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Adaílton Moreira Costa

Babalorixá do Ile Axé Omiojuarô, Doutorando em Bioética PPGBIOS UFRJ. Mestre em Educação Proped UERJ. Graduado em Ciências Sociais PUC RJ

A busca pelo purismo africano nas tradições de matriz africana

É muito bom estar aberto Às diversidades enquanto elemento de existências
9 de fevereiro de 2024

Há algumas décadas venho observando por parte de algumas lideranças de matriz africana, bem como de alguns adeptos, o retorno a uma origem pura das religiões de matriz africana.

Não sou contrário a esses intercâmbios com o continente africano, desde que não se negue toda a engenhosidade que negros na diáspora fizeram para perpetuar sua cultura e espiritualidade, nas adversidades da escravidão, no terreno inóspito que encontraram para preservação de suas identidades.

Me parece quase inocente a busca por uma tradição africana pura, sem se levar em conta as diversas ressignificações e mesclas culturais que aconteceram no continente, fossem por casamentos entre povos, acordos políticos, guerras étnicas, migrações e outros fatores importantíssimos que fizeram com que tais tradições não fossem fechadas em si.

Aqui no Brasil não foi diferente. Vários povos só sobreviveram por conta de suas trocas culturais e religiosas — sem falar dos povos indígenas encarregados de contribuir muito, vindo a se constituir em outra rama do candomblé (candomblé de caboclo).

Ouvindo alguns mais velhos do candomblé, sempre aprendi sobre as práticas de trocas e ajudas entre eles, independente de que nação fossem. Quando havia iniciação em suas comunidades, pessoas de outras nações se propunham a estar em todos os períodos, fossem de nação Jeje, Angola, Ketu, Jexá.

Esses laços de proximidades entre os povos de origem africana foram uma grande estratégia de articulação e sobrevivência dos povos e suas características dos elementos linguísticos, artes, cultura e ancestralidade. Creio que o fato desses povos terem se unido em suas diferenças foi o grande “tiro que saiu pela culatra” dos escravocratas.

É em decorrência destes fatores que eu não acredito muito em purismos como fator legitimatório de povos e suas tradições, mesmo porque a tradição jamais foi uma caixa sem saída. A tradição vai se adaptando aos novos tempos, dialogando com o presente e nos preparando para o futuro, que não sabemos qual será.

Manter as tradições é manter viva as engenhosidades de nossos ancestrais, que quando aqui chegaram, tiveram que elaborar de forma engenhosa e criativa toda a sua cosmo-percepção africana em diáspora, fazendo reviver o que lhe foi tirado.

Já estive no continente africano, mas especificamente em Angola, e fui cheio de certezas e arrogâncias de minha identidade e origem negro de Ketu, uma região do atual Benin, território Fon.

Ao chegar em território Mumuila, estava acontecendo uma grande festa, onde as jovens estavam passando da fase de adolescentes para a de mulheres. O que me chamou atenção foi o ritmo dos tambores (atabaques), era um ritmo muito próprio das comunidades de origem Ketu (vase), eu fiquei muito perplexo com a situação. Pedi ao Soba (líder) que gostaria de tocar no tambor, ele me olhou com desdém e riu, falou comigo “você é branco não vai saber”, fiquei chateado, como assim? “Branco!”.

Fui desafiado pelo Soba, aceitei o desafio, toquei o tambor como nunca o tinha feito em minha vida. Foi um espanto por parte do povo ao me ver tocar um ritmo que a princípio seria originário deles.

O Soba perguntou, quem tinha ensinado a este branco o seus ritmos (risos)? Eu disse a ele que aquele ritmo eu tinha aprendido com ele (seus ancestrais). Na mesma hora, me deu a mão e saiu andando pelos arredores da aldeia, me dizendo que eu era um dos dele, que estava em outras terras, e que eu devia voltar pra casa.

Gostei de não ser puro, gostei de ter encontrado um ritmo que eu achava que era puro meu, e não encontrei a certeza, preferindo a dúvida.

É muito bom estar aberto Às diversidades enquanto elemento de existências, a África e sua diáspora continuam a nos ofertar com sua resiliência.

 

 

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