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Ivanir dos Santos

Professor e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Conselheiro Estratégico do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP). Autor e idealizador da série Resistência Negra, da Globoplay.

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A urgência do combate ao racismo e à intolerância religiosa nas escolas

Os dois fenômenos fabricam relações de hierarquia e fomentam as desigualdades
31/03/2025 | 07h39
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“Numa sociedade racista não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Essa famosa frase da filósofa, americana Angela Davis vem, nos últimos anos, ganhando ainda mais relevância no campo educacional, pois reafirma a importância de ações antirracistas. Ao conclamar o antirracismo como prática cotidiana, Angela Davis evidencia de forma direta o problema social, politico e cultural que ainda exite e persiste dentro das sociedades contemporâneas.

Sim, pois o racismo é um problema de ordem social, politico, cultural e, não podemos nos esquecer, econômico. Mas daí você talvez esteja se perguntando quais são os entraves que podemos encontrar dentro de ações antirracistas.

Precisamos pontuar que o racismo é muito maior do que o movimento antirracista, pois ainda persiste, por parte de alguns seguimentos sociais, culturais, politico e econômicos o desejo de manter certos privilégios dentro de uma sociedade que nega o racismo e exalta a falsa democracia racial.

Assim, quero aqui chamar atenção para dois casos que envolvem racismo e intolerância religiosa que aconteceram nos últimos dias e que evidencia o quão danoso é o racismo em nossa sociedade. No município de Maricá um estudante faleceu depois que desenvolveu um quadro de depressão em decorrência das agressões verbais e psicológicas sofridas.

Em Rondônia, a escritora Zeneida Martins Azevedo, autora do livro infantil “Meu terreiro, meu axé”, sofreu severos ataques de intolerância religiosa. A obra busca cumprir a Lei 10.639 que exige o ensino da História e Cultura Afro-brasileira nas escolas. No entanto, políticos evangélicos da região distorceram o intuito da publicação ao veicularem informações falsas sobre a publicação ser inapropriada e representar uma violência à infância.

MEU TERREIRO, MEU AXÉ! - A REPRESENTATIVIDADE DAS CRIANÇAS DE RELIGIÕES AFRICANAS NA LITERATURA

Zeneida Martins Azevedo, autora do livro infantil “Meu terreiro, meu axé”. (Foto: reprodução)

O racismo, assim como a intolerância religiosa, é um dos principais produtos culturais da herança do colonialismo europeu no Brasil que, além de fabricar relações de hierarquia, também fomenta as desigualdades.

Um produto extremamente nocivo para a nossa sociedade, construído sobre a ideia de superioridade e privilégios que não estão ligados necessariamente à questões financeiras, pois o racismo, enquanto fenômeno aqui no Brasil, está entranhando nas relações sociais e culturais.

Por esse motivo, é importante compreendermos e sempre pontuarmos que o racismo é “estrutural (quando pessoas negras estão excluídas da maioria das estruturas sociais, culturais, econômicas e políticas), é institucional (se refere a um padrão de tratamento desigual nas operações cotidianas tais como em sistemas e agendas educacionais, mercado de trabalho, justiça criminal etc) e é cotidiano (refere-se a todo vocabulário, discursos, imagens, gestos, ações e olhares que colocam o sujeito negro como o outro)”, de acordo com a escritora Grada Kilomba.

E é justamente o racismo, que aqui especificamos como “racismo à brasileira”, que ensinou para a nossa sociedade, e também para o resto do mundo, que os nossos corpos pretos são passiveis de qualquer tipo de violência, seja ela física, psicológica e/ou patrimonial.

Uma necropolítica racista, se assim podemos dizer e pontuar, que se alimenta da exaltação de passado colonial e inviabiliza os nossos lugares e direitos dentro da sociedade brasileira.

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