A paisagem do sistema financeiro brasileiro está em profunda transformação.
Impulsionado pela expansão digital e pela atuação estratégica das fintechs, o país assiste a um processo acelerado de bancarização que, em poucos anos, incorporou milhões de brasileiros ao universo das contas bancárias, dos pagamentos eletrônicos e do crédito digital.
Este movimento, no entanto, não é uniforme em todo país: sua força se mostra ainda mais expressiva em regiões historicamente negligenciadas pelo sistema bancário tradicional, como o Nordeste.
Com soluções digitais acessíveis e adaptadas a diferentes realidades socioeconômicas, as fintechs estão redesenhando o acesso financeiro no Brasil, especialmente entre populações antes marginalizadas do sistema bancário.
Aqui vamos entender como a bancarização precisa andar de mãos dadas com o letramento financeiro para evitar que o crédito fácil se transforme em armadilha, quais são os impactos das fintechs no Nordeste, seus desafios e as possibilidades de uma inclusão financeira que seja, de verdade, transformadora.
A bancarização brasileira
Nos últimos anos, o Brasil vive um processo de bancarização em larga escala.
Segundo dados do Banco Central, em junho de 2023, o número de relacionamentos com o sistema financeiro nacional chegou a 271 milhões, um crescimento de 17% em comparação com 2020.
Esse avanço reflete a atuação das fintechs, que oferecem soluções mais acessíveis, digitais e desburocratizadas, aproximando milhões de brasileiros, sobretudo os de baixa renda e das periferias, do sistema bancário.
Esse número, que supera a própria população adulta do país na época, indica que muitas pessoas possuem múltiplas contas e isso representa um salto expressivo em relação à década anterior.
As fintechs desempenham papel central nessa mudança ao desafiarem a lógica dos bancos tradicionais. Vamos entender como essas empresas criam alternativas acessíveis à população de baixa renda e aos moradores de regiões remotas, rompendo barreiras históricas de exclusão financeira.

O que são fintechs?
Fintech é a junção dos termos em inglês “financial” e “technology”. Ou seja, é uma tecnologia financeira.
Elas surgem com a proposta de tornar os serviços financeiros mais acessíveis, eficientes e transparentes.
Diferente dos grandes bancos, as fintechs operam majoritariamente de forma digital, o que reduz custos operacionais e permite a oferta de produtos com menos burocracia e, muitas vezes, com tarifas zero.
Entre os serviços oferecidos por fintechs estão contas digitais, cartões de crédito sem anuidade, empréstimos com análise alternativa de crédito, plataformas de investimento, seguros e soluções para pequenos negócios.
Essa diversidade contribui para ampliar o leque de possibilidades para os usuários, especialmente aqueles que antes nem sequer tinham uma conta bancária.

As fintechs no Nordeste
No Nordeste brasileiro, onde o acesso a agências bancárias físicas sempre foi mais limitado, o impacto da atuação das fintechs é particularmente expressivo.
Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as fintechs têm grande potencial de promover inclusão econômica e social em regiões como o Nordeste, ao simplificar o acesso a crédito, facilitar transações e incentivar o empreendedorismo.
Com a expansão da internet móvel e o avanço da telefonia celular, milhões de nordestinos passaram a acessar serviços bancários pelo celular.
A facilidade de abrir uma conta digital com poucos cliques, sem exigência de comprovante de renda ou de residência, representou um divisor de águas para comunidades que antes dependiam de agências distantes, lotéricas ou correspondentes bancários.
Exemplo disso é o retrato que a pesquisa do Google Survey publicou em 2019. Na época, a tendência já era real: segundo o estudo, a região Nordeste é a mais adepta aos serviços de startups financeiras. Entre os entrevistados, 22% afirmaram que trocariam um banco tradicional por uma fintech.

Casos e dados que mostram o avanço da inclusão financeira na região
Pesquisas recentes mostram o forte crescimento das fintechs no Brasil como um todo, com reflexos importantes no Nordeste.
Segundo a Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2024, a base de clientes pessoa física dessas empresas saltou de 25,6 milhões em 2022 para 46,7 milhões em 2023, um crescimento de 82%.
Inclusive, muitos desses novos usuários estão em regiões mais periféricas, incluindo o Nordeste, onde já ultrapassam 17,5 milhões de pessoas
Além disso, o Banco do Nordeste (BNB), uma instituição financeira pública tradicional, também reforça essa transformação: em 2024, o BNB registrou mais de 190 milhões de transações via PIX, um aumento de 27% em relação a 2023, e movimentou mais de R$ 87 bilhões em recursos via esse meio de pagamento.
Isso evidencia, na prática, como a digitalização e a redução de barreiras (como o uso das tarifas zero) estão ampliando o acesso ao setor financeiro na região.
Por fim, uma pesquisa conduzida pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, realizada em maio de 2024, revelou que 52% dos nordestinos preferem pagar suas contas de água, luz e gás por meio de aplicativos bancários, com o PIX sendo o método mais popular.
Letramento financeiro no Brasil
Se o avanço das fintechs contribui para democratizar o acesso ao sistema financeiro, há um aspecto ainda negligenciado nesse processo: a educação financeira.
Ter uma conta bancária ou acesso ao crédito não garante, por si só, o uso consciente desses instrumentos.
O letramento financeiro envolve a capacidade de compreender conceitos como juros, orçamento, endividamento e planejamento. E, infelizmente, os dados revelam um déficit preocupante nesse campo no Brasil.
A popularização do crédito e o risco do superendividamento
A facilidade de acesso ao crédito, impulsionada pelas fintechs, trouxe benefícios imediatos para muitos brasileiros, mas também gerou consequências negativas.
Com a possibilidade de contratar empréstimos e cartões com poucos cliques, muitos consumidores acabam se endividando sem compreender os custos reais das operações.
De acordo com o Relatório de Cidadania Financeira 2023, o número de brasileiros inadimplentes chegou a mais de 70 milhões — o equivalente a um terço da população adulta. A principal causa apontada é o uso excessivo de crédito rotativo e o parcelamento de dívidas com juros altos.
Em 2024, entrou em vigor a Lei do Superendividamento (Lei nº 14.181/2021), que busca proteger consumidores em situação de endividamento crítico, garantindo o direito à renegociação e à educação financeira.
É verdade que essa lei trouxe avanços significativos, como a repactuação de dívidas, a promoção de crédito responsável e o reforço do mínimo existencial — princípio que visa garantir que as dívidas não comprometam as necessidades básicas de um indivíduo.
No entanto, sua efetividade ainda depende da expansão de campanhas públicas, estrutura de atendimento regionalizada e capacitação dos agentes locais.

O Brasil que gasta sem saber quanto deve
Uma das consequências diretas do baixo letramento financeiro é a incapacidade de controlar os próprios gastos.
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, realizada mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio, em 2024, mais de 78% das famílias brasileiras estavam endividadas, sendo que boa parte delas sequer sabe quanto deve exatamente.
No Nordeste, essa realidade é ainda mais sensível.
A combinação de baixa renda, crédito fácil e falta de informação cria um cenário em que o acesso financeiro pode rapidamente se tornar um fator de vulnerabilidade, em vez de liberdade financeira.
A ascensão das fintechs no Brasil, em especial no Nordeste, é um marco histórico na luta por mais inclusão no sistema financeiro.

Ao romperem com a lógica tradicional dos bancos, essas empresas colocaram milhões de brasileiros, antes invisíveis para o sistema, no mapa das transações digitais. Contas sem tarifas, crédito facilitado, pagamentos instantâneos: a promessa de acesso nunca foi tão real.
Mas a inclusão financeira não pode ser confundida com mera bancarização.
Ter uma conta não significa entender o que se faz com ela. Receber crédito fácil não significa saber usá-lo com responsabilidade.
E é aí que mora o desafio mais profundo: garantir que esse acesso seja acompanhado por formação crítica, educação financeira popular e responsabilidade das próprias empresas do setor.
É papel do Estado, da sociedade civil e das próprias fintechs construir esse caminho.
É preciso ampliar as iniciativas de letramento financeiro nas escolas, nos territórios e nas redes sociais. É necessário que as plataformas digitais sejam mais transparentes, que os contratos sejam compreensíveis e que o lucro não se sobreponha ao direito à informação.
Porque só há verdadeira inclusão quando há autonomia. E só há autonomia quando as pessoas entendem de verdade e de fato se beneficiam com o sistema financeiro.