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Jessé Souza

Escritor, pesquisador e professor universitário. Autor de mais de 30 livros dentre eles os bestsellers “A elite do Atraso”, “A classe média no espelho”, “A ralé brasileira” e “Como o racismo criou o Brasil”. Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA

Chegou a hora da onça beber água?

As nossas forças armadas são o nosso verdadeiro “inimigo interno”
8 de fevereiro de 2024

Hoje, 8 de fevereiro de 2024 — exatamente treze meses depois da tentativa de golpe — foi um dia inesquecível, ensolarado e glorioso para muitos, entre os quais me incluo. Afinal, a investigação sobre o golpe, que seguia a passos de tartaruga em relação aos mandantes e articuladores principais, atingiu o próprio Bolsonaro, alguns de seus ex-ministros mais próximos e, last but not least, três generais de quatro estrelas.

Esta não é uma investigação qualquer. Bolsonaro foi o moleque de recados da elite brasileira, seja a do “agro pop” seja da Faria Lima, que o todo-poderoso Paulo Guedes incorporava, de modo a conseguir emplacar, enfim, um candidato que fosse capacho da elite, mas com respaldo popular. O projeto da elite brasileira é o de perpetuar a República Velha com novas vestes, para manter o controle do Estado, na verdade, a base de todo seu poder há séculos.

Mas não se legitima mais por muito tempo nenhuma dominação social sem o sufrágio universal, o grande inimigo histórico da elite brasileira. Como, com a provável exceção de FHC, a elite jamais teve um candidato orgânico que conquistasse o afeto popular, Bolsonaro se apresentou como o plano B perfeito: se não se pode conquistar com argumentos a população oprimida, então a alternativa é desvirtuar com mentiras e violência material e simbólica a soberania popular, e manipular o ressentimento e a raiva contra o próprio povo.  Nesse sentido, a eleição de 2018 com seu clima de mentira, medo e hostilidade com a complacência de toda a grande imprensa, já foi um golpe, já que as pré-condições da deliberação popular não foram respeitadas.

Um processo político por golpismo, a grande chaga histórica da frágil democracia brasileira, nunca é apenas de pessoas, mas pode chegar às vísceras do secreto mecanismo de desigualdade e poder que nos domina. Esta é a chance aberta por este processo. Mostrar quem é Bolsonaro e sua claque e o que fizeram ajuda a deslegitimar o próprio Bolsonaro — uma tarefa urgente — mas também quem o apoiou.

A cereja do bolo é desnudar os elos e a articulação entre a elite que se esconde por trás dos prédios espelhados, a sua imprensa servil e venal, e, por último, mas longe de ser o menos importante, as forças armadas educadas no golpismo e na defesa dos interesses imperiais americanos. A elite e a sua imprensa vão se safar com alguns arranhões na sua legitimidade. Esse núcleo duro do poder vigente é intocável. Desnudá-los seria a revolução democrática brasileira que nunca existiu. Isso seria ganhar a guerra que os melhores brasileiros tentaram sempre sem sucesso. Mas se não podemos ganhar a guerra podemos ganhar algumas batalhas importantes que pavimentam o caminho para o futuro melhor.

A primeira batalha é a perspectiva que se abre da desconstrução da mentira falso moralista de Bolsonaro e sua claque religiosa e empresarial. Isso não é pouco e dificulta para o futuro próximo o sequestro pela elite do voto popular com base em mentiras em escala industrial. Tirar Bolsonaro de cena e deixá-lo apodrecer na prisão é em si um processo de aprendizado grandioso para o sofrido e indefeso povo brasileiro.

A outra perspectiva que se abre é ainda mais importante: a de subordinar, finalmente, o poder militar ao poder civil. Não se acabará com a cultura de golpes de Estado do Brasil — que é a resposta histórica dos donos do poder para limitar o sufrágio universal — sem se enquadrar essa tropa de generais incultos, entreguistas e metidos a “macho”, sempre bradando em tom ameaçador e intimidando a população. É a coragem covarde de quem pode mandar pobre para morrer em seu nome. Os generais Heleno, Braga Neto e Arruda, além do almirante Garnier, são exemplos perfeitos do que disse acima.

Embora existam exceções é uma escória da pior espécie, formada depois da Segunda Guerra Mundial para perceber a soberania nacional como subordinada aos interesses imperiais americanos. Quem é o ingênuo que acredita na vocação democrática das forças armadas? Quantos entre os generais que não aderiram ao golpe mambembe de Bolsonaro o fizeram apenas por um cálculo de risco? Afinal, seria o primeiro golpe militar sem o apoio dos americanos, que é a quem essa canalha realmente obedece além dos donos do dinheiro. Nesse contexto, para os generais que conseguiram preservar dois neurônios funcionando, depois da lavagem cerebral da formação militar, a quartelada poderia ter consequências imprevisíveis. Mas o que eles fariam se fosse Trump o presidente americano?

As nossas forças armadas são o nosso verdadeiro “inimigo interno”, como a associação com o golpismo antipopular não só de Bolsonaro comprova. A principal chance de sucesso dessa investigação é chegar neles, desmoralizar finalmente as suas ambições de tutelar a política e subordiná-la como qualquer servidor público ao poder civil. Vamos aguardar ansiosos os próximos capítulos dessa novela.

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