Luciana Almeida, ex-assessora de Carlos Bolsonaro na Câmara de Vereadores do Rio, enviou mensagens, obtidas com exclusividade pela coluna, combinando encontro em um escritório de advocacia com investigados por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa no gabinete do “02”. A conversa se deu com o coronel reformado Guilherme Hudson, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, uma semana antes de o filho dele e duas noras prestarem depoimento ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Aos promotores, os três, ex-assessores de Carlos, negaram as acusações de que receberam salários por anos no gabinete sem trabalhar, apesar dos indícios de que não exerciam as funções para as quais estavam nomeados.
A situação sugere um alinhamento entre os investigados com o “02” para o que foi dito nos depoimentos aos promotores.
A coluna tentou contato com Luciana, mas não obteve retorno. Ela também foi flagrada nas investigações da Polícia Federal pedindo ajuda a Alexandre Ramagem, meses depois de ter deixado a chefia da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), para obter informações de inquéritos em que Jair Bolsonaro e os filhos eram investigados no fim de 2022.


Início da investigação
O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu investigação sobre Carlos Bolsonaro em julho de 2019 para apurar os indícios de desvio de dinheiro público, por meio de entrega ilegal da maior parte dos salários de gabinete, a prática conhecida como rachadinha.
O procedimento foi instaurado após a revelação de uma série de dados por uma reportagem desta colunista e da jornalista Juliana Castro, na revista Época. Entre os assessores fantasmas apontados na reportagem estavam Guilherme de Siqueira Hudson, Ananda Hudson e Monique Hudson, o filho e as duas noras do coronel Hudson, que também é ex-colega de Aman de Jair Bolsonaro e tio da segunda mulher do ex-presidente.
No curso das investigações, o MP-RJ chamou os Hudson para prestar depoimento no dia 11 de novembro de 2019. Na troca de mensagens, revelada agora pelo ICL Notícias, no dia 4 de novembro de 2019, Luciana informa um endereço no Centro do Rio e escreve “estaremos lá”. O coronel responde: “obrigado”. No dia seguinte, Luciana telefona para ele, mas o coronel não atende. Na sequência, Hudson envia a ela cópia das três requisições do MP-RJ para que seu filho e suas noras fossem prestar depoimento.
Em 2020, o jornal O Globo já tinha revelado que o coronel Hudson e seu filho, Guilherme Hudson, tinham ido ao gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara de Vereadores no dia 30 de outubro de 2019. Agora sabe-se ainda que, depois disso, eles tiveram um novo encontro. O endereço enviado por Luciana é o escritório de advocacia do advogado Jefferson Gomes, que atua na defesa do filho do coronel e suas noras.
Procurado, Gomes disse que “como advogado eu recebi Guilherme Hudson (filho), Ananda Hudson e Monique Hudson em meu escritório, onde prestei serviços de advocacia durante todo o curso da investigação a que foram submetidos, não podendo dizer mais nada sobre isso pela minha obrigação de respeito ao dever de sigilo advogado-cliente. No mais, jamais estive com Guilherme Hudson pai, conhecendo-o, obviamente e somente por nome, por ser pai do meu cliente. E desconheço as mensagens mencionadas”.
Rachadinha de Carlos Bolsonaro: os investigados da família Hudson
Guilherme de Siqueira Hudson, o filho, constou como chefe de gabinete de Carlos durante uma década — entre abril de 2008 e janeiro de 2018. Apesar de todo o tempo em que ficou lotado na chefia do gabinete, jamais teve crachá. Tem residência fixa em Resende desde 2012, onde mantém um escritório de advocacia. A cidade fica a cerca de 170 quilômetros do Rio. Por todo o período nomeado, o ex-chefe de gabinete recebeu um total atualizado de R$ 2,3 milhões. Ananda Hudson, mulher de Guilherme, foi nomeada no gabinete em 1º de março de 2009 até agosto de 2010. No mesmo período, porém, ela cursava faculdade de Letras em Resende.
Já Monique Hudson foi casada com outro filho do coronel e também manteve residência fixa em Resende por mais de uma década e durante todo o tempo em que constou como assessora. Ela ficou lotada no gabinete da Câmara Municipal até dezembro de 2014, mas, nesse mesmo período, também cursou Letras na Associação Educacional Dom Bosco, mesma faculdade de Ananda. Ex-colegas de faculdade relataram que ela era uma excelente aluna e nunca faltava às aulas e jamais souberam que ela trabalhava na Câmara de Vereadores do Rio.
Guilherme dos Santos Hudson, o pai, foi investigado no inquérito que apurou peculato e lavagem de dinheiro no âmbito do gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) a partir de relatório do Coaf. No entanto, com a decisão do Superior Tribunal de Justiça de anular as quebras de sigilo, ele também teve o caso arquivado.
A investigação sobre Carlos Bolsonaro continua em aberto no MP-RJ. Ela foi retomada em fevereiro deste ano depois de ficar quase dois anos parada.
Em agosto de 2024, o promotor Alexandre Murilo Graça denunciou o chefe de gabinete de Carlos e outros seis assessores que se tornaram réus em junho deste ano. A apuração sobre os Hudson, naquele primeiro procedimento, foi arquivada. No entanto, como inicialmente o MP tinha pedido para arquivar Carlos e o TJ do Rio discordou do entendimento, o caso foi reaberto e permanece em sigilo.
Em julho deste ano, em uma ação cível, o MP pediu a devolução de R$ 1,9 milhão aos cofres públicos de sete assessores de Carlos Bolsonaro – valor que teria sido desviado pela rachadinha no gabinete do ex-vereador.