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Lindener Pareto

Professor e historiador. Mestre e Doutor pela USP. Professor de História Contemporânea e Curador Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). É apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação científica de História e historiografia nos canais do ICL.

A vida do professor em fim de semestre

Ainda assim, vocês sabem, no meu eterno retorno, eu voltaria mil vezes professor. Voltaria?
15 de dezembro de 2023

O exemplo mais contundente do “eterno retorno” de uma condição é o exemplo do professor em fim de semestre letivo. Eterno retorno universal. Talvez não haja nada mais desesperador. Você começa o semestre empolgado, plano de ensino mil grau,reuniões, propostas de parceria. Narra aqui, explica ali, atende, prepara o melhor plano de ensino. Dois meses depois vem aquele limbo, um lusco-fusco difícil, carregado, mas você continua, projeta slide, lê um trecho do livro, prepara aula, atende aluno.

No fim do terceiro mês você fica que nem aqueles ursos de desenho animado, se arrastando, clamando pelo fim, reclama da instituição no corredor, toma aquele café ruim da máquina, fica com azia, descobre que a convenção coletiva não tá legal, encontra o outro colega professor saindo da aula, ele tá comendo uma barra de cereal terrível, aquela maçã murcha, diz que a conta tá negativa, que os alunos não são mais os mesmos, que ninguém valoriza.

Aí você entra na sala dos professores. Em geral aquele “bunker” de desolação. Sorrisos amarelos, tapinha falseane nas costas, vê uma colega querida imprimindo avaliação, vê outro maldizendo a vida e o mundo, vê um nada querido fazendo uma piada sem graça, vê muitas olheiras, vê muitos armários com nomes que nunca mais encontrou. Vai chegando a reta final. O clima vai esquentando, fim do quarto mês, seminários, provas, o colega grita do outro corredor “já tô encerrando, não aguento mais”, “férias pelo amor das deusas”, “calma, tamo quase lá”, “décimo terceiro caiu na conta, hein”; e você lá, ainda tem conteúdo, ainda tem debate. Mas aí começa o caos. Pode reparar, fica todo mundo passaaado. “Cadê a prova?”; “vai ter prova?” Aí alguém chega do “nadex” e manda: “sobre o que vai ser a prova mesmo”? Socooorro! Você sai correndo e dá “o grito do Munch!”

“O Grito”, Edvard Munch, 1893 – National Gallery, Oslo, Noruega.

Começo do quinto mês, você desacelera, o clima fica mais leve, sorrisos tímidos ensaiam um retorno aos rostos até então em desespero. Mas então vem o gran finale: trocentas provas, mil chamadas no sistema, aluno que mudou de sala, aluno que sumiu, aí você some por mais de uma semana, ninguém entende, “cadê você?”, pergunta o amigo, “cadê você?!”, pergunta a família. E você lá, com o décimo terceiro dilapidado, com a conta negativa, sentado na cadeira alucinado com esforços repetitivos, com as mil provas pra corrigir, com os mil chats GPT (a nova cola no mundo da IA), com gente te cobrando, “cadê as notas?!”; “envia as atas!”; “olha o prazo!”…O eterno retorno…Estou reclamando? Você tem alguma dúvida? O quanto disso é uma questão individual? O quanto é estrutural? “Pelo menos ainda temos carteira assinada”, diz um, “pelo menos temos emprego”, diz outro…pois é…dizem que é a tal da modernidade…o capitalismo…

Ainda assim, vocês sabem, no meu eterno retorno, eu voltaria mil vezes professor. Voltaria? Em todo caso, não se iludam, não é missão, é TRABALHO! E por isso, precisa ser digno, bem pago, estruturado e respeitado. Se não for assim, nunca será!

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