“A Pátria em calções e chuteiras”, como escreveu Nelson Rodrigues em crônica publicada na edição de 02 de junho de 1976 no jornal “O Globo”, agora pode ser definida como a Pátria em tigrinhos e roletas. O futebol é apenas uma desculpa para a jogatina.
A aposta nos resultados das partidas também representa pouco diante do cassino na palma da mão dos aparelhos celulares. O forte é o espírito Las Vegas, como se orgulha a bet MGM, sócia do grupo Globo.
O futebol é só um detalhe. Minutos depois de ser convocado pelo técnico Ancelotti, Neymar pulou da maca e lá estava postando um vídeo para atrair o seu imenso público para rodadas grátis de um caça-níquel da sua patrocinadora bet. Grátis? Apenas uma forma sacana de levar jovens ao vício das apostas.
E assim o cassino eletrônico gira R$ 30 bilhões mensais no Brasil. Neste mês de Copa do Mundo, essa grana pode duplicar, por causa das centenas de mesas redondas e jogadores como Vini Jr. chamando para jogar dinheiro fora.
De esportistas em atividade, só o técnico Filipe Luís (ex-Flamengo, agora no Mônaco) teve a coragem de mostrar horror à jogatina promovida pelos colegas.
“Sobre as casas de apostas, hoje o Diego Ribas colocou um vídeo que, para mim, foi perfeito. Se alguém quer saber o que eu penso, o Diego falou por mim ali. Quando eu era novo, assistia Fórmula 1 com meu pai e todos os carros tinham a propriedade de cigarro. Hoje já não pode mais”, disse.
“Eu recebi várias ofertas para fazer propriedade de casas de apostas. Não faço, porque eu sei o dano que é para as pessoas que apostam, o vício que é. É uma droga, infelizmente. E daqui a uns anos, a gente vai estar olhando e falando assim: ‘caramba, todos os times, todos os lugares tinham anunciado casas de apostas demais’. O dano que está fazendo em tantas pessoas… A gente não tem a real noção ainda do que está acontecendo”.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, parece ter ouvido o apelo de Filipe Luís. “A gente precisa tratar as bets igual a gente trata o cigarro”, afirmou a autoridade econômica do governo Lula.
O futebol é apenas a isca. A Pátria em chuteiras, tio Nelson, agora é apenas uma desculpa verde e amarela para implantar a doença das apostas nos torcedores. Apostas matam.