Rede pública forma 80% dos brasileiros premiados em mundial de profissões

Brasil ficou em 2º lugar, atrás apenas da China, na classificação por pontos; dos 41 brasileiros premiados, 33 cursaram o ensino fundamental em escolas públicas
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Por Felipe Rabioglio

O Brasil conquistou o segundo lugar na classificação geral por pontos da WorldSkills Shanghai 2026, considerada a maior competição de educação profissional do mundo. Segundo levantamento divulgado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), 33 dos 41 brasileiros premiados na competição cursaram o ensino fundamental em escolas públicas. O número representa 80,5% dos premiados e evidencia a presença da rede pública na trajetória de jovens que alcançaram destaque internacional em profissões técnicas.

Apenas oito dos 41 premiados estudaram em escolas particulares durante o ensino fundamental. A delegação brasileira conquistou duas medalhas de prata, seis de bronze e 29 medalhas de excelência.

A competição reuniu cerca de 1,4 mil participantes de 70 países e regiões, entre 22 e 27 de setembro, em Xangai. O Brasil levou 71 competidores, sua maior delegação na história do torneio, e participou das 64 modalidades. Segundo o levantamento do SENAI, 76% dos representantes brasileiros passaram pela rede pública de ensino, enquanto aproximadamente 66% tiveram acesso à formação profissional por meio de vagas gratuitas da instituição.

O levantamento considera especificamente o ensino fundamental, do 1º ao 9º ano, no caso dos 33 premiados. Isso não significa, necessariamente, que esses estudantes tenham cursado toda a educação básica na rede pública, já que a pesquisa não apresenta essa informação sobre o ensino médio.

Delegação do Brasil para a WorldSkills 2026 (Foto: Gabriel Pinheiro / CNI)

Da escola pública ao reconhecimento internacional

Realizada a cada dois anos, a WorldSkills reúne jovens profissionais em provas práticas que simulam situações reais de trabalho. As disputas abrangem áreas como indústria, construção civil, tecnologia da informação, robótica, serviços e desenvolvimento de softwares.

Durante a competição, os participantes precisam demonstrar domínio técnico, precisão e capacidade de resolver problemas dentro de prazos estabelecidos. O desempenho é avaliado por especialistas com base em critérios específicos de cada profissão.

Entre os brasileiros que subiram ao pódio está Myllena Vitória de Arruda Nogueira, medalhista de prata em Tecnologia da Moda. Em entrevista ao ICL Notícias, ela contou que cursou o ensino médio no Liceu Cuiabano, instituição pública de Mato Grosso, e começou a se interessar pela área após o incentivo de uma professora.

A oportunidade de ingressar na formação profissional surgiu por indicação do padrinho, que lhe apresentou um curso gratuito de Corte e Costura oferecido pelo SENAI. O curso também abriu caminho para sua participação na seletiva estadual que definiria o representante de Mato Grosso na etapa nacional da WorldSkills Brasil.

“Hoje, olhando para trás, vejo que aquela oportunidade de fazer um curso gratuito foi o início de uma transformação muito maior na minha vida”, afirmou Myllena.

Na edição de 2026, os representantes brasileiros tinham entre 18 e 24 anos. A preparação foi conduzida pelo SENAI e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), responsáveis por acompanhar os competidores em um processo seletivo que começou nas escolas, passou por etapas estaduais e chegou à disputa nacional.

Dos 71 participantes, 62 eram vinculados ao SENAI e nove ao Senac. A comitiva brasileira completa reuniu 209 pessoas, incluindo competidores, técnicos, avaliadores, intérpretes e profissionais de apoio.

Confira todas as medalhas conquistadas pelo Brasil

O Brasil conquistou oito medalhas de pódio na WorldSkills Shanghai 2026, sendo duas de prata e seis de bronze. As premiações foram distribuídas entre modalidades individuais e disputas em duplas.

Medalhas de prata

  • #31 – Tecnologia da Moda: Myllena Vitória de Arruda Nogueira.
  • #63 – Integração de Sistemas Robóticos: Alexandre Isaque Almeida Rodrigues e Bruno Gabriel Soares de Oliveira.
Myllena Vitória de Arruda Nogueira comemorando a medalha de prata na categoria Tecnologia da Moda (Foto: Reprodução)

Medalhas de bronze

  • #07 – Fresagem CNC: Alisson Gabriel Genova de Oliveira.
  • #21 – Sistemas Drywall e Estucagem: Guilherme Rodrigues Lunardi.
  • #23 – Robótica Móvel Autônoma: Gustavo Gabriel Dutra Alves e Arthur Martins Barud.
  • #48 – Indústria 4.0: Gustavo Vitor Martins Pereira de Sousa e João Victor Caliaro Fonseca.
  • #59 – Design Industrial: Rafael Seikiti Nishihara Candido.
  • #62 – Energias Renováveis: Kevin Gabriel Gonçalves Silva.

Além das oito medalhas de pódio, a delegação recebeu 29 medalhas de excelência, concedidas aos participantes que alcançaram o padrão de pontuação estabelecido pela organização em suas respectivas modalidades.

Como algumas disputas são realizadas em duplas, o número de estudantes reconhecidos é maior do que a quantidade de premiações.

Três anos de preparação para conquistar a prata

A conquista de Myllena foi resultado de três anos e quatro meses de preparação. Durante esse período, a jovem treinava de oito a 12 horas por dia, combinando estudos teóricos, atividades práticas e o desenvolvimento de habilidades exigidas pela competição.

Segundo a medalhista, um dos principais desafios foi conciliar velocidade e precisão durante os treinamentos. A cobrança por resultados e a necessidade de aprender com os erros tornaram a preparação desgastante, exigindo também que abrisse mão de momentos com amigos e familiares.

“Tive dias em que pensei em desistir, dias em que estava tão cansada que parecia que minha cabeça não conseguia mais parar”, relatou.

Na China, Myllena conquistou a medalha de prata em uma disputa acirrada. Segundo a competidora, sua pontuação ficou apenas cinco décimos abaixo da primeira colocada.

A brasileira contou que, durante os três primeiros dias de prova, sentiu que não havia conseguido apresentar todo o seu potencial. No último dia, porém, conseguiu melhorar o desempenho e recuperar a expectativa de conquistar uma medalha.

“Na hora em que anunciaram o resultado e vi a bandeira do Brasil, levei um susto enorme! Não porque duvidasse da minha capacidade, mas porque naquele instante percebi que tudo aquilo que vivi, todos os sacrifícios, os treinamentos e os dias difíceis estavam se concretizando ali, em Shanghai”, afirmou.

Outro destaque da delegação brasileira foi a dupla Gustavo Gabriel Dutra Alves e Arthur Martins Barud, medalhista de bronze em Robótica Móvel Autônoma. Os dois também receberam o prêmio Best of Nation, destinado aos competidores com o melhor desempenho de cada país. Os brasileiros alcançaram 771 pontos na modalidade.

A segunda colocação do Brasil se refere à soma geral de pontos, e não ao quadro tradicional de medalhas. Nesse critério, a delegação brasileira acumulou 44.748 pontos, atrás da China, que somou 47.991. A Índia apareceu em terceiro lugar, com 43.657 pontos.

Diferentemente do quadro de medalhas, a classificação geral por pontos considera o desempenho de todos os competidores nas modalidades disputadas, incluindo aqueles que não conquistaram premiações. Cada participante recebe uma nota convertida para uma escala internacional padronizada, e a soma dessas pontuações determina a posição de cada país. Nas disputas em dupla, a nota da equipe é contabilizada apenas uma vez.

Resultado reforça debate sobre acesso à formação técnica

Segundo o SENAI, aproximadamente dois terços dos representantes brasileiros tiveram acesso à formação profissional por meio da gratuidade regimental, que oferece vagas sem cobrança de mensalidades.

Ao comentar o levantamento do SENAI que aponta que 80,5% dos brasileiros premiados na WorldSkills cursaram o ensino fundamental em escolas públicas, Myllena ressaltou o papel da educação na ampliação de oportunidades para os jovens.

“Acredito que esse dado mostra a importância da educação pública e, principalmente, da educação profissional como ferramenta de transformação social”, afirmou.

A medalhista, que ingressou no SENAI por meio de um curso gratuito, também defendeu uma maior participação das famílias e das comunidades na divulgação de oportunidades de qualificação. Para ela, o incentivo de pessoas próximas pode ser decisivo para estudantes que ainda desconhecem os caminhos disponíveis para ingressar na formação técnica.

“Às vezes, o jovem só precisa de alguém que acredite nele, apresente uma oportunidade e mostre que existe um caminho ao seu lado, pronto para recebê-lo”, disse.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail