A ‘química’

Trump reconheceu que a sua posição era insustentável e que defender Bolsonaro contra o Brasil tinha um custo alto demais
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Parece que Lula e Trump se encontraram nos corredores das Nações Unidas, que conversaram por breves instantes e logo o americano identificou a existência de uma “química” entre ambos que os levou a agendar um futuro encontro, o que há uns dias era impensável. E pronto, que bela história. Afinal, nada no mundo político resiste à empatia entre dois seres humanos – a ameaça vira compreensão; o confronto, compreensão. O mundo, cansado de tanta discórdia, adormece finalmente em sossego.

Desta vez, os mais cínicos têm razão – a história é bela demais para ser verdadeira. Na verdade, a explicação para o que aconteceu, no meu ponto de vista, nada tem a ver com a química humana, nem é do domínio dos afetos – a mudança é fruto da razão política. Nada de pessoal, mas de política. A administração Trump reconheceu que a sua posição era insustentável e que defender Bolsonaro contra o Brasil tinha um custo alto demais. O governo dos Estados Unidos não conseguia manter, por muito mais tempo, uma esdrúxula política externa que visava forçar o sistema judicial de um país estrangeiro a encerrar o julgamento de um golpe de Estado. Foi isto que se passou, não outra coisa. Desculpem os mais inclinados a acreditar nas maravilhas do ser humano, mas a mudança da atitude dos Estados Unidos nada teve de pessoal. A explicação é um clássico da política: mudar de política salvando a face. A invocação de uma “química” pessoal não passa de uma anedota. Uma anedota conveniente.

O episódio tem, no entanto, dois interessantes e importantes ângulos de análise. O primeiro é o seguinte: a política externa dos Estados Unidos deixou de ter um corpo burocrático que analisa e pesa os interesses nacionais, para estar entregue aos caprichos pessoais do seu Presidente. Isso é talvez o mais deprimente – o declínio ocidental está bem espelhado nesta história americana de uma política externa que muda sempre que o presidente sente uma “química” qualquer. A partir daqui tudo se torna possível – e imprevisível.

Depois, temos a posição brasileira. Digamo-lo sem hesitações: este acontecimento foi uma vitória do Brasil. Uma vitória da firmeza política. Valeu a pena enfrentar a loucura americana; valeu a pena não ceder à ideia de que com os Estados Unidos “é preciso ser pragmático”; valeu a pena defender que não se negociam princípios constitucionais como a separação de poderes. E não se negocia com ninguém – tenha o poder que tiver. Essa é a diferença entre dignidade e humilhação.

A 'química'
Presidente Lula discursou na Assembleia Geral da ONU (Foto: Reprodução)

Resta dizer o óbvio: ganhou Lula. E ganhou em todos os tabuleiros. Ganhou no espaço internacional afirmando o Brasil como uma potência com experiência, com sobriedade e perseverança. Ganhou também no espaço doméstico afirmando-se como uma liderança que não cede nas questões que tem a ver com a soberania nacional. E, sim, a próxima eleição ficou mais difícil para a direita. Muito mais difícil.

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