Por Gabriel Gomes
Uma viatura da Polícia Militar Rodoviária (PMRv) atropelou um motociclista na noite deste domingo (25), no bairro Ingleses, em Florianópolis, Santa Catarina, enquanto moradores comemoravam a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O jovem sofreu fraturas na perna, no pulso e em um osso da face. Ele permanece internado sob custódia policial e está impedido de receber visitas de familiares, segundo informações do Hospital Governador Celso Ramos.
Imagens que circulam nas redes sociais mostram a viatura atravessando o canteiro central de uma avenida, entrando na contramão e atingindo violentamente o motociclista. A colisão ocorreu nas proximidades de outras pessoas que participavam da comemoração pela vitória de Lula no segundo turno das eleições presidenciais.
Em boletim médico, o Hospital Governador Celso Ramos informou que o jovem deu entrada na emergência às 1h20 desta segunda-feira (26), acompanhado por policiais. A vítima passou por exames, foi avaliado pela equipe cirúrgica e encaminhado para uma cirurgia.
Segundo a unidade, o paciente está clinicamente estável e se recupera em um quarto. O hospital confirmou, entretanto, que ele permanece sob custódia policial e não pode receber visitas de familiares. “Até o momento que foi encaminhado para cirurgia não foram encontrados familiares no local”, informou a direção, acrescentando que está à disposição da família para prestar esclarecimentos.
A advogada Sandra Annueck, responsável pela defesa do jovem, confirmou ao ICL Notícias que ainda não conseguiu contato direto com o jovem. Segundo ela, a defesa busca autorização junto às autoridades responsáveis pela custódia para ter acesso ao cliente.
“Estamos buscando autorização para ter acesso direto. Não temos ainda acesso, mas estamos buscando essa autorização”, explicou.
A advogada também informou que a audiência de custódia, que deverá avaliar a legalidade da prisão, está prevista para ocorrer somente após a alta hospitalar do motociclista. A defesa trabalha para reunir imagens e outros elementos que possam esclarecer as circunstâncias do atropelamento. Sandra considera que os registros disponíveis apontam para uma atuação abusiva dos policiais.
“Estamos trabalhando no sentido de reunir todas as provas, os vídeos que a gente já teve acesso, da violência perpetrada contra ele, em flagrante abuso de autoridade por parte da autoridade policial”, afirmou.
Testemunhas do caso denunciam uma possível omissão de socorro por parte dos policiais após o atropelamento. A colisão teria ocorrido por volta das 22h10. Às 22h16, aproximadamente seis minutos depois, um vídeo registrado no local mostra populares pedindo uma ambulância para atender o motociclista.
Ainda de acordo com o relato, às 22h24, cerca de 14 minutos após o atropelamento, a mãe da testemunha acionou o número 191 para solicitar socorro.
Em nota enviada ao ICL Notícias, a Polícia Militar de Santa Catarina afirmou que a viatura envolvida no atropelamento retornava de uma ocorrência de trânsito na região do Rio Vermelho quando os agentes se depararam com motociclistas realizando manobras consideradas perigosas na SC-403, no bairro Ingleses, em Florianópolis.
Segundo a corporação, os policiais iniciaram uma intervenção para conter um dos motociclistas e, durante a abordagem, houve uma colisão entre uma motocicleta e a viatura. A versão apresentada pela PM, no entanto, não esclarece por que o veículo policial trafegava na contramão, conforme mostram as imagens divulgadas nas redes sociais.
A Polícia Militar informou ainda que encaminhará o caso à Corregedoria do Comando de Polícia Militar Rodoviária para investigar as circunstâncias da ocorrência e avaliar eventuais medidas administrativas.
Vereador vai acionar Ministério Público
O vereador de Florianópolis Leonel Camasão (PSOL), que acompanha o caso, informou que a vítima permanece internada e denunciou que familiares e a advogada do jovem estariam enfrentando dificuldades para ter acesso a ele.
“A polícia está tratando ele como um presidiário. A família não tem acesso a ele, a advogada da família não teve acesso a ele. Dizem que a advogada só poderá falar com ele com autorização do diretor [do hospital]. Só que ele não é um presidiário”, afirmou o parlamentar.
Diante do episódio, Leonel Camasão informou que está preparando uma representação ao Ministério Público de Santa Catarina, responsável pela fiscalização da atividade policial.
O vereador considera que a abordagem precisa ser investigada e questiona se a atuação dos agentes pode ter sido influenciada pelo contexto político das comemorações.
“Não se sabe se a pessoa que estava conduzindo a viatura, frustrada com o resultado da eleição, cometeu um excesso ali no momento, de cabeça quente. Não dá para saber”, afirmou.
Para Camasão, independentemente de qualquer irregularidade que possa ter sido cometida pelo motociclista, o atropelamento não pode ser tratado como uma abordagem policial normal.
“É um absurdo em vários aspectos. É um absurdo a abordagem, o atropelamento, é um absurdo impedir o contato da família, é um absurdo impedir o acesso da advogada da família”, declarou.
O parlamentar também criticou a possibilidade de a investigação se concentrar exclusivamente na conduta do motociclista, sem apurar a responsabilidade dos agentes envolvidos na colisão.
Leia a nota da PM:
“Na noite deste domingo (25), uma guarnição da Polícia Militar Rodoviária deslocava-se pela SC-406, retornando de um atendimento de sinistro de trânsito na ®ião do Rio Vermelho, quando, ao chegar à SC-403, deparou-se com diversos motociclistas realizando manobras perigosas e conduzindo os veículos de forma incompatível com a segurança viária.
Conforme informações preliminares, cabe ressaltar:
1) Diante da situação, a guarnição iniciou a intervenção para conter um dos condutores que praticava as manobras. Durante a abordagem ocorreu uma colisão de uma das motocicletas com a viatura policial.
2) O condutor da motocicleta foi encaminhado ao hospital para atendimento médico.
3) Em relação às imagens divulgadas, a Polícia Militar informa que serão adotadas as medidas administrativas cabíveis, com o encaminhamento dos fatos à Corregedoria do Comando de Polícia Militar Rodoviária, para apuração das circunstâncias.
A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e a correta prestação do serviço de segurança pública à sociedade.
Comando de Polícia Militar Rodoviária
Policia Militar de Santa Cataria”