Desinformação como respiração artificial
Na última manifestação bolsonarista, realizada no Rio de Janeiro, para provar que não há nada de novo sob o sol, o senador Flávio Bolsonaro cometeu o grave crime de denunciação caluniosa. Claro, o alvo, mais uma vez, foi a ideia fixa do clã: o ministro Alexandre de Moraes. Preste atenção especialmente na minutagem de 0:16 a 0:33.
“E nós estamos aqui, pela família do Clezão, que está aqui com a gente. Esse, que foi a vítima fatal de um ministro, que de forma deliberada deixou Clezão morrer na cadeia, impedindo que ele cuidasse da própria saúde.”
O Marco Antônio, de William Shakespeare, provavelmente recordaria que o senador “é um homem honrado”, e, por isso, como toda pessoa que preza acima de tudo sua honra e seu nome, ele jamais faltaria com a verdade. Poderá, portanto, provar o que afirmou com a angústia do goleiro na hora do gol. É bem verdade que talvez perca o jogo de goleada, outro constrangedor 7 a 1, mas quem decidiu vir de faca em dia de sopa foi ele mesmo.
Contudo, uma singela data compromete a máquina de desinformação acionada pelo ecossistema bolsonarista, que sempre opera a todo vapor: 27 de fevereiro de 2023. Nesse dia, o ministro terrivelmente evangélico André Mendonça proferiu uma decisão de grande relevância para a sorte do senhor Cleriston Pereira da Cunha, mais conhecido como Clezão.
(Pergunte-se ao senador Flávio o nome completo do Clezão. Pois é.)
A decisão pode ser encontrada rapidamente no universo digital, marca d‘água, marco zero, alfa e ômega da extrema direita transnacional.
Aí está: claro como a luz do Sol; clareira luminosa nessa escuridão. Como tergiversar? Coube ao ministro André Mendonça analisar o habeas corpus impetrado pela defesa do senhor Cleriston Pereira da Cunha.
(Antes de prosseguir, uma pausa se impõe: lamento profundamente que o Clezão tenha falecido na prisão e presto total solidariedade à sua família. Lamento ainda mais que milhões de brasileiros e de brasileiras sigam reféns da Casa Verde bolsonarista.)
O ministro Mendonça manteve-se rigidamente colado à jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, segundo a qual “esta Suprema Corte firmou o entendimento de não ser cabível habeas corpus contra ato de Ministro ou Órgão colegiado do STF”.
Duvida? Leia por si mesmo:
O ministro Mendonça não questionou a prisão, tampouco questionou a natureza dos atos golpistas ou a punição à tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; na verdade, na primeira página da Decisão, acima reproduzida, fez questão de recordar, “Colhe-se dos autos que o paciente foi preso em flagrante, em 08/01/2023”. Não surpreende, pois, sua conclusão.
Pode haver qualquer dificuldade interpretativa? Inclusive o ministro redige seu texto na primeira pessoa do singular, orgulhoso de sua autoridade, cioso de sua assinatura: “nego seguimento ao habeas corpus”.
(Os documentos históricos parecem desaprovar os delírios bolsonaristas, pois, sempre que são consultados, repõem a serena realidade dos fatos.)
Necropolítica
Há outra data significativa e não podemos negligenciá-la: no dia 1 de setembro de 2023, a Procuradoria Geral da República recomendou a libertação do Clezão para que ele cumprisse a pena em seu domicílio, a fim de tratar da saúde. A solicitação foi encaminhada ao ministro Alexandre de Moraes. Infelizmente, antes da apreciação da recomendação, no dia 20 de novembro de 2023, o senhor Cleriston Pereira da Cunha faleceu na prisão onde se encontrava.
Nenhum defensor da democracia deve deixar de se comover com o infortúnio. Clezão é uma entre as tantas vítimas dos políticos bolsonaristas e dos influenciadores de extrema direita que criaram (e ainda sustentam) um círculo infernal de teorias conspiratórias e fake news, provocando um autêntico problema público de saúde mental: a dissonância cognitiva coletiva.
Em vida, o senhor Cleriston Pereira da Cunha não recebeu uma única visita do mito e ainda assim manteve-se tão fiel que nada declarou que pudesse comprometer o ex-presidente. Pelo contrário, Jair Messias Bolsonaro estava muito ocupado para pensar em seus apoiadores presos em Brasília, preferindo afastar-se o mais possível de qualquer associação com a tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023. Afinal, Jair meditava profundamente em Orlando sobre como gastar os 17 milhões que recebeu dos mesmos apoiadores por meio de doações solicitadas sem nenhuma vergonha na cara.
Agora, a fim de livrar-se da provável condenação pela idêntica trama golpista e da prisão daí decorrente, o clã Bolsonaro abraça-se ao cadáver de Clezão como se em algum momento os Bolsonaro tivessem dado um minuto de atenção às suas vítimas, ou seja, às milhares de pessoas que foram levadas à mais profunda dissonância cognitiva por meio da poderosa máquina bolsonarista de desinformação.
A ironia perversa dessa situação revoltante é o retrato falado de um novo crime: moribundo, o bolsonarismo assume de vez a necropolítica como sua definição.
(Na próxima semana, tratarei do caso de Débora Rodrigues dos Santos.)
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