A farsa do Capitalismo Verde

A contradição é flagrante e brutal. Celebra-se a floresta enquanto se leiloam blocos de exploração de petróleo na sua foz. Fala-se em transição energética sob o patrocínio das mesmas corporações que lucram com a destruição
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Enquanto poses, discursos e intenções explodem em contradições nos palcos da COP30 em Belém, no coração da Amazônia, uma farsa de proporções planetárias se desenrola. Promete-se um futuro verde, sustentável, um “capitalismo de face humana” que, finalmente, fará as pazes com o meio ambiente.

No entanto, para quem observa a História não como um desfile de progresso, mas como um campo de batalha, o espetáculo soa como um réquiem. A história do capitalismo é, em sua essência, a história da aniquilação de qualquer relação minimamente equilibrada com a natureza, e nenhuma conferência climática, por mais bem-intencionada que pareça, pode reescrever esse roteiro sem rasgar a página-mestra do sistema: a acumulação incessante.

A contradição é flagrante e brutal. Celebra-se a floresta enquanto se leiloam blocos de exploração de petróleo na sua foz. Fala-se em transição energética sob o patrocínio das mesmas corporações que lucram com a destruição. Este cenário cínico não é um bug, mas a característica definidora de um sistema que, como argumenta a filósofa Nancy Fraser, tornou-se canibal.

Em seu livro “Capitalismo Canibal”, Fraser descreve um sistema que devora suas próprias condições de possibilidade: o trabalho de cuidado, a estabilidade social e, crucialmente, a natureza não-humana, tratada como um recurso infinito a ser pilhado. A COP30, nesse contexto, surge menos como um hospital e mais como uma equipe de maquiagem, tentando dar uma aparência saudável a um corpo em plena autofagia.

Para entender a profundidade dessa ferida, é preciso voltar a Karl Marx. Muito antes de a ecologia se tornar uma palavra de ordem, Marx diagnosticou a doença em seu conceito de “fratura metabólica”. Ele observou como o capitalismo, ao separar a cidade do campo, rompeu o ciclo vital de nutrientes entre o ser humano e o solo. Os alimentos eram produzidos, enviados para as cidades para serem consumidos, e seus resíduos, em vez de retornarem à terra como fertilizantes, tornavam-se poluição urbana.

Essa fratura, essa quebra no metabolismo entre a sociedade e a natureza, não foi um acidente, mas uma consequência direta da lógica da produção de mercadorias, que só reconhece o valor de troca e ignora o valor intrínseco dos ecossistemas.

O filósofo Kohei Saito, em sua obra “O Capital no Antropoceno”, aprofundou essa análise ao mergulhar nos cadernos de anotações tardios e “ecológicos” de Marx. Saito revela um Marx cada vez mais consciente de que essa fratura metabólica era uma contradição fundamental e destrutiva do capital. A ideia de um “comunismo de decrescimento”, proposta por Saito, soa como uma heresia no mundo das COPs, que ainda acalentam o sonho de um “crescimento verde” — um oximoro, se considerarmos que a pulsão de crescimento do capital é a causa primária da crise. Em outras palavras, não existe crescimento sustentável no capitalismo.

Essa fé cega no progresso foi o alvo da crítica demolidora de Walter Benjamin. Para Benjamin, o “progresso”, como concebido pela burguesia, não era uma marcha triunfal da humanidade, mas uma tempestade soprando do paraíso, empilhando ruína sobre ruína a seus pés. O que chamamos de progresso, dizia ele, é essa tempestade.

As conferências climáticas, com seus gráficos de emissões e metas para 2050, operam sob essa mesma lógica progressista, acreditando ser possível gerenciar a catástrofe sem interromper a sua causa. Benjamin, ao contrário, afirmava que a revolução não é a locomotiva da história, mas o ato de puxar o freio de emergência. O ecossocialista Michael Löwy, um dos principais intérpretes de Benjamin, traduz essa ideia para a nossa era: o ecossocialismo é o freio de emergência contra o trem suicida do progresso capitalista que corre em direção ao abismo.

E assim, voltamos a Belém. A Cúpula dos Povos, que ocorre em paralelo ao evento oficial, denuncia o “capitalismo verde” como uma ilusão perigosa, uma tentativa de mercantilizar até o último reduto da vida. As comunidades indígenas, guardiãs de saberes ancestrais sobre como viver com a natureza e não contra ela, são relegadas a um papel folclórico, enquanto as decisões reais são tomadas nos corredores acarpetados — e em “zonas” coloridas e hierarquizadas — onde a lógica da fratura metabólica reina suprema.

A crônica de hoje — e do nosso tempo — é, portanto, a de uma catástrofe anunciada. O capitalismo, em sua fase canibal, não pode se salvar, pois isso significaria negar a si mesmo. Ele continuará a devorar o planeta, a força de trabalho e a vida social, enquanto nos oferece o espetáculo de sua própria redenção em conferências televisionadas. A tarefa histórica, como nos ensinaram Marx, Benjamin, Löwy, Saito, Fraser e Krenak, não é a de reformar o canibal, mas a de interromper esse banquete infernal.

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