As redes sociais passaram anos dizendo que apenas distribuíam o que os usuários criavam. Agora dizem o que o usuário deve criar, escrevem o roteiro e premiam quem obedece.
O TikTok tem uma ferramenta pouco conhecida chamada Creator Search Insights. Ela mostra temas muito buscados na plataforma que têm poucos vídeos respondendo, filtrados pela afinidade com o seu canal e classificados por um índice de demanda.
Com um clique, a IA do TikTok monta um roteiro completo a partir dos vídeos de maior sucesso sobre o assunto. O incentivo vem junto, porque o programa de monetização Creator Rewards passou a considerar o valor de busca no pagamento. Comentei no episódio #385 do RESUMIDO que vou gravar uma série seguindo essas sugestões para descobrir aonde isso leva.
A Meta segue na mesma direção. O Instagram testa em alguns países uma opção que abre o aplicativo direto nos Reels. Uma pesquisa mostra que 81% dos entrevistados nos EUA já assistiram a Reels, enquanto só 39% publicaram algum. Sobra espaço no feed e falta gente para abastecer. Pode não haver uma relação de causa, ainda assim, ela ajuda a entender por que as plataformas resolveram direcionar a produção.
A Higgsfield oferece uma forma de preencher esse vácuo. Sua ferramenta AI Influencer cria personagens sintéticos a partir de 19 configurações de menu, por cerca de seis centavos de dólar por geração de imagem. A empresa afirma ter 30 milhões de usuários. Dá para imaginar o volume de gororoba digital que pode desembarcar em plataformas sedentas por conteúdo, qualquer que seja a origem.
A comediante Tiffany Sloane mostra o encontro entre a demanda das plataformas e a oferta barata das ferramentas. A personagem gerada por IA começou a postar em setembro e em cerca de três semanas, passou de 375 mil seguidores no Instagram, com um vídeo acima de 7 milhões de visualizações. O humorista George Brett Olson publicou uma comparação lado a lado com um vídeo seu. A piada, o gesto, o cenário e até a cor da roupa eram os mesmos, e só o corpo no palco mudava. A piada roubada falava justamente da IA tomando o emprego de todo mundo e Olson diz que outros comediantes foram copiados e que as denúncias ao Instagram deram em pouca coisa. A bio não avisava que se tratava de IA e os destaques do perfil levavam a uma página no OnlyFans.
Quando milhões de pessoas consultam as mesmas ferramentas para preencher as mesmas lacunas e um vídeo pode ser produzido em segundos, a semelhança entre os conteúdos vira método. O criador humano passa a disputar espaço com personagens que cumprem a pauta sem cansar e sem cobrar, às vezes usando o material dele. Nesse arranjo, criatividade vira custo a ser reduzido.