A intimidade virou dado

Mesmo que os vídeos não sejam armazenados, o que a gravação ensina sobrevive
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Um executivo de recursos humanos de 45 anos, passou a tratar um chatbot como um “parceiro de raciocínio” para tomar decisões de carreira e, aos poucos, começou a se perguntar se não estava se afastando dos colegas humanos. E o caso dele não é exceção.

Uma pesquisa da Universidade Elon com o Washington Post, feita pela YouGov com mais de quatro mil adultos, mostra que 27% dos americanos recorrem a ferramentas como ChatGPT, Claude ou Gemini para conversas pessoais e emocionais. Essa proporção que sobe para quase 40% entre os menores de 50 anos. Quase 25% dos entrevistados já contaram para uma inteligência artificial algo que não contariam para outra pessoa, normalmente por medo de julgamentos.

Acontece que esse confidente não é neutro, longe disso. Os chatbots pertencem a um punhado de empresas e os desabafos que você digita podem eventualmente ser solititados pela polícia ou usados em processos. Uma das entrevistadas da pesquisa ressaltou que a IA é controlada por gente pouco confiável e que isso já devia ser motivos para não confiar na ferramenta. A própria OpenAI revelou que 70% do uso do ChatGPT em junhode 2026 não tinha relação com trabalho e eram de cunho pessoal. A Anthropic calcula que 6% dos usuários procuram algum tipo de orientação pessoal no Claude.

Para essas empresas de IA, sempre atrás de dados, isso é uma ótima notícia. A Dyson, conhecida pelo ventilador sem hélice, lançou uma escova de dentes que filma o interior da sua boca, supostamente para melhorar a mirar de um jato de água no vão entre os seus dentes, para substituir o fio dental. O equipamento sai pela bagatela de 500 dólares.

No lançamento em Paris, James Dyson contou que a IA foi treinada com meio milhão de imagens de dentes e garantiu que os vídeos permanecem no celular e não vão para os servidores da empresa. Mesmo que os vídeos não sejam armazenados, o que a gravação ensina sobrevive. Ao filmar sua escovação, você fornece dados sobre a coordenação motora fina, justamente o tipo de movimento que os robôs ainda executam mal. Você está essencialmente ensinado o robô de graça, como já acontece com algumas pessoas que são pagas para trabalhar com uma GoPro na cabeça a fim de treinar máquinas em cozinhas e oficinas.

Durante séculos, o que você pensava e o que acontecia dentro do seu corpo eram refúgios fora do alcance de terceiros. Agora isso tudo pode também virar matéria-prima para treinamento de máquinas. Tem gente reagindo e no episódio 380 do RESUMIDO , comentei sobre o crescimento de mais de 500% nas festas em que o aparelho celular é proibido entre 2024 e 2025.

Negar a tecnologia, em alguns casos, é a última fronteira de resistência.

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