A Polícia Federal investiga ordens de pagamento e referências a transações financeiras identificadas em mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, e seu cunhado, Fabiano Zettel, que incluem menções a políticos. As informações foram publicadas em reportagem da Folha de S.Paulo, assinada por José Marques e Julia Chaib.
Além de empresário, Zettel atuava como pastor ligado à Igreja Lagoinha em Belo Horizonte. Nas eleições de 2022, foi o sexto maior doador individual do país, com repasses de R$ 3 milhões para a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e R$ 2 milhões para a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), então candidato ao cargo.
O objetivo, segundo a reportagem, é apurar se há indícios de irregularidades nesses repasses que justifiquem novas diligências e, eventualmente, o avanço da Operação Compliance Zero. As informações obtidas em conversas e quebras de sigilo devem ser somadas a outros elementos, como possíveis acordos de delação premiada, inclusive de Vorcaro, que assinou um termo de confidencialidade para negociar colaboração.
Zettel é apontado pelos investigadores como principal operador financeiro do esquema atribuído ao ex-banqueiro. A análise da sua rede de movimentações é considerada estratégica pela PF para abrir novas frentes de apuração relacionadas ao Banco Master.
Com base no cruzamento entre mensagens e dados bancários, a polícia busca confirmar se os pagamentos mencionados foram de fato realizados. Caso positivo, a intenção é verificar se há justificativa legal como prestação de serviços ou se existem sinais de irregularidade.
Um dos pontos sob análise é a eventual ligação de repasses ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), citado em mensagens. Em nota, o parlamentar afirmou que nunca recebeu valores de Vorcaro ou de pessoas a ele ligadas e disse não conhecer Zettel. Declarou ainda confiar que a investigação esclarecerá os fatos.
Segundo reportagem anterior da Folha, já há suspeitas envolvendo crimes financeiros em fundos ligados a Zettel associados ao resort Tayayá, que teve participação de empresa da família do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Essa empresa vendeu parte de suas cotas a um fundo relacionado ao grupo investigado. Toffoli tem afirmado a interlocutores que não conhece Zettel e declarou publicamente que nunca recebeu valores de Vorcaro ou de seu cunhado.
A defesa de Zettel não se manifestou. Ele foi preso duas vezes: a primeira em janeiro, por decisão de Dias Toffoli, e a segunda em março, já sob relatoria do ministro André Mendonça. Atualmente, está detido no Presídio Federal de Brasília, no Complexo da Papuda — onde Vorcaro também esteve antes de ser transferido para a Superintendência da PF na capital.
De acordo com a investigação, Zettel teria papel central na engrenagem financeira do grupo, sendo responsável por intermediar e executar pagamentos, inclusive por meio de contratos simulados. Decisão de Mendonça aponta que ele atuava na estruturação de mecanismos para viabilizar transferências e dar aparência formal aos repasses.
Os investigadores também afirmam que Zettel participava diretamente das comunicações com Vorcaro sobre a gestão dessas movimentações, recebendo orientações e repassando informações sobre sua execução.
‘Milícia privada de Vorcaro’
Outra suspeita é de que ele tenha participado da elaboração de uma proposta de contratação fictícia de um servidor do Banco Central, por meio de uma consultoria, com o objetivo de justificar pagamentos. A defesa do servidor não foi localizada.
Além disso, Zettel seria responsável por operacionalizar pagamentos ligados a um grupo descrito nas investigações como uma “milícia privada”, conhecido como “A Turma”.
As apurações envolvendo o Banco Master deram origem a pelo menos três inquéritos na PF, ainda sem prazo para conclusão. Um deles, que trata de suspeitas de fraude na tentativa de compra do banco pelo BRB (Banco de Brasília), foi prorrogado por 60 dias diante da necessidade de novas diligências e da grande quantidade de material apreendido.
Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro, no Aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar para o exterior. A PF suspeita de tentativa de fuga, o que ele nega, afirmando que viajaria para reuniões com investidores. Após ser solto, voltou a ser detido em março, em nova fase da operação que também atingiu servidores do Banco Central e o próprio Zettel.