Ingênuo quem ainda acha que política e futebol não se misturam. Difícil é separá-los. Isso vale para o bolsonarismo de Neymar, vale para os fusquinhas que o então prefeito paulista Maluf deu aos craques de 1970… E vale, óbvio, para um caso de contrabando da Seleção Brasileira, que completa 32 anos nesta semana.
Fã de almanaques e efemérides, este velho homem de imprensa já era repórter nesta época. O caso eu conto, como o caso foi. Vem comigo.
Depois de 24 anos de jejum, a Seleção Brasileira ganhou a Copa do Mundo nos EUA, em 1994. A conquista foi suada, em uma decisão por pênaltis contra a equipe italiana, o que só aumentou a celebração dos jogadores e a festa em todo território nacional. Nada mais justo. Os torcedores, contribuintes e o Leão do Imposto de Renda não contavam, porém, com a farra na sonegação fiscal promovida pelos dirigentes da CBF, atletas e comissão técnica do time canarinho.
No escândalo conhecido como o ‘Voo da Muamba’, os tetracampeões trouxeram, ilegalmente, 17 toneladas em compras fora do país. A Receita Federal deixou de arrecadar, segundo cálculos dos auditores, cerca de US$ 1 milhão em tributos. Três Copas depois, apenas o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, havia sido condenado a pagar uma multa irrisória de R$ 2,3 mil à União — ele transportou equipamentos pesados para a sua choperia El Turg, no Rio de Janeiro, no valor de US$ 45 mil.
O mesmo cartola acionou autoridades em Brasília para que os fiscais da Receita no Aeroporto do Galeão fingissem que não havia nada de anormal nas bagagens da Seleção Brasileira. Teixeira pressionou o ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves: caso a fiscalização multasse os ilustres e vitoriosos passageiros, a CBF rejeitaria uma homenagem — medalhas de condecoração — feita pelo então presidente Itamar Franco.
Por causa do Voo da Muamba, o secretário da Receita Federal, Osíris Lopes Filho, pediu demissão do cargo, em solidariedade aos servidores que foram impedidos de realizar o trabalho de fiscalização e autuação como manda a lei. Sylvio Sá de Freire, inspetor da alfândega do Galeão, também protestou com o pedido de demissão.
A maior parte das compras dos dirigentes e jogadores era de eletrodomésticos. O caso foi revelado pelo jornal Folha de S. Paulo. O voo saiu de Los Angeles, com escalas no Recife e em Brasília, para o Rio de Janeiro. Se na conquista nos estádios norte-americanos a seleção havia jogado, por estratégia do técnico Carlos Alberto Parreira, de maneira cautelosa e defensiva, não faltou ousadia a Ricardo Teixeira ao usar o nacionalismo e o conceito da “Pátria de chuteiras” para tentar abafar o escandaloso episódio de contrabando do time canarinho.