A ressaca da revolução de tecnológica

Usuários estão abandonando apps como Duolingo e Audible por conta do excesso de funcionalidades automatizadas
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Uma pessoa que tivesse 40 anos em 1929, cresceu e viu nascer os aviões, luz elétrica em todas as casas, rádio e telefone. E também bombardeiros em guerra, bomba nuclear e outros “avanços” tecnológicos. Naquela época, todos genuinamente acreditavam que o futuro havia chegado. A sensação soa bastante familiar com o atual momento que vivemos. A revolução da Inteligência Artificial está seguindo um roteiro parecido, com primeiro o deslumbramento, depois possivelmente a chegada de uma realidade menos glamourosa.

A ressaca de IA já é real. Usuários estão abandonando apps como Duolingo e Audible por conta do excesso de funcionalidades automatizadas. As queixas não são técnicas, são afetivas. Traduções impessoais, narrações robóticas, experiências diluídas. O termo “IA” virou gatilho negativo. Na esteira deste descontentamento, surgem produtos “livres de IA” sendo vendidos como premium. Está sendo criada uma segregação digital, em que quem pode pagar terá experiências humanizadas e quem não pode ficará com versões robóticas.

Foto: (Headway/ Unsplash)

Um estudo do MIT revelou o preço cognitivo dessa vida automatizada. Pessoas que escrevem com ChatGPT apresentam menor conectividade neural e não conseguem nem lembrar o que escreveram. Mais perturbador é saber que quando pesquisadores testaram um chatbot com um usuário fictício que era ex-dependente químico, uma das recomendações do robô foi para tentasse usar um pouco de metanfetamina para relaxar.

Imagine este tipo de conselho num cenário real e dá pra mensurar o tamanho da encrenca. Esses bots são programados para agradar e manter engajamento, independente das consequências para o usuário.

Elon Musk tenta moldar a IA do X/Twitter, chamada Grok, para ecoar suas opiniões pessoais, propondo até reescrever fatos históricos na sua base de dados para atingir esse objetivo. Não por acaso, países correm para criar suas próprias IAs soberanas. Singapura, Europa, América Latina, Mongólia, todos buscando não depender exclusivamente dos modelos americanos ou chineses. Treinar uma IA é como escrever uma enciclopédia invisível. Quem define os dados controla o que será lembrado.

A revolução da IA pode ser até mais profunda do que se viu em 1929, porém, por ser cognitiva e invisível, é também menos dramática. Quem mantiver suas capacidades cognitivas ativas, em vez de terceirizar tudo para a máquina, tem mais chance de se destacar.

O importante é saber usar a IA e não deixar que ela nos use.

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