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Jessé Souza

Escritor, pesquisador e professor universitário. Autor de mais de 30 livros dentre eles os bestsellers “A elite do Atraso”, “A classe média no espelho”, “A ralé brasileira” e “Como o racismo criou o Brasil”. Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA

A universidade brasileira nunca foi de esquerda

Nossa universidade nunca foi de esquerda, e os consensos que a regem são princípios conservadores, liberais, e, no limite, racistas
31/05/2024 | 07h40

Francisco Bosco, de 47 anos, autodeclarado intelectual público e filho do grande João Bosco, certamente não saiu ao pai. Vejam o que ele disse em uma entrevista ao jornalão o Estado de São Paulo:

“No fundo, a universidade no Brasil está sob suspeita, por boas e más razões. As boas razões dizem respeito ao fato de que, durante as últimas décadas, a universidade brasileira concentrou excessivamente uma perspectiva ideológica e política de esquerda. Eu estudo, por exemplo, um autor de direita que fez uma verificação nos bancos do CNPq e mostrou que alguns dos autores conservadores mais importantes do mundo praticamente não são mencionados nas teses de ciências humanas do Brasil. A pessoa que talvez primeiro tenha falado sobre isso, e nem sempre da melhor maneira, foi o Olavo de Carvalho. Embora me custe dizer essa frase, eu a digo frequentemente, sem problema algum: Olavo tinha razão nesse ponto. Então, a palavra ‘intelectual’ hoje é vista sob suspeita de elitismo e concentração ideológica. Esse é o lado correto. O lado incorreto é que, normalmente, os grupos políticos ‘intelectofóbicos’ não trabalham com argumentos e usam fake news. Então, a alternativa à elitização do debate intelectual não pode ser a ignorância e a má-fé. A alternativa tem que ser a pluralidade ideológica”.

Francisco Bosco tira onda de quem está acima das querelas políticas. Ele defende a “pluralidade ideológica” da qual ninguém sensato poderia ser contra. Só que não como o povo diz.

O cerne do seu argumento, retirado do pseudointelectual Olavo de Carvalho, é que a universidade brasileira estaria sob influência da “esquerda” e deveria ter os grandes autores conservadores do mundo também, mas, diz ele, só teria a esquerda representada.

Bobagem maior de se dizer, caros amigos, é impossível. Sim, a universidade brasileira, que faz, diga-se de passagem, um trabalho indispensável elevando o padrão civilizatório do país onde quer que se encontre e evitando a barbárie até agora, pode e deve ser criticada e melhorada também.

Porém, a nossa universidade nunca foi de esquerda, e os consensos fundamentais que a regem são princípios conservadores, liberais, e, no limite, racistas, apesar de tirarem onda de que está se fazendo crítica social.

Grande parte do meu trabalho como intelectual foi localizar esses erros e fazer uma crítica científica e política a eles.

Nesse campo, o importante é saber quem é o intelectual mais importante, já que poucos efetivamente produzem novas ideias e 99% apenas reproduzem e são epígonos de alguém. E quem produziu as ideias que estão na cabeça de todo mundo hoje em dia, especialmente porque a imprensa também se alimenta deles, foi Sérgio Buarque.

Os jornalistas e os professores universitários não retiram as ideias que defendem do nada, mas, como todo mundo, do tesouro de ideias produzidos por grandes intelectuais. Mais de 90% dos intelectuais das universidades e dos jornalistas seguem Buarque até hoje. Buarque não é de esquerda, nem inventou nada de denúncia ao poder elitista no nosso país.

Muito pelo contrário, ele utilizou o mesmo preconceito que legitima o saque do Norte global sobre o Sul — América Latina, África e Ásia — que é a visão dessas sociedades como sistemicamente corruptas, ou seja, indignas de compaixão, animalizadas e estigmatizadas — embora os maiores corruptos, os que promovem paraísos fiscais e com eles a evasão de renda e a lavagem do dinheiro sujo do planeta, estejam no Norte — fingindo que a corrupção do Norte global é deslize pessoal. Para todos os efeitos, o Norte é honesto e o Sul corrupto. Isso evita compaixão com os empobrecidos e os culpa pela própria opressão que sofrem.

Buarque se utilizou do mesmo preconceito para moralizar a dominação elitista dentro do país e sabotar a soberania popular: ou seja, embora ele diga que todo brasileiro é “cordial” e corrupto, sabemos que a elite de São Paulo se vê como americana pela absurda metamorfose do bandeirante em pioneiro ascético.

Por outro lado, a classe média branca se vê como europeia pela origem recente, passando, ambos, a estigmatizar o próprio povo, a partir da disseminação das ideias de Sérgio Buarque, como corrupto e eleitor de corruptos.

Essa ideia é o contrário da esquerda, já que é a melhor legitimação que nossa elite do saque e do roubo poderia ter. Seu serviço sujo é invisibilizado e culpa-se a vítima. Ou seja, Francisco não tem a menor ideia do que fala e, portanto, só fala bobagem.

 

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