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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

A terra dos pequenos moleques

Quando homens são eternamente chamados de meninos
14 de dezembro de 2023

Protesto com pares de sapato representando mulheres vítimas de feminicídio, em Copacabana, no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.

“(…) mas o miolo da rocha é mais rocha. Uma mulher não deve se enganar quanto a isso”
Carla Madeira, no livro “Véspera”.

Há um ditado africano que diz que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Sem rodeios, é hora de questionar sobre o que nossa “aldeia” anda ensinando aos meninos, que têm feito de grande parte dos adultos, moleques adoecidos. A pergunta, obviamente, é retórica. Nós no fundo sabemos as origens da transformação de muitos garotos em pessoas pela metade não em sua masculinidade, mas em seu caráter, pois o “moleque” do título deste texto não é o inocente sinônimo de “menino” ou “criança”.

Aqui vamos tratar dos moleques que traduzem irresponsabilidade premeditada, inconsequência consciente e infantilidade cruzada com a falta de escrúpulos e a crueldade que nada têm da coragem necessária para enfrentar a vida.

Embora também seja óbvio, é sempre bom relembrar que gente desonesta existe de todo gênero, toda raça e toda classe social, mas vivemos num mundo dominado por homens, logo, é urgente falar mais sobre eles.

Antes que apareçam as lamúrias caídas de compaixão pelas masculinidades ofendidas, com a cansativa narrativa da “misandria”, ou seja, o ódio por homens, etc e tal, devo dizer que nem todo homem, mas é sempre um que sem nada pra fazer de útil à sociedade em que vive, é chamado de “menino” quando resolve hackear a mulher do presidente numa rede social, para xingá-la com todos os adjetivos sexualizados e degradantes.

Também é quase sempre um que está atrás dos teclados para ameaçar de morte e, com o discurso de puro ódio, apitar para os cachorros que irão concretizar estas mortes, aumentando as estatísticas tenebrosas de feminicídio.

São eles que, quase sempre escondidos pelo manto da noite ou acobertados por uma sociedade cultivadora de hipocrisias, assassinam pessoas transexuais pelas ruas, jogando a expectativa de vida desta população para idades apenas comparáveis a períodos do neolítico e o país a um triste recorde de lugares que mais matam esta população no mundo. Por aqui uma pessoa trans vive, em média, 35 anos.

Igualmente são meninos — e, neste caso, meninos de verdade visto que são menores — que manipulam imagens de colegas de classe com inteligência artificial, para expor uma nudez falsa, mas não menos vexatória e traumatizante para moças também mal saídas da infância.

Pessoas honestas não trarão aqui os exemplos das exceções que confirmam a regra da misoginia cultivada da infância à idade adulta. Também não duvidarão da inacreditável atenuação da gravidade dos malfeitos destes homens, pelo uso da linguagem infantilizada.

Quem realmente se importa com a vida e a construção de um futuro mais seguro e menos sombrio para meninas, mães, irmãs, sobrinhas, primas, amigas, namoradas, colegas de trabalho, enfim, mulheres, precisa se comprometer com a mudança destes cenários e com a quebra de tanta toxidade ainda durante a infância verdadeira daqueles que em futuro próximo serão os homens.

É sabido que esta tarefa não é fácil, pois esbarra em sistemas educacionais, mídia em sentido amplo, religião, justiça, enfim, estruturas muito sólidas erguidas ao longo de séculos para construir, como diz a famosa autora contemporânea, esta rocha cujo miolo é mais rocha.

No entanto, a vida não há de ser apenas uma eterna constatação de fatos imutáveis. Assim como fala outro artista, Gonzaguinha, “somos nós que fazemos a vida, como der ou puder ou quiser”. Chegamos ao fim de mais um ano.

É tempo de querer.

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