A estranha pesquisa telefônica que desinforma sobre PEC do Fim da escala 6×1

Questionário reproduz desinformação difundida por bolsonaristas contra a proposta que reduz jornada de trabalho
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Por Lucas Rocha

Enquanto senadores bolsonaristas tentam atrapalhar a tramitação da PEC do Fim da escala 6×1 no Senado,  uma pesquisa de opinião suspeita circula com alegações falsas sobre o projeto que acrescenta um dia de descanso na vida de quem trabalha em jornadas intermináveis.

Às 11h39 da última sexta-feira (5), meu telefone tocou. Após aparecer um selo de verificação no aplicativo de chamadas, atendi. Era alguém anunciando a tal pesquisa. Se apresentou como representante do instituto PoderData.

Logo a princípio, o questionário já causou estranhamento por apresentar a PEC 12/2026, do senador Rogério Marinho (PL-RN), como sinônimo de liberdade e chamá-la de “PEC do Trabalho Flexível”. Na prática, a proposta foi apresentada para atrapalhar a tramitação do fim da 6×1 no Senado e foi apelidada por críticos como “PEC da Escala 7×0” por permitir uma ampliação da jornada de trabalho e promover a flexibilização total dos direitos trabalhistas.

Mas não parou por aí. Na sequência surgiram perguntas sobre a PEC do Fim da 6×1 e as coisas foram ficando cada vez mais estranhas. Após uma resposta positiva sobre a proposta aprovada na Câmara, o questionário enquadrou o entrevistado com perguntas sobre impactos da PEC e apresentou uma série de afirmações falsas.

Afirmou-se que o fim da 6×1 vai gerar desemprego, redução salarial, aumento no preço dos alimentos e até mesmo a substituição de trabalhadores de serviços por máquinas, algo que já ocorre mesmo com as jornadas extensas. A cada alegação, o entrevistado foi instado a responder: “Sabendo disso, apoia a PEC?”.

Após a enxurrada de desinformação, o entrevistado foi novamente questionado: “Segue favorável à PEC do Fim da 6×1?”, o que deixou explícito que a intenção da ligação não era a de medir o conhecimento e o apoio à redução da jornada, mas a de induzir uma resposta contrária ao projeto e favorecer a PEC de Rogério Marinho.

Uma consulta pública no site do Senado Federal sobre a PEC de Marinho tem mais de 90% de votos contrários, o que deixa bastante evidente o tamanho do rechaço à proposta que não passa de uma manobra para atrapalhar o fim da 6×1.

PoderData não comenta

Ao final da ligação me perguntei se era mesmo uma pesquisa PoderData ou alguém se passando pelo instituto para mudar a opinião das pessoas sobre a PEC.

Fui atrás do instituto e, para minha surpresa, não negaram que a ligação foi feita por eles.

Após muita insistência, recebi uma nota que diz que “perguntas em pesquisas de mercado feitas para a iniciativa privada são de várias modalidades e todas de total responsabilidade de quem encomenda o levantamento”.

As pesquisas, portanto, “podem abordar temas que os clientes do PoderData queiram perguntar, da forma que acharem apropriado”.

Entendi que não me dariam mais informações porque “só quem pode falar sobre pesquisas privadas são os contratantes, e caso decidam publicar os resultados”. O instituto reforçou que “não presta serviços para partidos políticos nem para governos”.

O mesmo questionário que ouvi escandalizado naquela ligação foi narrado nas redes sociais por outras pessoas, reforçando que não fui um alvo isolado. Como o instituto não responde questionamentos sobre pesquisas privadas, não sabemos o número total de pessoas entrevistadas, nem quem pagou pela pesquisa.

Questionário reproduz desinformação

As perguntas apresentadas na pesquisa telefônica, cuja autoria é desconhecida, espelham o que a extrema direita reproduz no Congresso, em entrevistas e nas redes sociais.

Em entrevista recente à Jovem Pan, Rogério Marinho, que é coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência, disse exatamente o que o questionário propõe.

“Haverá um aumento dos preços dos alimentos e de serviços porque, se você reduz a jornada e mantém intacto o valor da remuneração, é evidente que quem vai pagar por isso é o conjunto da sociedade brasileira”, afirmou o senador.

Um levantamento realizado pela economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) do Instituto de Economia (IE) da Unicamp afirma que uma redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais — ainda menor do que a aprovada na Câmara — resultaria na criação de até 4,5 milhões de novos empregos e elevaria em cerca de 4% os níveis de produtividade no Brasil.

Estudo do Ipea, conduzido pelos pesquisadores Felipe Pateo, Joana Melo e Juliane Círiaco, vai na mesma direção e  aponta que o custo da redução da jornada de 44 para 40 horas será similar aos impactos observados em reajustes históricos do salário mínimo no Brasil.

Os argumentos apresentados na pesquisa telefônica, portanto, não têm lastro na realidade e indicam que o questionário possa ter sido utilizado justamente para desinformar sobre a PEC do Fim da 6×1 e tentar reduzir à alta adesão da população brasileira a uma pauta que a beneficia diretamente.

Na próxima vez, talvez, seja melhor não atender o telefone.

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