O impacto das fake news na saúde de populações vulneráveis

A desinformação na saúde segue matando, afastando populações vulneráveis do cuidado e transformando a mentira em ferramenta política.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A disseminação de informações falsas sobre saúde representa uma das ameaças mais urgentes à saúde pública dos dias atuais, especialmente quando pensamos nos grupos marginalizados que já enfrentam barreiras no acesso aos serviços de qualidade.

É a partir desse recorte que estamos enxergando que a desinformação na área médica não é apenas um problema digital abstrato: ela mata, adoece e aprofunda desigualdades históricas.

E, infelizmente, comunidades com menor letramento digital tornam-se alvos preferenciais de narrativas enganosas sobre curas milagrosas, teorias conspiratórias e campanhas antivacina, por exemplo.

É assim que grupos majoritariamente de direita estão criando um ciclo vicioso que afasta essas populações dos cuidados baseados em evidências científicas. A desinformação se transformou em arma política – e seus efeitos já se refletem diretamente na saúde coletiva.

Aqui vamos entender o impacto das fake news na saúde dessas comunidades e porque é fundamental construir estratégias efetivas de proteção coletiva.

O contexto histórico das fake news de saúde no Brasil

Precisamos falar sobre as fake news na saúde pública.

Vamos começar lá atrás, contextualizando o momento do país: durante o auge da pandemia de COVID-19, influenciadores e autoridades ligadas ao governo federal da época disseminaram falsas promessas sobre “tratamentos precoces” e colocaram em dúvida a eficácia das vacinas. Esse discurso, travestido de defesa da “liberdade individual”, resultou em comunidades inteiras mais vulneráveis ao vírus.

E isso não é achismo: pesquisas da Fiocruz mostraram que as regiões com maior apoio ao bolsonarismo tiveram também as menores taxas de vacinação – e, consequentemente, mais mortes evitáveis. Além disso, os efeitos da pandemia ainda ecoam: a resistência à vacinação infantil é significativamente maior entre eleitores de Bolsonaro.

Um levantamento da Sou Ciência, em parceria com o Instituto Ideia, mostrou que 27,2% dos bolsonaristas rejeitam vacinar crianças contra a Covid-19, enquanto entre os que se identificam como petistas esse índice cai para apenas 2,2%.

Mas a desinformação não começou aqui, apenas teve um amplificador gigantesco chamado internet.

Bolsonaristas em manifestação tentando barrar a exigência de vacina em 2021. Imagem: reprodução
Bolsonaristas em manifestação tentando barrar a exigência de vacina em 2021. Imagem: reprodução

A alta da desinformação

Nas últimas duas décadas, o Brasil testemunhou uma escalada alarmante na produção e circulação de conteúdos falsos sobre saúde pública.

Desde a Revolta da Vacina, em 1904, quando rumores e desinformação alimentaram a resistência à vacinação obrigatória contra a varíola no Rio de Janeiro, até campanhas mais recentes contra as vacinas, como vimos, o país demonstra uma facilidade em acreditar em narrativas que desafiam o conhecimento científico.

Um dado revelador vem do monitoramento da Avaaz durante a pandemia.De acordo com o estudo, 7 em cada 10 fake news sobre Covid-19 circulavam em grupos de apoio ao bolsonarismo, muitas delas promovendo medicamentos ineficazes e questionando a segurança das vacinas. Afinal, quem aí não lembra da ivermectina para salvar vidas?

Essa avalanche de desinformação não apenas confundiu a população, mas também custou vidas. Esses números reforçam que o Brasil vive uma continuidade histórica da desinformação em saúde – agora potencializada pelos algoritmos.

Bonde virado pela população na Praça da República, em São Paulo, durante a revolta. Imagem: domínio público 
Bonde virado pela população na Praça da República, em São Paulo, durante a revolta. Imagem: domínio público

A relação entre fake news e pseudociência

Se entendemos que a pseudociência nada mais é do que uma ponte entre a desinformação e práticas potencialmente letais, precisamos saber que não estamos falando de simples mentiras contadas em um grupo de WhatsApp.

Quando falamos sobre a disseminação em massa da pseudociência, estamos falando de conteúdos pseudocientíficos que facilitam a linguagem e os formatos da ciência utilizando jargões técnicos, gráficos manipulados e testemunhos emocionais para construir uma falsa legitimidade.

Uma falsa autoridade de que aquilo que não tem comprovação científica é confiável.

É assim que pessoas começam a acreditar que produtos “milagrosos” existem e prometem curar tudo – desde diabetes até câncer – porque pessoas estão se aproveitando do desespero de quem não encontra respostas no sistema tradicional e dando uma falsa esperança.

Apesar de organizações de monitoramento terem alertado sobre a monetização dessa desinformação, ainda encontramos milhares de influenciadores digitais lucrando todos os dias com a venda de tratamentos sem comprovação científica, transformando vulnerabilidade em mercadoria.

A pseudociência usa linguagem e aparência científica para gerar falsa credibilidade. Somente em 2016, a Anvisa atuou contra 1.293 anúncios irregulares de produtos em sites de compras na internet. Imagem: divulgação
A pseudociência usa linguagem e aparência científica para gerar falsa credibilidade. Somente em 2016, a Anvisa atuou contra 1.293 anúncios irregulares de produtos em sites de compras na internet. Imagem: divulgação

O impacto das fake news na saúde pública

Dados já comprovaram que o celular é mais democrático do que o acesso à saúde pública. Aliado a isso, moradores de periferias urbanas e áreas rurais remotas frequentemente carecem de acesso regular a profissionais de saúde qualificados, dependendo de agentes comunitários e da internet como fontes primárias de orientação médica.

É assim que fake news acabam se infiltrando nesses canais informais e o resultado se torna verdadeiramente devastador: desde a interrupção de tratamentos essenciais até a adesão a protocolos perigosos que prometem curas rápidas para doenças crônicas.

O sistema de saúde pública brasileiro, já sobrecarregado por demandas estruturais, vê seus esforços sabotados por campanhas de desinformação coordenadas. A queda nas taxas de vacinação infantil, por exemplo, está diretamente relacionada à proliferação de mentiras sobre supostos efeitos colaterais de imunizantes.

Comunidades indígenas, quilombolas e habitantes de favelas tornam-se particularmente vulneráveis quando informações falsas circulam em grupos fechados de WhatsApp e Telegram.

A expansão da telemedicina, embora promissora para reduzir desigualdades regionais, também cria novos vetores para a desinformação. Consultas online sem regulamentação adequada permitem que profissionais sem qualificação ou com intenções duvidosas prescrevam tratamentos ineficazes.

No Nordeste brasileiro, onde há maiores índices de desigualdade socioeconômica e menores níveis médios de escolaridade, pacientes em situação de vulnerabilidade tendem a ter mais dificuldade em checar informações de saúde.

Algo que, na prática, os torna mais vulneráveis a acreditar em conteúdos enganosos ou em falsos especialistas nas redes.

Fake news na saúde pública agravam desigualdades, reduzem vacinas e expõem populações vulneráveis a riscos, explorando a falta de acesso e letramento digital. Imagem: Adobe Stock
Fake news na saúde pública agravam desigualdades, reduzem vacinas e expõem populações vulneráveis a riscos, explorando a falta de acesso e letramento digital. Imagem: Adobe Stock

As consequências das mentiras institucionalizadas

A desinformação foi reconhecida pelo Fórum Econômico Mundial como um dos principais riscos à humanidade, e suas manifestações na saúde ilustram perfeitamente esse perigo.

Populações marginalizadas pagam o preço mais alto quando perdem a fé em vacinas, antibióticos e procedimentos médicos estabelecidos. O resultado é o ressurgimento de doenças erradicadas, o agravamento de condições que são completamente tratáveis e a morte evitável de pessoas que poderiam ter sido salvas por intervenções simples.

Afinal, não tem como falarmos sobre as consequências das fake news sem abordarmos os mais de 700 mil mortos durante o período da pandemia. A tragédia não foi apenas sanitária, mas profundamente política. Autoridades governamentais promoveram tratamentos sem eficácia comprovada, desacreditaram medidas cientificamente validadas e disseminaram ativamente pseudociência.

Durante a pandemia, ainda sob o governo Bolsonaro, o Brasil deixou vencer milhões de doses de vacinas contra a Covid-19.

No total, mais de 58 milhões expiraram desde 2021 — parte delas já no governo Lula, que recebeu estoques com prazos de validade curtos.

O desestímulo à vacinação foi tão grande que campanhas oficiais chegaram a ser esvaziadas, enquanto autoridades do próprio governo disseminavam dúvidas sobre a eficácia dos imunizantes e atrasavam a compra de doses.

Cena exata do momento em que, durante o colapso da pandemia, com mais de 4 mil mortes por dia, o ex-presidente do Brasil imitava alguém sem conseguir respirar.  Imagem: CNN 
Cena exata do momento em que, durante o colapso da pandemia, com mais de 4 mil mortes por dia, o ex-presidente do Brasil imitava alguém sem conseguir respirar.  Imagem: CNN

O atual combate à desinformação

A luta contra o impacto das fake news na saúde exige abordagens multifacetadas que reconheçam as raízes estruturais do problema.

Iniciativas isoladas de checagem de fatos, embora importantes, mostram-se insuficientes quando confrontadas com a escala e velocidade da desinformação digital.

Agências reguladoras brasileiras intensificaram esforços para remover conteúdos enganosos e penalizar criadores de fake news médicas, mas enfrentam limitações técnicas e jurídicas significativas. Plataformas digitais implementaram sistemas de alerta e redução de alcance para conteúdos suspeitos, mas na prática essas medidas chegam tarde demais para evitar os danos que já foram causados.

Porém, a alfabetização midiática surge como estratégia preventiva fundamental.

Programas educacionais que ensinam comunidades vulneráveis a identificar sinais de desinformação, avaliar a credibilidade de fontes e consultar bases de dados confiáveis representam investimentos de longo prazo na saúde coletiva.

Agentes comunitários de saúde treinados em letramento digital podem atuar como mediadores entre informação científica e linguagens locais, traduzindo conceitos complexos para pessoas mais leigas no assunto.

Além disso, a inclusão digital precisa ser repensada além do acesso à internet. A conectividade sem capacitação crítica pode amplificar vulnerabilidades, transformando populações marginalizadas em consumidoras passivas de conteúdos potencialmente letais.

Por isso, políticas públicas efetivas devem integrar a infraestrutura com formação cidadã, garantindo que comunidades à margem da sociedade não apenas acessem informações, mas possam avaliá-las criticamente.

A desinformação em saúde não é apenas uma falha de comunicação – é uma forma de violência simbólica e política que aprofunda desigualdades e fragiliza a confiança social. Quando o acesso ao conhecimento é distorcido, o direito à vida e à saúde também são.

Os números da pandemia deixaram claro que a mentira pode matar tanto quanto um vírus.

Mas a verdade é que o combate à desinformação não se resolve com mais postagens, stories ou threads no X. É necessária uma mudança estrutural na forma como o Brasil produz, compartilha e consome informação.

É preciso fortalecer políticas públicas de comunicação científica, democratizar o acesso a conteúdos de qualidade e reconhecer o papel fundamental das redes comunitárias na defesa da saúde pública.

O enfrentamento à desinformação deve ser entendido como uma responsabilidade coletiva que começa na educação, passa pelas plataformas digitais e termina em cada escolha cotidiana de quem decide checar, compartilhar e cuidar da internet como uma tarefa que deveria ser vista como coletiva.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail