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Por Iago Filgueiras*

Quando você pensa em ciência, qual a primeira imagem que vem à sua cabeça? Talvez seja de uma pessoa de jaleco branco olhando algo no microscópio, ou tubos de ensaio com substâncias que você não faz a menor ideia do que sejam?

Mas a colaboração com a pesquisa científica pode ser algo muito mais democrático e acessível. É exatamente esse o cenário da ciência cidadã no Brasil. Com um simples celular, qualquer pessoa pode, por exemplo, registrar uma imagem de um pássaro no quintal e colaborar com pesquisas científicas que mapeiam a biodiversidade no país.

A ciência cidadã, no entanto, vai muito além disso. Ela propõe colocar o conhecimento à disposição de uma ampla parcela da sociedade, garantindo que ela também participe do processo científico, fortalecendo o exercício da cidadania. Quer saber como você pode se tornar um desses cientistas? É o que vamos te explicar neste artigo.

O que é Ciência Cidadã? Uma perspectiva brasileira

A ciência cidadã é um processo de democratização do conhecimento que conta com a participação voluntária e consciente de milhares de cidadãos. Assim, eles podem participar de investigações e atividades de pesquisa científica ao contribuir com dados, conhecimento e discussão coletiva sobre resultados.

Nessas iniciativas, qualquer um, independentemente de formação prévia ou nível de conhecimento, pode colaborar. Basta disponibilizar tempo, inteligência ou recursos para produção de conhecimento científico nas mais diversas áreas, da geologia e biodiversidade à inovação e tecnologia.

Com a popularização dos smartphones e do acesso à internet, diversas pessoas podem contribuir com a produção do conhecimento científico, independentemente da formação acadêmica. Foto: Laura Braga/INMA
Com a popularização dos smartphones e do acesso à internet, diversas pessoas podem contribuir com a produção do conhecimento científico, independentemente da formação acadêmica. Foto: Laura Braga/INMA

Essa ideia de permitir a participação social no processo de pesquisa científica não é exatamente nova. No início do século 20, grupos amadores de observadores de pássaros já auxiliavam cientistas profissionais, fornecendo informações sobre a contagem de aves ou a distribuição geográfica das espécies.

Mas o fato é que o desenvolvimento tecnológico e a popularização da internet e dos celulares expandiu esse cenário de forma inédita. Aliado a isso, o estímulo à participação do público na produção de conhecimento também é um fator relevante, uma vez que pode ser lido como um incentivo ao exercício da cidadania.

As diferentes abordagens da ciência cidadã

A ciência cidadã é uma das vertentes de um movimento denominado Ciência Aberta (Open Science, em inglês), que tem como objetivo compartilhar o conhecimento entre comunidades científicas de diversos países e toda a sociedade.

A ideia é aumentar a inclusão dos agentes interessados e facilitar a cooperação e o acesso aos dados. No fundo, o que se busca é o avanço do conhecimento científico e fazer com que ele retorne como benefício para toda a sociedade.

Em artigo publicado na revista Ciência e Cultura, a socióloga e doutora em geografia Sarita Albagli, destaca as diferentes abordagens que a ciência cidadã pode assumir, que, embora diferentes, podem se complementar e colaborar para o desenvolvimento da ciência.

A abordagem instrumental: foco na coleta de dados

Nessa abordagem, a contribuição dos cidadãos se concentra principalmente na coleta de informações em grande escala. É o caso de registros de espécies animais em aplicativos ou de observações climáticas feitas em plataformas colaborativas. Esse modelo tem ajudado a impulsionar a pesquisa científica ao ampliar de forma significativa a base de dados disponível para cientistas profissionais.

O foco na participação: o cidadão como coprodutor de conhecimento

Aqui, o papel do cidadão vai além da coleta de dados. Os participantes também colaboram na definição de problemas, na análise dos resultados e até na divulgação científica dos achados. Essa perspectiva fortalece a democracia do conhecimento e integra inovação e tecnologia ao processo, tornando a ciência mais aberta e inclusiva.

Ética, dados abertos e salvaguardas

Independentemente da abordagem, a ciência cidadã só se sustenta quando respeita princípios éticos claros. O público não deve assumir um mero papel de produtor de dados, como uma parte afastada do processo científico. O extrativismo intelectual, quando o trabalho coletivo é simplesmente apropriado por outras partes, não deve ter espaço nesse campo.

Sejam chamados de “hobbistas”, cientistas amadores ou voluntários, é fundamental reconhecer essas pessoas como parte central do processo — afinal, ninguém gosta de ser tratado apenas como “mão de obra gratuita”.

Além disso, garantir o consentimento dos participantes, valorizar suas contribuições e devolver os resultados à comunidade são práticas que fortalecem a confiança e consolidam a ciência cidadã como um caminho verdadeiramente democrático.

Tecnologia e inovação: grandes aliadas da ciência cidadã

Quando falamos sobre ciência cidadã, inovação e tecnologia são partes fundamentais do que a tornou possível nos dias de hoje. Em 2024, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 167 milhões de brasileiros acima dos 10 anos tinham acesso a um telefone celular. Isso significa que o número de potenciais cientistas cidadãos é enorme.

Mas em um cenário onde a inclusão digital ainda não é uma realidade para todos, essa democratização da produção do conhecimento deve caminhar lado a lado com mudanças estruturais em nosso país. Mas o fato é que, atualmente, qualquer um com um celular e conexão à internet pode colaborar em redes, plataformas ou aplicativos de ciência cidadã.

Iniciativas de ciência cidadã colaboram para o monitoramento ambiental e preservação do meio ambiente, ao permitir a geração de uma maior quantidade de dados disponíveis para pesquisa. Foto: Freepik
Iniciativas de ciência cidadã colaboram para o monitoramento ambiental e preservação do meio ambiente, ao permitir a geração de uma maior quantidade de dados disponíveis para pesquisa. Foto: Freepik

Ficou curioso para descobrir o nome da borboleta que viu enquanto viajava? Há diversas plataformas que permitem, por meio da colaboração, a identificação de espécies e catalogação, permitindo ações de monitoramento ambiental. Para identificar plantas e animais, o Seek, desenvolvido pela iNaturalist, é uma boa opção. Já o Pl@ntNet, tem foco na identificação de espécies vegetais.

Com a popularização de sistemas de geolocalização, a ciência cidadã ganha ainda mais força. Agora, é possível mapear espécies, incidência de doenças e até mesmo a entrada de meteoros na atmosfera do planeta. Tudo com a participação do público.

Outro aspecto importante é o uso de hardware livre — circuitos eletrônicos que podem ser copiados e manipulados livremente —, como placas Arduino e sensores de baixo custo. Eles permitem que comunidades, escolas ou grupos independentes desenvolvam seus próprios instrumentos de coleta de dados, como medidores de qualidade do ar ou sensores de água, sem depender de equipamentos caros.

Políticas públicas e as perspectivas da ciência cidadã brasileira

A ciência cidadã não se sustenta apenas em boas ideias individuais: precisa de redes, articulação e políticas públicas que deem suporte às iniciativas. No Brasil, diferentes instituições têm se mobilizado para consolidar esse campo, conectando pesquisadores, cidadãos e gestores públicos.

De espaços para troca de conhecimentos à plataformas abertas que permitem o acesso de qualquer pessoa, essas redes fortalecem a participação social e ajudam a colocar a produção científica ao alcance de todos.

Instituições como o Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC) promovem o desenvolvimento de práticas de ciência cidadã, incentivando, inclusive, a aplicação de projetos em escolas e outras unidades de ensino. Foto: reprodução / INCC
Instituições como o Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC) promovem o desenvolvimento de práticas de ciência cidadã, incentivando, inclusive, a aplicação de projetos em escolas e outras unidades de ensino. Foto: reprodução / INCC

Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC)

A Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) integra projetos, pesquisadores e cidadãos interessados em fortalecer essa prática no país. Funcionando como espaço de articulação entre academia, sociedade civil e iniciativas independentes, a RBCC promove encontros, capacitações e busca estabelecer padrões mínimos de qualidade para a ciência cidadã no Brasil, valorizando o compartilhamento de dados e a participação do público.

Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC)

O Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC), é um dos mais de cem Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) — centros de pesquisa que buscam fomentar o estudo de temas com alto impacto científico. Coordenado pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, além de consolidar as bases científicas da ciência cidadã no Brasil, a iniciativa investe em bolsas de pesquisa, desenvolve projetos e busca fomentar a divulgação científica.

Plataforma Cívis e seu papel na democratização metodológica

A Cívis é um grande exemplo de plataforma de ciência cidadã no Brasil. Lançada pelo IBICT, o projeto foi desenvolvido em código aberto e com base na iniciativa europeia EU Citizen Science. Pela plataforma, é possível registrar projetos, ferramentas e formações, democratizando o acesso para qualquer pessoa interessada, independente do nível de formação.

Conheça algumas iniciativas de ciência cidadã Brasileiras

A ciência cidadã no Brasil está espalhada pelo país em diferentes formatos. De passeios guiados até o uso criativo de tecnologia e inovação para enriquecer a pesquisa científica. Esses projetos colocam o cidadão como coprodutor de conhecimento. Conheça algumas abaixo:

Detetives da Natureza do Paraná: projeto que estimula o registro fotográfico da fauna e flora do estado, coordenado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMA). As imagens capturadas colaboram com a identificação de espécies e alimentam um banco de dados sobre biodiversidade.

Vem Passarinhar Recife: iniciativa que promove passeios guiados para observação de aves em parques e espaços públicos da capital pernambucana. Além de gerar dados sobre a avifauna local, também contribui para a divulgação científica e a educação ambiental.

Cantoria de Quintal: projeto coordenado pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) em Santa Teresa (ES). A proposta é registrar os sons de anfíbios como sapos, rãs e pererecas para mapear e identificar a ocorrência de espécies.. Basta gravar os cantos e enviar pelo WhatsApp para colaborar com a pesquisa.

AeTrapp: é um aplicativo que coloca o cidadão como agente ativo no combate e monitoramento do mosquito Aedes aegypti. Os moradores constroem armadilhas para capturar o inseto, tiram fotos do resultado e em seguida destroem os ovos. As imagens registradas pelo celular alimentam mapas online em tempo real, ajudando no combate a dengue, zika e chikungunya.

Ciência cidadã na prática: como se tornar um cientista?

Nós já te falamos que, para ser um cientista cidadão, não é preciso ficar horas olhando para microscópios, balançar tubos de ensaio radioativos e muito menos sair pela selva procurando animais peçonhentos. Mas se a ciência cidadã tem uma proposta tão democrática assim, como você pode participar dessa iniciativa?

Em 2023, por meio de fotos registradas por um amante da natureza que fazia uma trilha com a namorada na região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, a ciência descobriu uma nova espécie de bromélia. A planta chamou a atenção do jovem, que enviou a imagem para cientistas da região, que validaram a descoberta.

Tornar-se um cientista cidadão não depende necessariamente de formação acadêmica específica. Imagem: reprodução / SciStarter
Tornar-se um cientista cidadão não depende necessariamente de formação acadêmica específica. Imagem: reprodução / SciStarter

As plataformas que se baseiam na colaboração entre sociedade e ciência profissional para alavancar a produção de conhecimento científico são muitas e abrangem as mais diversas áreas. Abaixo, vamos te mostrar algumas para você participar:

iNaturalist: troca de saberes e identificação de espécies

O iNaturalist é uma rede social que permite que os usuários compartilhem informações sobre biodiversidade de forma coletiva e com foco na troca e produção de conhecimentos. A plataforma permite realizar a identificação de espécies com o apoio da comunidade, contribuir com projetos específicos — como o mapeamento de um animal em uma região específica, por exemplo.

Pelo aplicativo, você pode tirar suas próprias fotos para registro, escrever suas observações ou ajudar outras pessoas compartilhando o seu saber. O melhor é que, com um celular e acesso à internet, você pode começar a contribuir com o projeto hoje mesmo.

SISS‑Geo: cidadão como agente de proteção ambiental

O Sistema de Informação em Saúde Silvestre (SISS-Geo) é uma plataforma colaborativa voltada para o monitoramento de doenças em animais silvestres que podem afetar também os seres humanos. Por meio do aplicativo, desenvolvido pela Fiocruz, qualquer pessoa pode registrar ocorrências de animais doentes ou mortos, enviando fotos e informações de localização.

Esses dados ajudam pesquisadores e órgãos públicos a acompanhar surtos, mapear riscos e prevenir emergências de saúde, como a transmissão de febre amarela. Ao participar, o cidadão contribui diretamente para a proteção da biodiversidade e da saúde coletiva. Segundo a plataforma, já foram mais de 54 mil registros, feitos por pelo menos 17 mil colaboradores.

Exoss: astronômia ao alcance de todos

A Exoss Citizen Science é uma iniciativa voltada às áreas da astronomia e ciência espacial, promovendo a observação dos céus por meio da ciência cidadã. A iniciativa estimula a participação de astrônomos amadores com o objetivo de observar meteoros e gerar dados científicos à comunidade.

Com projetos de baixo custo, é possível montar sua própria estação de monitoramento. Os registros gerados podem ser usados para análises e estudos científicos. O projeto é, inclusive, reconhecido pela Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) pela qualidade do conteúdo de bom nível e valor científico.

Ciência cidadã como força de transformação

A ciência cidadã no Brasil é a prova de que o conhecimento científico não precisa ficar restrito somente às universidades e laboratórios. Qualquer pessoa pode contribuir para a construção coletiva de conhecimento, aprendendo e compartilhando informações relevantes.

No entanto, há desafios pela frente. Cada registro, observação ou dado enviado foi gerado por um ser humano e por isso, aqueles que fortalecem dia após dia esse movimento não devem ser colocados de lado. Todo o engajamento e participação da comunidade deve, também, resultar em aprendizado, dados acessíveis e impactos reais.

Além de fortalecer a divulgação científica, essas iniciativas reduzem as barreiras entre a ciência e o cidadão. O senso crítico, responsabilidade social e a curiosidade envolvidas nesse processo são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva — afinal, em tempos em que a desinformação se faz presente cotidianamente mostrar como se faz ciência e colocar o cidadão como protagonista desse processo é fundamental.

Se, atualmente,  o pensamento científico perde espaço e dá origem a movimentos como os que questionam a importância e eficácia da vacinação, a ciência cidadã pode reverter essa lógica. Quando a sociedade se apropria do processo científico, o acesso à informação se torna mais democrático. Por isso, a ciência cidadã é mais que uma estratégia de pesquisa, é um ato de cidadania e um antídoto à ignorância.

*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu

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