Como a postura de Flávio Bolsonaro reativou gatilhos em mulheres, segundo psicóloga

Carol Tilkian diz que relatos de taquicardia, angústia e aperto no peito marcaram sua clínica após o debate da Band
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Por Rodrigo de Andrade

O primeiro debate direto do segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado na Band no domingo (18), mexeu com o corpo de muitas telespectadoras. Segundo a psicóloga e psicanalista Carol Tilkian, a clínica dela na segunda-feira foi “toda atravessada” por relatos de pacientes que assistiram ao confronto e reconheceram ali comportamentos que vivem, ou já viveram, em casa. Os mesmos relatos, afirma, apareceram em mensagens e relatos de mulheres nas redes sociais.

Em entrevista ao ICL Notícias, Tilkian descreveu sintomas físicos como taquicardia, aperto no peito e nó na garganta. Ela diz que o relato não se limita ao consultório: “Não só é um recorte da minha clínica, mas esse foi um eco de muitas mulheres.”

Para a psicóloga, o mal-estar vem de reviver, vendo de fora, uma violência muitas vezes normalizada nas relações conjugais. Ela recorre ao escritor José Saramago, que dizia ser preciso sair da ilha para ver a ilha, e a Freud, para quem a angústia é ao mesmo tempo o reviver de um trauma e a percepção de que ele está por vir.

Tilkian aponta quatro movimentos que, segundo ela, apareceram na conduta de Flávio Bolsonaro: não responder às perguntas, ironizar, debochar com a plateia e inverter a culpa. Quando se repetem no ambiente doméstico, diz, esses comportamentos configuram gaslighting e violência psicológica.

Na clínica, ela diz ver um mecanismo semelhante ao do debate nos casais, numa “livre associação de culpas e mágoas”. A mulher levanta uma queixa, e o marido responde com outro assunto, como um atraso antigo dela ou um gasto passado. “Fatos sem relação, articulados por quem confunde para não perder a razão, até que quem ouve se perca”, escreve na Folha.

Tilkian faz o paralelo com o debate. Segundo ela, a um questionamento de Lula o candidato respondeu com outra pergunta, sobre um tema diferente, e depois emendou novos questionamentos. “Esse horror faz com que a gente desnaturalize o horror que está acontecendo dentro de casa”, afirma.

Ela diz que, na clínica, ouve com frequência que as mulheres deixam de perguntar para evitar a escalada do conflito e acabam duvidando de si mesmas (“será que eu estou exagerando?”). O resultado, segundo ela, é a mulher colocada no lugar de “louca, chiliquenta, ciumenta”.

Instagram/caroltilkian_amorespossiveis
Instagram/caroltilkian_amorespossiveis

O deboche

O deboche foi, para Tilkian, um dos pontos mais incômodos. Ela lembra que, em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, Freud descreve o chiste hostil como uma relação a três: quem faz a piada, quem é o alvo e o terceiro que ri. O riso recruta aliados e dá legitimidade a uma agressão que, sem plateia, seria percebida como tal.

No debate, diz a psicóloga, o papel de plateia foi ocupado por aliados do candidato. Em casa, é a mesa de amigos ou os filhos. Ela dá exemplos de falas que ouve de pacientes, como o marido que zomba da mulher na frente dos amigos por ter ligado várias vezes quando ele atrasou. O álibi, afirma, é sempre o mesmo: “era brincadeira”. “Você faz com que a pessoa que está sofrendo agressão não possa falar”, diz.

Do privado ao público

Tilkian também liga o comportamento individual ao discurso político. Ela cita o partido do candidato e declarações de aliados que, na avaliação dela, naturalizam a agressividade masculina e desqualificam as mulheres. Segundo a psicóloga, quando a linguagem pública reitera a violência privada, a mulher passa a duvidar ainda mais de si.

Durante o debate, Flávio Bolsonaro andou de um lado para o outro para se manter no mesmo enquadramento de câmera de Lula. Permanecendo atrás do presidente, o candidato do PL fazia caretas e zombava das falas do atual presidente.

Questionada sobre o que diferencia a postura de Flávio da de Lula, Tilkian disse que isso é “estratégia de manipulação”. Ela associa o método à influência do coach Pablo Marçal, que, segundo a entrevista, treinou o candidato, e a uma lógica de “cortes” e “espetáculo” que, na avaliação dela, é desrespeitosa com o eleitor.

O temor para o futuro

Ao ser perguntada sobre os efeitos de uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro, Tilkian disse temer a normalização da violência contra a mulher. Ela lembra que o feminicídio tem aumentado nos últimos anos, em governos de diferentes orientações, e questiona o que pode acontecer num governo que, nas palavras dela, “autoriza a agressividade como machismo” e usa o deboche para invalidar incômodos.

Ela vê risco particular no uso de um discurso religioso para justificar essas condutas: mulheres religiosas poderiam acabar normalizando agressões em casa “em nome de supostos valores de família, que não são valores pregados pela Igreja”.

Próximo debate

O segundo turno será em 25 de outubro. O último debate antes da votação está marcado para sexta-feira (23), na TV Globo.

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