ouça este conteúdo
|
readme
|
Escrevi há tempos um texto acerca da necessidade de um divã para o MP encarar problemas de sua relação com a República, a política e a máquina estatal. E o Direito, é claro.
Mas hoje quero falar do vácuo sem PGR. O presidente da República não indica. O que a sociedade deveria perguntar é: por que será? Se há uma lista tríplice e o presidente já disse que não vai levar em consideração, talvez o Ministério Público tenha que refletir acerca das razões pelas quais não apresenta quadros para governar a instituição. Bom, pelo menos é o que parece.
Talvez tenha de olhar para trás. Para as disputas internas. Lembremos que Ela de Castilhos estava nomeada (literalmente) e foi desnomeada por pressões internas que levaram ao Rodrigo Janot. E deu no que deu.
A falta de uma autocrítica em relação à Lava Jato é forte componente da crise interna do Ministério Público. Diz reportagem de O Globo que recente decisão da interina Elizeta Ramos, trocando as chefias nos estados, abre uma disputa de poder no Ministério Público. De um lado, procuradores de perfil alinhado à antiga Lava Jato e ao ex-procurador-geral Rodrigo Janot. Do outro, procuradores críticos da operação e próximos ao ex-PGR Augusto Aras.
Observe-se: a Lava Jato arrasta suas correntes ainda pelos corredores da instituição. E isso tudo influencia na demora da decisão de Lula.
Observemos: procuradores ouvidos pelo g1 (O Globo) afirmam que decisões como a da troca de chefias poderiam causar desgaste entre o futuro PGR e os membros da categoria. Claro. Evidente. Chega o novo PGR e tem de assumir o ônus – pesado – de destituir chefes já nomeados. O MP poderia dormir sem essa.
Não deve ser tarefa fácil para o presidente Lula encontrar um novo PGR. Basta olhar para o desaparecimento de parte considerável do MP durante os episódios que antecederam as eleições e o que ocorreu depois. MP esqueceu que é guardião do próprio regime democrático (está na CF). Por exemplo, nenhum radialista foi processado por propagar criminosamente golpe de Estado – e há promotores e procuradores espalhados por todo o Brasil. Tampouco ingressaram com ações para retirar os manifestantes-golpistas da frente dos quartéis. Também não houve inquérito ou denúncia contra os três chefes militares que, com a nota de 11 de novembro de 2022, incentivaram (direta ou indiretamente) o golpe (ler aqui).
Também o MP se manifestou contra a prisão de Silvinei Vasques, ex-chefe da Polícia Rodoviária Federal, que, escandalosamente, conduziu seus subordinados a impedir eleitores a exercerem o sufrágio. Enquanto centenas de prisões foram pedidas naquele dia pelo MP por crimes bem menores, para Silvinei o parecer foi de não prisão. Isonomia, quem não quer uma para viver?
Ainda o fantasma da Lava Jato. O ex-PGR Augusto Aras disse claramente: a Lava Jato deixou um “legado maldito”. Isso é pouco? E disse mais: a Lava Jato deixou prejuízo de cerca de US$ 100 bilhões. Pronto. Se o MP quiser reclamar, deve ir até Aras.
Não briguem com o mensageiro! O mensageiro esteve 29 anos no MP. Portanto, conheço o “rengo sentado e o cego dormindo” (desculpem-me o politicamente incorreto, mas é um adágio popularíssimo que aqui me permito repetir).
Veja-se o tamanho do imbróglio. Veja-se a dificuldade de o presidente da República escolher o novo PGR. E veja-se o tamanho do compromisso e da missão do novo PGR.
Terá um trabalho hercúleo. Serão mais do que doze trabalhos.
Relacionados
MP pede que polícia de SP investigue denúncia de estupro contra Otávio Mesquita
Juliana acusa Mesquita de ter passado a mão nas partes íntimas dela, sem consentimento, durante uma gravação do programa 'The Noite'
Ministério Público do DF investigará compra do Banco Master pelo BRB
Banco de Brasília diz que informou TCDF sobre a operação
STF cobra manifestação da PGR sobre atuação de Big Techs em inquérito
Ministro Alexandre de Moraes quer posicionamento sobre recursos de Meta e X Brasil contra entrega direta de dados à PF