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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

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Água que a justiça não bebe

Alunos escancaram más condições de universidades federais
03/04/2025 | 08h00
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Que o Brasil é um lugar que não valoriza e não preserva seus prédios históricos até os deixar em condições que ameaçam a vida humana todo mundo já sabe. No entanto, aterroriza ainda mais quando isto ocorre em instituições de ensino, pois se evidencia outro clássico nacional: o pouco caso com a educação, mesmo em nível superior.

Dito isto, foi com enorme constrangimento e bastante náusea (literalmente!) que topei em uma rede social com um vídeo aleatório, desses que surgem no seu feed. Nele, um estudante, que depois soube tratar-se de Igor de Melo Ferreira, mostrava condições inacreditáveis para quem frequenta a prestigiada Faculdade Nacional de Direito – FND. Parei ali, pois meu pai, duas irmãs e dezenas de amigos e conhecidos foram estudantes da Nacional.

(Foto: Halley Pacheco de Oliveira/ Wikipedia)

O vídeo mostrava a sujeira e a falta de manutenção dos bebedouros. Curiosa, fiz o que não deve fazer quem deseja manter a sanidade mental em dia, neste país de tantos descalabros: Entrei nos comentários. Uma vez lá, topei com dezenas de alunos também de outras instituições públicas relatando um dia a dia com faltas mínimas na estrutura e insalubre a ponto de serem diagnosticados com doenças gástricas e do trato intestinal, incluindo a perigosíssima hepatite.

Também nos comentários é possível verificar outro clássico brasileiro: a naturalização de situações inaceitáveis. Paralelamente aos protestos sobre as condições de saneamento e segurança, havia muita ironia e redução. “Morreu alguém? Então segue”.

Fiz contato e vi que o aluno, apenas por curiosidade, foi até o terraço que estava aberto, sem nenhuma trava e flagrou uma situação complicada para qualquer edificação onde circulam milhares de pessoas, quanto mais para uma construção que está no mapa histórico do país.

A Faculdade Nacional de Direito, localizada no centro do Rio de Janeiro, em frente ao Campo de Santana, é uma grande referência no país. Ano que vem, 2026, a FND completará 135 anos com atuação relevante em momentos cruciais do Brasil. Seu centro acadêmico, fundado em 1919, foi um foco de resistência à ditadura civil-militar de 1964, teve diversos membros perseguidos e presos, até que foi fechado em 1969 para ser reaberto apenas em 1978.

Não há dúvida da excelência do Ensino Superior público no Brasil no tocante ao conteúdo. Saíram das carteiras estudantis apenas para citar a faculdade foco principal deste texto, 26 ministros do Supremo Tribunal Federal, entre eles Ilmar Galvão e Marco Aurélio Mello; além de centenas de outros ministros, como a atual Ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet. Juristas laureados e personalidades da cultura brasileira como Afonso Arynos, Vinícius de Moraes, Jorge Amado, Mario Lago, Nei Lopes. Uma lista enorme, consistente, brilhante.

Impressiona que estudantes de muitas gerações relatem a precariedade e falta de cuidado com uma edificação onde primeiro foi a casa de um sargento-mor, posteriormente foi comprada para abrigar o palácio do Conde dos Arcos e, em 1825, passou a ser a sede da Fazenda Imperial, depois do Senado Imperial e finalmente do Senado Federal até 1926. Isso significa dizer que o lugar foi o palco dos debates sobre a abolição, a república e inúmeras passagens decisivas da vida brasileira.

O estudante que fez as imagens que estão na internet não se limitou a isso. Questionou e recebeu da direção alguns laudos de potabilidade da água, datados de fevereiro de 2022, abril de 2023 e uma solicitação de materiais para este ano. Em comunicação assinada como “Gabinete da Direção”, o aluno foi informado de que a inexistência de etiquetas que informem a data das últimas manutenções “se justifica em razão do uso desgastante dos bebedouros por parte de um grande público”. Um grande público bebe aquela água!

Triste da nação que questiona a necessidade de educação pública de qualidade e que, por gerações, não consiga oferecer estrutura básica aos seus estudantes. Nem mesmo um simples copo d’água.

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