perpetrados por militantes do Hamas contra mulheres israelenses durante o ataque de 7 de outubro. A reportagem foi desmentida por outros jornais, como o Washington Post, e por grupos de jornalistas dos Estados Unidos. No entanto, o jornal nunca se retratou.
Mohammed El-Kurd vive entre os Estados Unidos e a Palestina há dez anos. Já passou por falsas ameaças de bomba em mais de uma universidade americana onde foi convidado a dar palestra. Ainda assim, não se sente inseguro. Ele tem revolta, sobretudo ao ver o preconceito e as distorções da mídia sobre os palestinos, e a condenação de qualquer movimento ou tentativa de emancipação, de pôr fim ao colonialismo.
Mas, ainda assim, o jovem escritor de 27 anos mantém viva a esperança de que as mudanças virão. Como aprendeu a dizer com a avó: “a chuva está vindo”, talvez antes do que imaginamos, acrescentou.
ICL Notícias — Começando pelo título do livro, de onde vem essa ideia da “vítima perfeita”, a única que merece nossa empatia?
Mohammed El-Kurd — Não desenvolvi o conceito, mas, como você, sempre tive esse sentimento ouvindo os noticiários: a exclusão dos homens da lista de pessoas cujas mortes podemos lamentar, que merecem empatia e direitos humanos básicos.
Para mim, escrever sobre isso foi como ter uma visão de fora, um olhar externo. Entender e perguntar como abordamos o assunto Palestina, mas não a partir de estatísticas, resoluções, convenções de Genebra.
Queria pensar na dinâmica de poder, em quem está estabelecendo os termos da conversa. É uma satirização da demanda feita aos palestinos: que sejam educados no seu sofrimento, que apresentem a outra face quando são oprimidos e acusados, e ainda tenham que se explicar, apesar de serem as vítimas.
Como o livro está sendo recebido no Ocidente?
É difícil saber, porque não tem muita gente que vai vir me dizer que é um lixo. Mas a resposta tem sido muito boa. Recebo várias mensagens todos os dias de pessoas que também tinham esse mesmo sentimento e não tinham como articulá-lo.
O que é mais interessante é que essa não é uma ideia original: ela já foi explorada no movimento feminista, no movimento de libertação negra, mas, no contexto palestino, dá linguagem a algo que pensamos, sentimos, compreendemos e não conseguimos analisar de forma coerente.
Fiz o livro para mim primeiro, porque queria entender de onde vem isso. E, no processo de escrevê-lo, me vi caindo várias vezes nessa armadilha que eu mesmo estava criticando.
Jura?
Sim. Por exemplo, tem uma história sobre um homem palestino, Omar Assad, um cidadão americano que foi algemado, amordaçado e deixado no frio para morrer. Eu escrevi a história dele no livro e fiquei procurando a matéria que alguém escreveu e que contava que ele também tinha sido espancado.
Queria encontrar o artigo que confirmasse o espancamento, porque queria dizer que ele foi algemado, amordaçado e espancado — como se não fosse suficiente ele ter sido algemado e amordaçado.
Passei uma hora procurando o artigo até me dar conta: por que ele precisa ter sido espancado para que as pessoas sintam empatia? Já era uma atrocidade ter sido deixado no frio! Mas isso é incutido na nossa cabeça desde muito cedo.
E parece que, quanto mais absurda a violência, mais é preciso justificar, mais a vítima tem de ser ainda “melhor”.
Exato. Agora, quando alguém é baleado em um posto de controle, não é suficiente ter sido baleado. Tem que ter sido baleado a caminho do casamento do irmão, ou no dia do aniversário dele. É preciso encher o crime de acessórios para que se torne convincente. Esse método não é sustentável para defender os direitos dos palestinos.
No livro, você também fala de usar o humor como uma arma. Por que?
O humor é um instrumento na caixa de ferramentas da irreverência. Eu realmente acredito na irreverência e em não dar credencial para acusações que você considera absurdas. É preciso demonstrar que a acusação é ridícula. Nós sempre somos acusados de antissemitismo, terrorismo, blá, blá. blá. E nos encolhemos, vamos para um canto e começamos a nos explicar. Para quem está olhando, ouvindo ou lendo, parece suspeito.
Com a irreverência, quando você fala que a pergunta é ridícula, faz uma piada, ou zomba, revira os olhos — você comunica que essa pergunta não tem urgência moral. Muito do que eles fazem é criar pânico moral, e nós caímos na armadilha. Mas a piada tem tanto poder que você pode pegar essa acusação e tirá-la do lugar da urgência moral para colocá-la em um lugar de trivialidade e ridículo.
Além disso, quando as pessoas ficam tristes por você, têm pena, isso não cria uma conexão humana. Mas, com humor, mesmo que você tenha perdido sua casa, um parente, e use o humor para falar disso, você quebra uma barreira entre você e a audiência, ou o leitor. Ele te vê como alguém igual. Não estou pedindo para que tenham de mim. Seu papel é de estar na luta comigo, enfrentar essas perguntas difíceis comigo.
O que você espera de quem lê o seu livro?
Acho que o que queremos fazer, todos nós, quando combatemos o racismo contra os palestinos é, em última análise, libertar a Palestina, acabar com o genocídio e com a ocupação. Queremos diferentes níveis da mesma coisa. Mas a maneira com que temos tratado essa guerra é falha, porque pensamos que a humanização é o que vai salvar os palestinos.
Mas a definição de humanização é estreita e limitada, porque definimos um ser humano como alguém generoso, educado, que está sofrendo, e não incluímos raiva, gargalhadas, todos os outros sentimentos. Esse livro pressupõe que você já sabe alguma coisa e percebe que as ferramentas que usamos até aqui não funcionaram, e quer ver como podemos ir mais longe. A demanda é para as pessoas olharem para os métodos que têm usado e pensarem: isso dignifica o tema que estou tratando?
Eu acredito 100% na política de dignidade. Acredito que dignificar uma pessoa vai ajudá-lo a vê-la como um ser humano. E isso é o mesmo para os moradores em situação de rua, presos e pobres. O que temos em comum com todos eles é que estamos do lado de fora da humanidade.
Uma maneira melhor de humanizar é aceitar que os palestinos existem em várias formas e tamanhos, e acreditam em várias coisas diferentes. Posso te garantir que um palestino, em algum lugar, acredita que Hitler foi bom. Mas o mundo é assim, em qualquer nação. Você vai encontrar pessoas da extrema direita, radicais progressistas e muitos apolíticos.
Meu ponto é que nossa visão política não deve determinar se devemos viver ou morrer. Mas, no Ocidente, quando justificam o genocídio — ou, antes do 7 de outubro, a ocupação — não falam do que fizemos. Falam que odiamos judeus, que queremos matar os israelenses, que somos atrasados ou acreditamos nisso ou naquilo. É sempre sobre o que queremos, sentimos, imaginamos, o que uma música significa, e nunca sobre o que fazemos. É como se tivéssemos nossos sentimentos, enquanto eles têm suas armas, foguetes e aviões.
É uma desigualdade e, ao invés de dizer que essa ideia é absurda, começamos a dizer que amamos todas as pessoas, não queremos matar ninguém. Isso é totalmente irrelevante. Claro que somos generosos e amamos as pessoas, mas a Declaração dos Direitos Humanos é incondicional!
Outra coisa absurda é que, hoje, se você disser que não concorda com a criação do Estado de Israel, é taxado de terrorista.
Acho que, de forma bem simples, talvez até reduzida, o problema é a hiperexcepcionalização. Nós pensamos em Israel no seu contexto específico, sem colocá-lo no contexto histórico. Israel não é uma anomalia. Já existiram vários projetos coloniais antes de Israel.
Mas, infelizmente, pensamos no sionismo como algo único, e não como um projeto colonialista, como uma extensão do supremacismo branco, e até pensamos no nosso próprio sofrimento como excepcional, quando de fato não é. Por isso, pensamos que temos que reinventar a roda.
Eles nos obrigam a falar do judaísmo, quando essa não é a questão, nem nunca foi, nem para nós. Não acho que eu precise justificar nada. Mas tenho várias histórias do meu pai e dos amigos judeus dele antes de 1948, porque ele nasceu em 1944. Minha avó e seus amigos, também.
Nós temos casos de casamento na nossa família: uma pessoa, poucas gerações antes da minha, uma mulher judia casada com uma pessoa da família. Mas isso é uma bobagem, não é algo que eu deva mencionar para me defender de uma acusação que é totalmente irrelevante. E essa é a primeira vez que falo disso em uma entrevista.
Como você vê esse cessar-fogo, ou acordo de paz, com gente sendo assassinada todos os dias em Gaza?
O plano do Trump. No dia em que foi anunciado, eu estava cuidadosamente otimista, porque as bombas supostamente tinham parado. E acho que ainda estou muito feliz por pelo menos as bombas terem parado. Mas eu temo que a solidariedade global dos últimos dois anos tenha sido construída sobre cadáveres, e que a suspensão dos assassinatos, que já deveriam ter acabado, também acabe com essa solidariedade.
É por isso que temos que ir muito além da política da vitimização. Precisamos pensar em algo mais sustentável. Mas, sobre o cessar-fogo, a violência colonial sionista não parou na Cisjordânia, nem em Gaza, nem em Jerusalém. É claro que Trump e Kushner estão olhando para tudo isso como uma oportunidade de ganhar dinheiro. Se você lê ponto por ponto, é óbvio que estão tentando destruir a identidade palestina que ainda existe. Eles destruíram os líderes, todas as universidades.
Ao mesmo tempo, não consigo pensar em um universo no qual poderia ser publicamente contra um plano de paz, porque existem tantas pessoas sob os mísseis o tempo todo. Seria muito arrogante dizer “não aceite esse acordo”, quando estavam implorando para que a guerra terminasse. Claro que é um desastre político. Mas quem sou eu para colocar nosso futuro sobre o nosso presente?
Acho que a população mundial nunca falou tanto, e tão alto, sobre a Palestina.
Sim. Isso não tem precedente. Mas, quando as bombas param, o que fazemos para evitar que todo esse movimento cesse, já que ainda estamos distantes de uma solução? Me parece que uma resposta básica é organização. Para além de ter o sentimento correto, as pessoas têm que se engajar em organizações. Mas isso é irreal, já que a maioria da população mundial não se envolve com organizações.
Agora que o bombardeio parou, as histórias que virão à tona serão horrorosas. Acho que o sionismo sofreu um dano irreparável nos últimos dois anos. Isso não quer dizer que não sejam capazes de fazer algo para se recuperar, mas acredito que ficou uma mancha que nunca mais vai sair.
Como você está vendo toda mudança política aqui nos Estados Unidos, já que está morando em Nova Iorque?
É difícil não ver o fascismo. É um fascismo louco. Estou acostumado com balas de borracha e bombas de gás, apesar de não usarem tanto aqui. Mas o fato de estarem sequestrando pessoas de dentro de casa a uma taxa insana não é nada menos do que o fascismo, e acho que os americanos estão tão sedados. São movidos por suas telas, pelo próximo produto legal, pelo próximo filme.
Nunca vi nada assim em nenhum lugar do mundo, onde o capitalismo tomou conta da vida das pessoas em um nível psíquico. As pessoas se tornaram tão obcecadas com o indivíduo, consigo mesmas, que há vários incêndios em torno delas, e ainda assim estão superocupadas olhando no espelho. Estão construindo campos de concentração!
Você falou sobre Israel e a mancha sobre o sionismo, mas parece que eles têm pressa em expulsar ou exterminar todos os palestinos. Como se o tempo estivesse se esgotando.
Quando a Nakba começou, não foi em um dia, em 1948. Começou com um massacre atrás do outro, um pequeno massacre após o outro. Talvez agora não possam fazer um massacre na Cisjordânia como fizeram em Gaza porque não têm a desculpa do Hamas lá. Mas estão indo de uma vila para outra. O objetivo final é muito claro: a solução final para a qual estão trabalhando, com ou sem cessar-fogo.
E ainda assim, você acha que a chuva está vindo, como sua avó dizia, anunciando mudança?
Acho que sim. É uma obrigação política ser otimista e acreditar na sua causa, porque, de outra forma, o que vai fazer se não acha que as coisas vão mudar? Meu lado romântico pensa que a chuva vem aí e teremos a libertação. E meu lado racional pensa que Israel e sua imagem atual não são sustentáveis. Então, não importa o que aconteça no futuro, sei com certeza que as coisas não serão como estão hoje.
No futuro imediato, nos próximos meses, o que acha que vai acontecer?
Acho que vão continuar violando o cessar-fogo. Depois que o Trump ganhar toda a glória do cessar-fogo, das matérias e entrevistas, vão recomeçar a guerra. Espero que eu esteja errado.
E a imprensa americana, como você vê o trabalho da mídia nos Estados Unidos?
Quando você olha para o The New York Times, é o mais conivente, o mais bárbaro, o jornal mais coberto de sangue na história! E não só por causa da Palestina. Se você vai ao escritório do NYT, no último andar, eles têm um museu para falar de todos os seus feitos, um exercício de auto-mitologização.
Tem uma sala, porém, que ninguém diz abertamente o que é, mas claramente é a sala da vergonha. Ali falam sobre como estavam errados sobre o Holocausto, sobre as armas de destruição em massa do Iraque, e posso te garantir que, dentro de 10 ou 15 anos, a Palestina será a parte principal dessa sala.
O material que eles produziram depois do 7 de outubro, sobre bebês queimados, estupros, foi amplamente desmentido. Estamos organizando uma campanha de escritores, já são 300 autores importantes, para dizer que nos recusamos a contribuir com o NYT se eles não tratarem do racismo que têm contra os palestinos. Eu sei de fontes internas que existe um racismo incrível.
Quando saiu a matéria desmentindo a reportagem chamada “Gritos sem palavras”, sobre os estupros no 7 de outubro, foi através de vazamentos de dentro do jornal. A testemunha do Zaka, a organização israelense, foi desmentida, assim como os escritores, pelo Washington Post e por 250 grupos de jornalistas. E, ao invés de corrigir e se retratar, o NYT embarcou em uma caça às bruxas racista dentro de seu próprio prédio.
Interrogaram quase todos os funcionários muçulmanos e árabes para descobrir quem vazou a informação. Um ex-funcionário contou que hoje há duas pessoas monitorando os chats de conversas dos empregados o tempo todo, e os funcionários nem sabem. É realmente absurdo.
Mas nosso povo, os palestinos e árabes, continua a escrever na sessão de opinião do NYT. É uma vergonha para mim. Eles não reconhecem que o jornal usa a imagem deles para alavancar a própria reputação. Na seção de notícias, você tem as informações do governo como fatos, as mentiras do governo como a verdade. Quando os funcionários dentro do NYT protestam e reclamam, eles dizem: “olhe para a sessão de opinião. Somos justos, temos todas essas opiniões”.
Meu livro estava na lista de best-sellers do NYT e me recusei a colocar essa informação na capa, o que foi um choque para o meu editor porque isso ajuda muito a vender. É como ganhar o Oscar da literatura. Mas não vou fazer. Seria muita hipocrisia. É algo simples, pequeno e material que você pode fazer, mas muitos se recusam.