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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

Cadê a juventude que estava aqui?

O chocante número dos desaparecidos brasileiros
1 de fevereiro de 2024

A Fundação para a Infância e Adolescência (FIA), através do Programa SOS Crianças Desaparecidas, faz distribuição de pulseiras para identificação de crianças, na Rodoviária do Rio

Nem bem o ano começou e o Rio de Janeiro se arrepiou com o caso do desaparecimento do pequeno Édson Davi da Silva Almeida, de 6 anos, no dia 4 de janeiro, na praia da Barra da Tijuca. Desde então, a família, os amigos, a polícia, os bombeiros, todo mundo corre atrás de pistas que levem ao paradeiro da criança e… nada. O garoto simplesmente evaporou em meio ao calor do verão carioca.

Ninguém viu o menino na água, aliás, a mãe afirma que ele sempre sentiu muito medo do mar, logo é quase impossível que tenha ido sozinho dar um mergulho e se afogado. A família está segura de que Édson foi levado por alguém e eles têm muitos motivos para acalentar esta suspeita.

Os números de pessoas desaparecidas no Brasil são tão desconcertantes quando imprecisos. Em dados de um passado recente, por volta de 2010, uma CPI na Câmara dos Deputados chegou ao alarmante número de 250 mil pessoas sumidas. Um número superior ao do contingente populacional, entre outras, de cidades médias como Macaé/ RJ (246.391), Araraquara/ SP (242.228) e Juazeiro/ BA (237.821). Segundo estes dados, uma criança ou adolescente desaparecia a cada 15min por aqui.

Informações mais recentes falam em 200.557 mil pessoas, entre 2019 e 2021, e 74.061 só em 2022. É muita gente, e muita gente nova, pois cerca de dois terços destes totais estão na faixa entre 0 e 17 anos, milhares de pessoas que simplesmente em um belo dia se diluem no ar para familiares desesperados, amigos tristíssimos e uma vida que muda radicalmente de rumo ao virar uma esquina ou se afastar milimetricamente dos pais numa praia. Dentro deste segmento etário, o número é mais denso entre os 12 e 15 anos.

Convenhamos, sabemos que todos estes números são defasados e subnotificados. As informações estão dispersas, pois ainda não existe um cadastro único de desaparecidos do país. Há um esforço para que ele aconteça, mas… Há também o fato de que muita gente some e a família não tem condições de acessar autoridades e órgãos competentes. Aliás, que órgãos?

Em junho de 2023, a chefe da única delegacia especializada em menores desaparecidos do Brasil, a carioca Patrícia Conceição Nobre da Paz, do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (SICRIDE), em Curitiba/ PR, dava uma entrevista ao portal R7 ensinando como agir em casos de sumiço de crianças (Resumo ao final).

PARA ONDE VÃO OS DESAPARECIDOS?

No caso das crianças, quase todos os cenários nos levam a filmes de distopia ou terror como adoção ilegal, tráfico de órgãos, exploração sexual e escravidão… mesmo os desaparecimentos que são voluntários, pois a maioria das fugas de menores tem por trás alguma história de violência.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil é um dos principais países de origem do tráfico humano na América Latina e Caribe, com destaque para pessoas para fins de exploração sexual e trabalho escravizado.

O Fórum de Segurança Pública (FBSP) informou que o número de desaparecidos no Brasil foi de 82.684 pessoas em 2020. Desse total, 70% eram meninas e mulheres.

Ainda de acordo com o Mapa dos Desaparecidos no Brasil, do FBSP, entre 2019 e 2021, sumiam numa média de 183 indivíduos por dia ou um a cada 7,8 minutos. Gente preta desaparece em maior quantidade (54,3%), mas a maioria dos reaparecimentos são de pessoas brancas (54,1%).

Caro leitor e cara leitora, os dados estão aí. Que nação é esta que não se choca ao ponto de olhar com lupa uma cena aterradora como esta? Não é preciso apelar para o clichê “e se fosse o seu filho/ a” para dar conta da dor que atravessa quem perde a pessoa que ama desta forma bizarra, engolida pelo mundo. Talvez fosse o caso de confrontarem-se os números atuais com os de épocas remotas do tráfico transatlântico. Talvez fosse o caso de fazer relações mais profundas, pois enquanto você lia este texto alguém sumiu no vento, numa “kalunga grande” que não cessa, devorando corpos e almas.

RECOMENDAÇÕES DAS AUTORIDADES:
• Notifique a polícia assim que surgir a desconfiança de algo errado no paradeiro do menor. Esperar 24h pode atrasar investigações de forma irrecuperável.
• Levem fotos as mais recentes e forneçam toda a informação possível. Tudo interessa, desde a forma como a criança estava vestida até com quem ela conversava, se relacionava, etc.
• Qualquer contato com a possível localização ou pista sobre a criança deve ser compartilhado com as autoridades. Nunca conduzam investigações por conta própria.

Nos últimos dias acharam novas imagens do menino Édson no dia do desaparecimento, próximo à barraca de praia onde seu pai trabalhava. Há esperança. Sempre há.

 

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