Por Cleber Lourenço
A discussão sobre o calendário de votações da Câmara dos Deputados revelou nesta terça-feira (9) uma preocupação que começa a ganhar espaço entre os líderes partidários: o impacto antecipado da disputa eleitoral de 2026 sobre o funcionamento do Congresso Nacional.
Durante reunião do Colégio de Líderes, parlamentares discutiram a crescente pressão para ampliar a permanência dos deputados em seus estados em meio ao avanço das articulações políticas locais, às festas juninas e à realização da Copa do Mundo. O tema acabou se tornando um dos principais pontos de debate da reunião.
Segundo o líder do PSOL na Câmara, Tarcísio Motta (RJ), parte dos parlamentares tem defendido uma reorganização dos trabalhos legislativos para permitir maior presença nas bases eleitorais nos próximos meses.
A discussão ocorre em um momento em que deputados de praticamente todos os partidos intensificam agendas regionais, participam de eventos políticos e ampliam articulações com prefeitos, vereadores e lideranças locais. Embora a campanha eleitoral ainda não tenha começado oficialmente, a movimentação nos estados já influencia a dinâmica do Congresso.
De acordo com Motta, um dos receios manifestados durante a reunião foi a possibilidade de a sociedade interpretar uma eventual redução do ritmo de votações como sinal de que o Parlamento já estaria concentrado exclusivamente na disputa eleitoral.
“O fundamental é a pressão que os deputados estão tendo para ficar na base em período pré-eleitoral e a visão de alguns líderes da preocupação de falar para a sociedade que a gente parou de trabalhar já e já está pensando só na eleição”, afirmou.
A preocupação ocorre porque o segundo semestre costuma ser um período de intensa atividade política nos estados, especialmente para parlamentares que pretendem disputar cargos majoritários, coordenar campanhas ou fortalecer alianças regionais para a eleição do próximo ano.
A falta de consenso entre os líderes acabou impedindo qualquer definição sobre quais semanas poderão ter esforço concentrado ou redução das atividades presenciais em Brasília.
“Não dá nem para programar qual semana a gente faz esforço concentrado. Em qual semana a gente consegue dar uma pauta mais consensual”, relatou Motta ao comentar as dificuldades enfrentadas pelos líderes para construir um calendário que acomode os diferentes interesses das bancadas.
Outro fator que apareceu nas discussões foi a Copa do Mundo. Segundo o parlamentar, já existe entendimento de que não haverá sessão deliberativa no dia 24 de junho, quando a seleção brasileira estará em campo. As demais datas, no entanto, continuam em aberto.
A indefinição expõe um dilema recorrente em anos pré-eleitorais. De um lado, deputados buscam ampliar sua presença nos estados para fortalecer bases políticas e alianças locais. De outro, lideranças partidárias tentam preservar a imagem institucional do Congresso e evitar críticas sobre uma eventual paralisação antecipada das atividades legislativas.
O resultado, por enquanto, é um cenário de incerteza. Sem acordo sobre o calendário e diante das divergências entre as bancadas, a Câmara segue sem uma definição clara sobre como organizar seus trabalhos nas próximas semanas, refletindo uma disputa que já antecipa os efeitos da corrida eleitoral de 2026 dentro do Congresso Nacional.