Por Iago Filgueiras*
Em tempos em que a extrema direita organiza boicotes contra filmes que abordam, mesmo de forma sutil, temas sociais e políticos, o cinema que se opõe a essa lógica torna-se um ato de resistência. Nesse cenário, os documentários no ICL se destacam por recuperar a força do audiovisual como instrumento de memória, denúncia e reflexão.
Contestar as versões oficiais, investigar as estruturas do poder e escancarar as contradições do nosso tempo são ações fundamentais para podermos questionar o agora e construir um futuro mais justo. Os documentários têm o potencial de, mais do que narrar fatos, pensar o mundo a partir de uma perspectiva muitas vezes silenciada.
Neste artigo, você vai conhecer diversos documentários para assistir no ICL+. Cada produção é um convite à escuta e um empurrão para deixar a zona de conforto.
1. Utopia (2013)
Dirigido pelo australiano John Pilger, Utopia expõe de forma profunda as contradições da Austrália contemporânea. O país conhecido por seu alto padrão de vida é também palco de uma desigualdade brutal que há séculos oprime seus povos originários.
Pilger expõe o abismo entre a prosperidade do “país da sorte” e a realidade das comunidades aborígenes que vivem em condições precárias, submetidas a altos índices de encarceramento, mortalidade por doenças tratáveis e segregação. O documentário traça um paralelo entre o passado colonial e o presente marcado pela exploração mineral e pela invisibilização sistemática desses povos.
Ao questionar o papel do Estado e da mídia, Utopia revela um retrato do racismo estrutural na sociedade australiana, mostrando que a herança colonial continua viva sob novas máscaras. Uma narrativa potente sobre poder, silêncio e resistência.
Na sua lista de bons documentários no ICL para assistir, esse com certeza tem que estar. Confira o trailer:
2. Vai pra Cuba, Eduardo (2024)
Se você tem o pensamento crítico afiado e já se envolveu em algum debate político, é possível que alguém tenha te mandado ir para Cuba. Com Eduardo Moreira — que abriu mão da vida confortável de banqueiro para se tornar um companheiro na luta por mudanças sociais — não foi diferente. E ele foi mesmo!
O documentário, roteirizado por Eduardo Moreira e dirigido por Juliana Baroni, explora verdades inéditas e imagens históricas de um país conhecido por poucos, mas julgado por muitos.
As adversidades enfrentadas e a resistência do povo cubano frente a décadas de isolamento e bloqueio econômico ganham novos contornos com entrevistas marcantes. O longa conta com participação do presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, e de Aleida Guevara, médica e filha do revolucionário Che Guevara.
Conheça mais sobre essa viagem transformadora no trailer abaixo:
3. A Escolha de Laura (2021)
Aos 90 anos, Laura Henkel é uma mulher excêntrica, franca e cheia de energia. Não sofre de nenhuma doença terminal, mas deseja estar no controle de sua partida e decide que quer encerrar a vida nos seus próprios termos. Ela se inscreve em uma clínica na Suíça para realizar o procedimento de morte assistida e convida a filha Cathy Henkel e a neta Sam Lara — ambas cineastas — para registrar o processo.
O resultado é um documentário íntimo, sensível e provocador sobre autonomia, amor e ética. A Escolha de Laura narra a tensão entre a decisão sobre o próprio destino e o impacto dessa escolha na vida de quem fica. Três gerações de mulheres encaram questões complexas, controversas e desafiadoras.
A sensibilidade da história é comovente e nos propõe reflexões sobre os caminhos da vida. Veja o trailer dessa emocionante narrativa:
4. Capitalismo de Desastre (2018)
Dirigido por Thor Neureiter e escrito pelo jornalista Antony Loewenstein, Capitalismo de Desastre investiga como as crises globais se transformaram em oportunidades de lucro, e explora o mundo bilionário da indústria global de ajuda humanitária.
Este documentário no ICL percorre o Afeganistão, Haiti e Papua-Nova Guiné, revelando as engrenagens de um sistema em que ajuda e exploração caminham lado a lado. Loewenstein expõe o papel de governos ocidentais, corporações e agências internacionais na manutenção de uma economia em que o sofrimento alheio é a maior fonte de lucro. Como chegamos até aqui? Como isso pode mudar? Qual a responsabilidade dos governos ocidentais?
Capitalismo de Desastre responde a essas perguntas, mas também revela como o capitalismo encontra lucro até mesmo nas ruínas. Assista ao trailer:
5. Império Malafaia (2025)
Sob coordenação de Juliana Dal Piva e reportagem de Igor Melo, Império Malafaia investiga a extensão da influência política e econômica do pastor Silas Malafaia no Brasil.
Uma produção original do Instituto Conhecimento Liberta, o documentário percorre os bastidores do poder evangélico e expõe como o líder religioso construiu uma rede que conecta templos, negócios e articulações partidárias. Ao mesmo tempo, investiga a transição da imagem pessoal do pastor: de um homem de aparência simples para uma vida de milionário.
Silas Malafaia é uma figura central para entender o cenário político do Brasil contemporâneo. Confira o trailer do documentário:
6. Medicina Mágica (2018)
Cogumelos mágicos podem ser a cura para a depressão? Este documentário de Monty Wates registra o primeiro ensaio clínico do Reino Unido que usa psilocibina — o princípio ativo dos cogumelos alucinógenos — para tratar quadros depressivos.
O documentário acompanha a vida de três voluntários do estudo, de seus familiares e dos ambiciosos pesquisadores envolvidos que acreditam que esse tratamento controverso pode ser capaz de transformar milhões de vidas pelo mundo.
Entre a curiosidade científica e a esperança pessoal, o Medicina Mágica acompanha os pacientes em viagens que revelam medos, memórias e o custo e o impacto da depressão em suas vidas. Com ética e um olhar empático sobre o uso de psicodélicos em contextos terapêuticos, o diretor convida o público para uma investigação lúcida e sensível sobre o poder transformador da mente.
Refletir como o julgamento moral pode impactar o acesso ao tratamento médico é uma urgência. Veja o trailer de Medicina Mágica:
7. Relatos do Front (2018)
Relatos do Front, dirigido por Renato Martins, mergulha na brutal realidade da violência urbana no Rio de Janeiro. A partir do olhar de moradores, policiais e especialistas, o documentário revela o cotidiano de uma guerra não declarada e como ela molda a vida daqueles que fazem de tudo para sobreviver mais um dia.
Mais do que uma coletânea de confrontos armados, o filme analisa o sistema que produz esse ciclo de violência, desigualdade e impunidade. Ao ouvir vítimas, advogados, sociólogos e historiadores, a obra se torna um espelho do Brasil contemporâneo — um país que naturalizou o estado de exceção e que transformou a segurança pública em um campo de batalha.
Bons filmes provocam emoções e nos convidam a refletir. E Relatos do Front é um grande exemplo de bons documentários no ICL. Confira o trailer:
8. O Fim de Bolsonaro (2025)
Uma produção original do Instituto Conhecimento Liberta, O Fim de Bolsonaro reconstrói um dos capítulos mais marcantes e emblemáticos da história do Brasil: o julgamento que levou o ex-presidente e parte da cúpula militar ao banco dos réus por tentativa de golpe de Estado. Foi a primeira vez, em toda a história brasileira, que golpistas foram julgados.
Com base em documentos, discursos e imagens inéditas, esse documentário, dirigido por Márcia Cunha, expõe os bastidores da conspiração que tentou subverter o resultado das urnas, abalar as instituições democráticas e que resultou na tentativa golpista do 8 de janeiro.
A narrativa combina investigação jornalística e análise dos fatos históricos para revelar uma engrenagem de desinformação e articulações políticas que sustentaram o projeto autoritário.
O 8 de janeiro foi a consequência de um processo da história brasileira. Assista ao trailer:
9. Democracia em Preto e Branco (2014)
O documentário de Pedro Asbeg revive o início dos anos 1980, quando futebol, política e cultura se misturavam e desafiavam as estruturas em plena ditadura militar no Brasil. Democracia em Preto e Branco narra a história da “Democracia Corinthiana”, um movimento liderado por jogadores como Sócrates e Casagrande, que se entrelaçou à luta pela redemocratização do país e ao período de efervescência do rock nacional.
Com imagens de arquivo e depoimentos, o filme mostra como o esporte se tornou palco de resistência e expressão popular. Em meio à censura e à opressão, o Corinthians transformou o gramado em um espaço de fazer política. O filme retrata um Brasil em busca de democracia, onde o amor pelo futebol e a esperança de liberdade caminham juntos.
Democracia em Preto e Branco é um relato que prova que futebol e política se discutem sim e com certeza tem que estar na sua lista de bons documentários no ICL para assistir. Veja o trailer:
10. A Oposição (2016)
A Oposição acompanha a luta de Joe Moses e sua comunidade em Paga Hill, na Papua-Nova Guiné, contra o despejo forçado promovido por interesses imobiliários e políticos. O documentário, dirigido por Hollie Fifer, registra o embate entre moradores e forças policiais que tentam demolir suas casas para dar lugar a um hotel de luxo.
Indo além de revelar um conflito local, o documentário revela o impacto global da especulação imobiliária e da desigualdade. Ao mostrar a resistência de uma comunidade que se recusa a desaparecer, o documentário retrata também um episódio símbolo universal da luta pelo direito à moradia e à dignidade.
A Oposição é um filme que retrata o duro drama da luta pela terra. Veja o trailer:
O cinema liberta
Em um momento marcado por campanhas que tentam censurar narrativas desconfortáveis, os documentários no ICL representam um espaço de resistência intelectual. O audiovisual se apresenta como uma ferramenta capaz de transformar visões de mundo, instigar o debate e construir novas realidades.
Entender aquilo que a extrema direita não quer que nós saibamos é um passo corajoso para navegar em tempos tão complicados. Por isso, quando você assiste a um documentário no ICL não está apenas consumindo um conteúdo de qualidade, mas também está colaborando com uma rede de liberdade que combate a manipulação com aquilo que não se pode calar: o conhecimento.
*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu