Por Valter Mattos da Costa*
Em artigo recente na Folha de São Paulo (22/02), o sociólogo Muniz Sodré cunhou a expressão “o último bolsonarista” para nomear não apenas um eleitor fiel, mas uma figura simbólica: aquele que sustenta, até o limite, a identidade política mesmo diante do desgaste público.
A formulação é mais do que retórica. Ela aponta para algo estrutural. O “último” não é um indivíduo isolado, mas o efeito de uma engrenagem que ultrapassa a conjuntura eleitoral e penetra no campo psíquico.
Há uma máquina operando. Não se resume à política institucional. Trata-se de um dispositivo que coordena afetos, ressentimentos e identificações, convertendo frustrações dispersas em adesão apaixonada a uma promessa autoritária.
Essa engrenagem não funciona apenas por argumentos racionais. Ela atua no campo do desejo. Oferece pertencimento, identidade e uma narrativa simples para sujeitos atravessados por perdas simbólicas e precarização persistente.
Quando o mundo se torna instável, o sujeito busca consistência. Se as instituições vacilam, ele procura líderes fortes. Se a linguagem pública empobrece, apega-se a slogans. A simplificação vira abrigo.
O neofascismo contemporâneo compreendeu isso. Não vende somente ideias. Vende a sensação de que alguém finalmente nomeou o inimigo e restaurará uma ordem supostamente perdida. Oferece gozo, não reflexão.
Nesse cenário, a escola pública torna-se campo decisivo de disputa. Não porque deva fazer militância partidária, mas porque é um dos raros espaços capazes de mediar o desejo pela linguagem crítica.
Quando a escola é reduzida a treinamento técnico, abdica de sua função estruturante. Forma executores, não sujeitos. Ensina procedimentos, mas não oferece instrumentos simbólicos para interpretar a realidade.
Sem mediação simbólica consistente, proliferam discursos que prometem respostas imediatas. A angústia encontra alívio no autoritarismo. O ressentimento encontra justificativa moral. A violência ganha legitimação imaginária.
O “último bolsonarista” simboliza essa captura. Mesmo isolado, sente-se parte de uma comunidade imaginária coesa. Sua identidade política oferece consistência onde a experiência social é fragmentada.
Não se enfrenta isso com deboche ou censura. Tampouco com silêncio constrangido. O enfrentamento exige reinstalar a palavra como espaço de elaboração. A escola pública é o lugar privilegiado dessa reinstalação.
Educar, nesse contexto, não é transmitir conteúdos “neutros”. É ensinar a ler o funcionamento dos discursos. Mostrar como certas narrativas capturam frustrações legítimas e as redirecionam contra alvos convenientes.
A educação básica precisa recuperar sua dimensão formativa integral. História, Sociologia, Filosofia e Literatura não são adereços curriculares. São ferramentas para compreender o mal-estar social sem convertê-lo em ódio organizado.
Quando o estudante aprende a identificar manipulações retóricas, ganha autonomia. Quando compreende que nenhuma liderança elimina a falta estrutural da experiência humana, reduz-se a sedução das promessas totais.
O autoritarismo prospera onde há infantilização política. Oferece um pai severo que decide por todos. A escola democrática, ao contrário, convida ao amadurecimento: responsabiliza o sujeito por suas escolhas.
Isso não implica relativismo absoluto. Significa sustentar o conflito no campo da palavra, não da violência. Ensinar que divergências são constitutivas da vida social, e não sinais de decadência moral.
Nas periferias urbanas, onde o Estado muitas vezes falha, a escola pública permanece como instituição de referência. Ali se decide se o jovem será capturado pelo discurso da força ou pela lógica da argumentação.
O professor, nesse cenário, não é doutrinador. É mediador. Não impõe verdades prontas. Cria condições para que o estudante reconheça suas próprias contradições e as elabore simbolicamente.
Há quem acuse a escola de “politização indevida”. Mas negar a política é já tomar posição. Toda formação implica valores. A questão é se esses valores serão autoritários ou democráticos.
A neutralidade absoluta é mito conveniente. Ao esvaziar a escola de reflexão crítica, abre-se espaço para que outros discursos ocupem o vazio. E esses discursos raramente são neutros.
Uma educação pública robusta não elimina o neofascismo, mas dificulta sua expansão. Quanto mais sujeitos capazes de pensar simbolicamente, menor a eficácia das narrativas que exploram o ressentimento bruto.
O combate não é apenas econômico, embora passe pela justiça social. É também simbólico. Trata-se de reconstruir laços mediadores capazes de dar sentido às frustrações sem convertê-las em ódio.
O “último bolsonarista” pode existir como figura isolada. Mas só prospera enquanto houver terreno subjetivo fértil para sua identificação. A escola pode modificar esse terreno.
Não por meio de propaganda, mas por meio de leitura, debate, escrita e interpretação. Pela experiência concreta de que o mundo é complexo e exige pensamento, não slogans.
A democracia não se sustenta apenas em eleições. Sustenta-se na formação cotidiana de sujeitos capazes de suportar a falta, o conflito e a diferença sem recorrer ao autoritarismo.
Se há uma máquina coordenando afetos regressivos, o antídoto não será outra máquina de manipulação. Será a insistência paciente na palavra, no estudo e na mediação simbólica.
Defender a escola pública, hoje, é defender mais do que um serviço estatal. É sustentar o espaço onde o desejo pode ser trabalhado, e não capturado.
O futuro da democracia brasileira passa pela sala de aula. Ali se decide se o ressentimento será convertido em violência ou transformado em elaboração crítica. Ali começa o verdadeiro enfrentamento.
*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.