Está puxado e as mulheres todas estão exaustas, mas mulheres negras estão triplamente. Descanso completo, aquele desarmado e com paz para existir ela não tem e eu posso provar.
Trabalhadora sem descanso
Maio chegou quente. Na véspera do Dia do Trabalho, ao invés de decidir sobre a escala 6×1, o Congresso Nacional resolveu pensar diminuir pena de quem tentou golpear o país. Alguns ali podem pensar: Esse negócio de trabalho exaustivo podemos pensar depois, afinal, sabemos qual é a cor da escala 6×1.
É negra a jornada exaustiva e a precarização extrema. Assim como é negra e feminina a acumulação de trabalho doméstico, cuidado familiar, longos deslocamentos e as horas de trabalho absolutamente torturantes. A violência estrutural é tamanha, que gera uma sobrecarga física e mental (burnout) que impossibilita o acesso à educação e qualificação. Um ciclo que se retroalimenta e perpetua gerações vivendo para trabalhar não seis dias para folgar um, mas sete dias para folgar nenhum.
Trabalhadora grávida sem descanso
Grávida de cinco meses, em um momento tão delicado na vida de qualquer mulher, Samara Regina, de 19 anos, está às voltas com muito estresse, tristeza, humilhação… e hematomas.
Esta semana veio a público o ocorrido no último 17 de abril, quando no município maranhense de Paço do Lumiar, Carolina Sthela dos Anjos torturou por cerca de uma hora a empregada doméstica grávida de cinco meses por conta do sumiço de um anel, que depois foi encontrado no cesto de roupa suja. Carolina se vangloria da brutalidade, contando que sua mão ficou inchada de tanto bater na jovem e que chamou um amigo que pôs uma arma na boca da trabalhadora. Os áudios de Carolina Sthela são aterradores. Uma versão digital e renovada das descrições de torturas escravocratas tão fáceis de encontrar nos periódicos e documentos em séculos passados.
“Achei que ia morrer” — disse Samara.
Casos isolados de respeito não são a regra em um país ainda profundamente cruel com mulheres negras. É o corpo dela o mais agredido, humilhado, o mais eliminado no feminicídio, o mais explorado ao longo de séculos. É também o mais silenciado. Como diriam os antigos, “Ai dela!”. Ai dela se ousar reclamar, atrever-se a se ofender e reivindicar, protestar, desejar, sonhar… ai dela! Não há polícia, não existe congresso nacional, não há patroa ou patrão que a enxergue em suas carências.
Trabalhadora artista sem descanso
No entanto, os ciclos também foram feitos para serem rompidos e alguém de novas gerações talvez finalmente alcance a faculdade, o curso, o negócio, a carreira que deseja e — vejam só! — prospere e seja premiada por isso.
Não há descanso, pois o momento de triunfo pode ser sempre dividido com alguma indignação.
Na noite da última terça-feira a comunidade artística celebrava o Prêmio APCA, tendo como homenageado o excelente ator Lima Duarte. Não há qualquer dúvida sobre a relevância de sua obra, dos icônicos papéis e muito menos como apagar, “cancelar” a relevância do artista de 96 anos.
Lima entendeu por bem incluir em seu discurso uma autocrítica. Contou em tom de lástima, como no passado preferiu prostitutas brancas às negras, apesar de serem mais baratas. Atualizou com sucesso o grito eternizado na voz de Elza Soares, “carne mais barata do mercado”. Talvez, como muitos, ele desejasse um aplauso por ter mudado tanto. Quem sabe outro troféu?
Alguns argumentaram usando a idade avançada do artista. No entanto, qual seria a sugestão? O silêncio diante de uma fala absolutamente inadequada. Ele não seria possível, pois a escolha discursiva de Lima Duarte é uma mensagem completa, num evento onde tantas mulheres negras estavam sendo premiadas. Um constrangimento que roubou dessas pessoas o tema deste texto: o direito ao descanso das agressões e à celebração.
Cada uma que subiu ao palco em seguida precisou se indignar. Precisou pontuar. Precisou constranger. Carmem Luz, Shirley Cruz e Grace Passô precisaram.
E como era de se esperar, o chorume que as redes produziram apenas reforçou o ponto de cada uma. Ficamos aqui com a fala da coreógrafa, cineasta e artista visual: “Estamos aqui para reverenciar mulheres pretas que não estão no mundo para serem recusadas. Mulheres pretas levantai-vos! Celebremos as nossas presenças!”.
Como tentei escrever no livro “Solitária”. Temos o “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus. Não abrimos mão de conquistar agora e para sempre o quarto de descanso.