Por Leila Cangussu
Quando você escuta falar em cúpulas do clima, a imagem do Brasil quase sempre aparece. O motivo vai além da Amazônia: é a soma de território, biodiversidade, energia renovável e peso político no Sul Global. Esses fatores fazem o país ser disputado nos fóruns multilaterais que tratam de mudanças climáticas.
Ao longo de três décadas, o Brasil já foi anfitrião de conferências, articulador de consensos, alvo de críticas e candidato à liderança regional. Essa oscilação mostra como a política ambiental nunca esteve isolada da conjuntura interna. Cada governo levou um discurso distinto às cúpulas internacionais, revelando prioridades e contradições.
Neste artigo, você vai entender o papel do Brasil nos fóruns ambientais internacionais, da ECO-92 à COP30, passando por momentos de prestígio, crises de credibilidade e tentativas de retomada.
O que significa COP e como isso afeta o Brasil?
A sigla COP vem de Conference of the Parties — Conferência das Partes. É o espaço em que os países que assinaram a Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima se encontram anualmente para discutir e revisar compromissos.
- A origem está na ECO-92, no Rio de Janeiro.
- A primeira edição aconteceu em 1994, em Berlim.
- Desde então, a COP virou a principal conferência anual da ONU sobre mudanças climáticas.
Quando você acompanha notícias sobre COP, está vendo a arena onde se decide o rumo de acordos globais como Kyoto e Paris. Também é o lugar onde se expõem desigualdades: países ricos resistem a financiar medidas nos países em desenvolvimento, enquanto o Sul Global cobra justiça climática.
ECO-92: origem da presença brasileira nos fóruns ambientais
A ECO-92 colocou o Brasil em evidência. O país foi anfitrião de um encontro histórico, que reuniu 197 nações e resultou em tratados que moldaram o debate climático. A conferência projetou a imagem do Brasil como país capaz de liderar negociações ambientais.
Esse momento inicial também fortaleceu a estrutura institucional interna, dando mais centralidade ao Ministério do Meio Ambiente. Desde então, o Brasil se apresenta como guardião de recursos naturais estratégicos e como país que pode contribuir para estabilizar emissões.

Rio+20 e os limites da sustentabilidade e meio ambiente no Brasil
Vinte anos depois da ECO-92, o Brasil voltou a sediar uma das grandes cúpulas do clima: a Rio+20, em 2012. O evento reforçou o discurso de desenvolvimento sustentável e a ideia de vincular crescimento econômico à sustentabilidade e meio ambiente.
Mas, ao mesmo tempo, expôs contradições. Enquanto discursava em defesa da preservação, o país avançava em políticas de incentivo ao agronegócio e à exploração mineral. Essa ambiguidade seria uma marca constante da presença brasileira nos fóruns internacionais.
Brasil na COP26: compromissos e desconfiança internacional
A COP26, realizada em 2021, marcou um esforço brasileiro para recuperar credibilidade internacional. Depois de anos de desgaste, o país anunciou compromissos:
- Redução pela metade das emissões até 2030
- Neutralidade de carbono até 2050
- Fim do desmatamento ilegal até 2028
Na prática, esses anúncios buscavam reposicionar o Brasil como um parceiro confiável. Mas os números sobre avanço do desmatamento geraram desconfiança. O país tentava equilibrar pressões externas e resistências internas.
COP27 e o debate sobre perdas, danos e financiamento climático
Em 2022, a COP27, realizada em Sharm el-Sheikh, trouxe ao centro o tema das perdas e danos. Países africanos e em desenvolvimento cobraram recursos dos países ricos para lidar com os impactos já em curso.
O Brasil se colocou como parte desse grupo. A pressão era clara: os compromissos de financiamento firmados em 2009 — 100 bilhões de dólares por ano — não tinham sido cumpridos. Para o Brasil, a COP27 reforçou a narrativa de que as responsabilidades históricas recaem sobre os grandes emissores.
COP29 em Baku: quando o financiamento climático mostrou seus limites
A COP29, realizada em Baku, expôs novamente o impasse. Os países ricos aceitaram um compromisso de até 300 bilhões de dólares por ano em financiamento climático. Especialistas, no entanto, avaliaram que seria necessário pelo menos 1,3 trilhão anuais.

O Brasil chegou a Belém, sede da COP30, em um contexto de cobrança. O discurso de liderança regional precisaria se apoiar em medidas internas consistentes e em articulações com outros países em desenvolvimento.
COP30 em Belém: o Brasil no centro das negociações globais
A COP30 acontece em novembro de 2025, em Belém, capital do Pará. É a primeira vez que a Amazônia recebe o encontro. O governo brasileiro trata o evento como oportunidade de mostrar esforços em:
- Energias renováveis
- Biocombustíveis
- Agricultura de baixo carbono
A conferência terá três objetivos centrais:
- Fazer um balanço dos dez anos do Acordo de Paris
- Rever as metas climáticas de quase 200 países
- Definir compromissos mais ambiciosos para limitar o aquecimento a 1,5 °C.
Ao trazer a COP para a Amazônia, o Brasil busca reforçar sua posição de guardião da floresta. Mas o desafio é mostrar redução efetiva do desmatamento e resultados concretos de preservação.
Articulações regionais e globais do Brasil
O Brasil não atua sozinho nos fóruns ambientais. Além das COPs, o país busca construir alianças regionais e multilaterais para reforçar sua posição e ampliar a pressão sobre países ricos em outras cúpulas do clima.
Essas articulações mostram como a política climática se desenha também em encontros paralelos, onde se alinham estratégias, discursos e compromissos que depois reverberam nas grandes conferências da ONU.
Nessas cúpulas do clima, o Brasil procura se apresentar como ponte entre diferentes blocos: de um lado, o Sul Global, que exige justiça climática e financiamento; de outro, as potências tradicionais, que ainda controlam recursos e influenciam as regras.
Essa movimentação reforça a ideia de que, para além da COP30 em Belém, a diplomacia ambiental brasileira depende de uma rede de cooperação construída em várias frentes.
Cúpula Brasil-Caribe
Em junho de 2025, o Brasil e os países caribenhos divulgaram uma declaração conjunta. O texto alertava para o aumento da temperatura global e destacava a vulnerabilidade dos Estados insulares diante da elevação do nível do mar.
A declaração pediu:
- Cumprimento de compromissos de financiamento
- Justiça climática
- Transição energética justa
- Reconhecimento do papel de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Cúpula Parlamentar Latino-Americana
O Senado brasileiro organizou, em 2025, a segunda edição da Cúpula Parlamentar sobre Mudança Climática e Transição Justa da América Latina e Caribe. O objetivo foi articular legisladores para levar posições comuns à COP30.
BRICS
No mesmo ano, durante a cúpula do BRICS no Rio, o Brasil defendeu o financiamento climático como prioridade da presidência do bloco. A ideia foi projetar liderança compartilhada no Sul Global.

Esses movimentos mostram como o país tenta reforçar alianças fora do eixo tradicional.
O financiamento climático e as pressões sobre o Brasil
O financiamento é o ponto mais delicado. Os países desenvolvidos não cumpriram a promessa de 100 bilhões de dólares anuais. E as metas mais recentes continuam insuficientes.
O Brasil pressiona por:
- Aumento do volume de recursos
- Reformas na arquitetura financeira internacional
- Reconhecimento das vulnerabilidades dos países em desenvolvimento
Ao mesmo tempo, o país busca atrair investimentos externos para projetos de bioeconomia, reflorestamento e infraestrutura sustentável.
O peso da Amazônia no debate internacional
A Amazônia ocupa um lugar estratégico nas negociações climáticas. O Brasil apresenta a floresta como patrimônio global e como ativo político. Essa posição é construída a partir de dois eixos: de um lado, a narrativa de soberania nacional sobre os recursos naturais; de outro, a cobrança de apoio internacional para garantir a preservação do meio ambiente.
Ao sediar a COP30 em Belém, o país transforma a Amazônia em palco das discussões mais relevantes do multilateralismo climático. Essa escolha coloca diante dos olhos do mundo a região que concentra a maior floresta tropical do planeta, responsável por regular ciclos hídricos, absorver carbono e sustentar modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Contradições entre soberania e preservação do meio ambiente
Esse protagonismo traz riscos. A visibilidade internacional amplia a pressão por resultados concretos. A comunidade global cobra do Brasil dados consistentes de redução do desmatamento, combate às queimadas e fortalecimento de políticas públicas.
O discurso de que sem apoio financeiro não é possível manter a floresta em pé tem efeito na diplomacia, mas perde credibilidade quando os números de destruição aumentam.

Esse paradoxo acompanha o país há anos. O Brasil tenta usar a Amazônia como moeda de negociação, mas enfrenta contradições internas: pressões do agronegócio, avanço do garimpo ilegal, violência contra comunidades locais e fragilidade na fiscalização. O desafio está em converter a narrativa de guardião da floresta em políticas de Estado duradouras, que resistam às mudanças de governo.
Na prática, a Amazônia funciona como vitrine e teste. Vitrine, porque o Brasil a apresenta como prova de sua importância para o equilíbrio climático global. Teste, porque o mundo acompanha de perto se o país é capaz de alinhar discurso e ação. A COP30 em Belém será o momento em que essa tensão ficará mais evidente.
Paralelos entre governos e o discurso ambiental brasileiro
O lugar do Brasil nas cúpulas do clima sempre refletiu escolhas políticas internas. Cada governo levou um discurso próprio às negociações internacionais, revelando prioridades e contradições. Em alguns momentos, o país foi reconhecido como liderança ambiental; em outros, criticado por travar avanços.
Olhar para esses paralelos ajuda você a entender como o Brasil se moveu entre prestígio, descrédito e tentativa de reconstrução.
Anos 1990 e 2000: prestígio inicial
O Brasil saiu da ECO-92 com a imagem de anfitrião de um dos encontros mais emblemáticos da ONU. O país apresentou redução significativa do desmatamento nos anos 2000 e avançou na política de biocombustíveis. Esse cenário projetou o país como exemplo de que era possível conciliar preservação do meio ambiente e desenvolvimento econômico.
2010 a 2016: Rio+20 e limites visíveis
A Rio+20, em 2012, reforçou a narrativa brasileira de liderança em sustentabilidade e meio ambiente. O discurso oficial associava o país à construção da agenda de desenvolvimento sustentável. Mas, ao mesmo tempo, a expansão do agronegócio e da mineração mostrava os limites dessa postura. O Brasil buscava protagonismo diplomático, mas enfrentava contradições entre a retórica internacional e a prática doméstica.

2019 a 2022: descrédito global
Durante o governo Bolsonaro, o Brasil viveu um desgaste profundo. A explosão do desmatamento e o desmonte institucional na área ambiental colocaram o país sob críticas constantes.
Na Cúpula de Líderes sobre o Clima, convocada pelos Estados Unidos em 2021, o governo prometeu zerar o desmatamento ilegal até 2030 e antecipar a neutralidade climática para 2050. As promessas, porém, foram recebidas com ceticismo, já que a prática doméstica apontava na direção oposta.
A partir de 2023: reconstrução da imagem e COP30 em Belém
Com o retorno de Lula, o Brasil passou a adotar novamente o discurso de liderança climática. A candidatura para sediar a COP30 em Belém foi anunciada ainda em 2022 e consolidada após articulações com países da Celac, China e União Europeia. Essa escolha reposicionou o país como anfitrião e articulador no Sul Global.
Na COP26, ainda em 2021, o Brasil havia anunciado compromissos de redução de emissões e fim do desmatamento ilegal em 2028. Já na COP27, no Egito, reforçou a cobrança por financiamento para perdas e danos. Na COP29, em Baku, acompanhou as negociações em que os países ricos aceitaram oferecer até 300 bilhões de dólares anuais, embora especialistas apontassem necessidade de 1,3 trilhão.
Na COP30, em Belém, o desafio brasileiro é maior: mostrar resultados concretos de redução do desmatamento e apresentar projetos consistentes em bioeconomia, energia renovável e agricultura de baixo carbono. A narrativa de guardião da Amazônia só se sustenta se vier acompanhada de dados e políticas efetivas.
O que as Cúpulas do Clima significam para você?
Quando se fala em Brasil cúpulas do clima, não se trata apenas de diplomacia. As negociações influenciam políticas públicas que chegam até você:
- Definição da matriz energética
- Políticas de transporte e mobilidade
- Programas de reflorestamento e bioeconomia
- Estruturação de políticas ligadas ao dia do meio ambiente e à secretaria do meio ambiente em estados e municípios.
Brasil entre discurso e prática em sustentabilidade e meio ambiente
O Brasil segue com papel central nas negociações climáticas. Tem potencial para liderar, mas carrega contradições entre discurso e prática.
Você precisa acompanhar esse debate porque ele conecta diretamente a política internacional ao cotidiano. O futuro da Amazônia, da agricultura, da energia e da própria vida urbana está em disputa nas cúpulas do clima.
O desafio do Brasil é sair do ciclo de prometer em fóruns internacionais e falhar na implementação. Só com políticas consistentes e permanentes o país poderá sustentar o papel de liderança em sustentabilidade e meio ambiente.