Conversas com o silêncio

É uma mania, admito. Mas não faço isso por idolatria, é apenas por curiosidade intelectual
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Por Carlos Castelo

 

As pessoas têm suas peculiaridades. Uns colecionam selos, outros exploram empregados e os chamam de colaboradores. Há quem corra maratonas, quem crie gatos com perfil no Instagram e quem assine abaixo-assinados que nunca leu. Já eu escrevo e-mails para pessoas famosas.

É uma mania, admito. Mas não faço isso por idolatria, é apenas por curiosidade intelectual.

Gosto de imaginar que, em algum canto do planeta, um assessor de gabinete ou um estagiário abre minha mensagem e pensa: “De novo esse sujeito.”

Comecei com o Donald Trump.

Assunto: Sobre lançar milhares de bombas e desejar o Nobel da Paz.

Nenhuma resposta. Nem automática. Achei estranho, um homem tão articulado, tão civilizado, e nem um “Thank you for reaching out”.

Depois escrevi para Margaret Atwood.

Assunto: A senhora acredita que as distopias já venceram por W.O.?

Silêncio. Talvez tenha sido engolido por um spam futurista.

Enviei outro para Noam Chomsky, perguntando se a gramática gerativa podia explicar a fala de certos políticos brasileiros. Nenhum retorno.

Mas confesso que não esperava mesmo: o homem decifra a linguagem, não a humanidade.

Em seguida, enderecei um para o Papa Leão XIV.

Assunto: Sobre o mistério da fé e o milagre de achar uma vaga fora dos estacionamentos.

Nenhum sinal divino, nem mesmo um recibo celestial de leitura.

Tentei com Yuval Noah Harari: Se o ser humano é um algoritmo, como faço para reiniciar? Nada. Talvez tenha sido filtrado por alguma IA insensata.

Até Vladimir Putin recebeu um e-mail meu — um simples Good Evening. E, ainda assim, nada. Fiquei até aliviado.

Não nego: há um prazer estranho em escrever para pessoas que jamais responderão. É como conversar com o nada.

Cada envio é uma confissão silenciosa, uma correspondência com o impossível.

Às vezes penso que todos eles leem, mas escolheram o silêncio como resposta filosófica.

Talvez Atwood tenha pensado: Sim, já vencemos por W.O.

Chomsky deve até ter analisado a estrutura da minha frase e concluído: Não há sujeito.

E acredito que o Papa tenha me perdoado preventivamente.

Mas continuo escrevendo.

Hoje mesmo enviei um e-mail para Elena Ferrante. Ou melhor, para o endereço da editora italiana que finge não saber quem ela é.

Assunto: Sobre a vantagem de ser anônima num mundo de perfis verificados.

E, por via das dúvidas, preparei outro para Greta Thunberg. Curto, direto:

O planeta está acabando. A sua caixa de entrada também?

É curioso como o mundo me ignora com uma elegância impecável.

Ninguém me bloqueia, ninguém me responde. Sou o interlocutor ideal: mininalista, invisível e educado.

E talvez seja essa, afinal, a verdadeira glória do escritor contemporâneo: continuar redigindo, mesmo sabendo que a caixa de entrada dos formadores de opinião está sempre cheia.

Ou mais irônico: vazia.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail