Por Cleber Lourenço
A decisão do ministro André Mendonça, do STF, que autorizou buscas e apreensões contra o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro coloca a relação dele com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, no centro da investigação da Polícia Federal sobre os aportes bilionários do RioPrevidência no banco.
O documento afirma que a investigação encontrou indícios de que a atuação de Castro “não se limitou a contatos institucionais”, mas envolveu um “vínculo pessoal estreito” com Vorcaro, marcado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro.
Segundo o documento, a PF sustenta que os investimentos do RioPrevidência no Banco Master teriam sido precedidos por “aproximação política, encontros pessoais e rearranjos administrativos” dentro da autarquia previdenciária fluminense.
A investigação aponta que, entre outubro de 2023 e julho de 2024, o RioPrevidência realizou aportes de R$ 970 milhões em Letras Financeiras do Banco Master. Depois, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, foram feitos mais R$ 2,01 bilhões em fundos estruturados pelo mesmo grupo financeiro.
Para a PF, a motivação das operações não estaria baseada em critérios técnicos regulares de investimento, mas em uma “relação pessoal e indevida” entre o controlador do Banco Master e autoridades com poder sobre o fundo previdenciário estadual.
A decisão afirma que conversas encontradas no celular de Vorcaro indicariam que determinados aportes dependiam de “alinhamento político” com o então governador do Rio de Janeiro.
“Os elementos reunidos indicam, em tese, que Cláudio Bomfim de Castro e Silva, na condição de então Governador do Estado do Rio de Janeiro, mantinha vínculo próximo com Daniel Vorcaro e exerceu papel politicamente relevante para a viabilização dos aportes do RioPrevidência no Banco Master”, afirma André Mendonça.
Encontros e aportes sob suspeita
O ministro também cita um “sincronismo” entre encontros mantidos entre Castro e Vorcaro e os aportes financeiros subsequentes feitos pelo RPPS fluminense.
No despacho, Mendonça afirma ainda que a relação entre os dois teria ultrapassado a esfera institucional e reproduz um dos trechos mais sensíveis da investigação da Polícia Federal.
“Portanto, segundo a representação, a atuação do ex-Governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do RioPrevidência”.
O trecho é tratado pela PF como um dos principais indícios de que a relação entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro teria extrapolado o ambiente institucional e passado a influenciar diretamente decisões envolvendo bilhões de reais do fundo previdenciário estadual.
Segundo o despacho, esse relacionamento teria permitido o “alinhamento político necessário” para liberar os investimentos e promover a “nomeação estratégica” de dirigentes do RioPrevidência em cargos-chave da estrutura decisória do fundo.
De acordo com a PF, essas mudanças teriam garantido que as decisões de credenciamento e aplicação de recursos fossem conduzidas “em desconformidade com a política de investimentos e com as normas regulatórias, mas em consonância com os interesses do Banco Master”.
A Procuradoria-Geral da República endossou a tese da Polícia Federal. No parecer citado na decisão, o MPF afirma que as relações pessoais e políticas entre Vorcaro e Cláudio Castro teriam viabilizado investimentos bilionários em Letras Financeiras e fundos ligados ao Banco Master, em desacordo com as exigências regulatórias e com a política de investimentos do RioPrevidência.
O parecer também afirma que a relação entre os dois “ultrapassou o mero contato institucional” e aponta indícios de tratativas ilícitas que teriam viabilizado a captação de R$ 3,691 bilhões em investimentos para o Banco Master.
Além de Cláudio Castro, a decisão autorizou buscas contra dirigentes do RioPrevidência, operadores financeiros e empresas apontadas pela PF como integrantes da engrenagem de captação de recursos previdenciários para o Banco Master.
No despacho, André Mendonça afirma que os elementos reunidos até agora apontam “elevada probabilidade” de existência de um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro voltado ao desvio de recursos do RioPrevidência.