A evolução da guerra em Gaza e seus impactos geopolíticos

O que está por trás da violência em Gaza? Um mergulho necessário na história, na ocupação e na luta de um povo por existência e justiça
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A guerra em Gaza representa um dos conflitos mais complexos e duradouros da história contemporânea, com raízes que atravessam décadas de disputas territoriais, violações de direitos humanos e tensões geopolíticas.

Desde os ataques do Hamas em 07 de outubro de 2023, o mundo testemunha uma escalada sem precedentes na violência, expondo não apenas as fraturas históricas entre israelenses e palestinos, mas também as contradições das potências ocidentais e a fragilidade das instituições multilaterais.

Este conflito transcende fronteiras físicas: manifesta-se nas ruas, nos tribunais internacionais e até nas redes sociais, onde a simples exibição da bandeira palestina tornou-se alvo de censura e criminalização.

Aqui vamos compreender a evolução da guerra em Gaza, suas implicações para a geopolítica mundial e, sobretudo, o sofrimento de um povo que luta por existência e reconhecimento.

O contexto histórico da Guerra em Gaza

A criação do Estado de Israel pela Organização das Nações Unidas em 1947, através do Plano de Partilha da Palestina, inaugurou um dos capítulos mais controversos da história moderna.

A resolução 181 da ONU dividiu o território palestino, destinando 56% das terras ao nascente Estado judeu, apesar da população judaica representar apenas um terço dos habitantes locais.

Para os palestinos, aquele momento não significou uma solução diplomática, mas o início de uma tragédia que marcaria gerações: a Nakba, ou “catástrofe” em árabe.

Entre 1947 e 1949, durante a primeira guerra árabe-israelense, aproximadamente 750 mil palestinos foram expulsos de suas casas. Mais de 500 aldeias foram destruídas ou despovoadas, apagadas do mapa por uma combinação de ação militar deliberada e terror psicológico.

Massacres como o de Deir Yassin, onde milícias sionistas mataram mais de cem civis palestinos, funcionaram como instrumentos de limpeza étnica para forçar a população a abandonar suas terras ancestrais.

A criação de Israel em 1947 não resolveu um conflito. Deu início à Nakba, a tragédia fundadora do povo palestino. Imagem: Palestines Studies
A criação de Israel em 1947 não resolveu um conflito. Deu início à Nakba, a tragédia fundadora do povo palestino. Imagem: Palestines Studies

A limpeza étnica da Palestina

O povo palestino enfrenta um genocídio e uma catástrofe humanitária de proporções históricas.

Este conflito, cujas raízes remontam a décadas de ocupação e deslocamento forçado, é amplamente reconhecido por especialistas internacionais como um projeto de limpeza étnica.

O historiador israelense Ilan Pappé documentou como a expulsão dos palestinos não foi consequência acidental da guerra, mas resultado de um plano sistemático chamado “Plano Dalet“, executado pelas forças sionistas antes mesmo da proclamação oficial do Estado de Israel.

A ocupação militar que se seguiu à Guerra dos Seis Dias em 1967 consolidou o controle israelense sobre a Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental, Colinas de Golã e Península do Sinai.

Desde então, Israel expandiu sistematicamente assentamentos considerados ilegais pelo direito internacional, fragmentando territorialmente a Palestina e impossibilitando a viabilidade de um Estado palestino contíguo.

A guerra em Gaza não começou em outubro de 2023. Ela é a continuação de uma violência estrutural que opera há mais de sete décadas.

O apartheid israelense

A realidade imposta por Israel, desde a expansão de assentamentos ilegais até o bloqueio brutal à Faixa de Gaza, configura um regime de apartheid.

Esta não é uma retórica política, mas uma avaliação técnica compartilhada por organizações de direitos humanos de credibilidade internacional. A Human Rights Watch, em relatório de 2021, concluiu que autoridades israelenses cometem crimes de apartheid e perseguição contra palestinos.

No ano seguinte, a Anistia Internacional chegou à mesma conclusão, documentando um sistema de dominação e opressão sistemática. Afinal, o sistema de dois pesos e duas medidas opera em todos os níveis.

Reforçando essa análise, a Comissão de Inquérito Independente da ONU, criada pelo Conselho de Direitos Humanos em 2021 para investigar a situação na Palestina, também trouxe contribuições importantes: em seu informe mais recente, reconhece que está em curso um genocídio em Gaza e destaca que ele não começou em 7 de outubro de 2023, mas é resultado de uma longa trajetória de violações sistemáticas dos direitos do povo palestino.

Palestinos vivem sob lei marcial militar, enquanto colonos israelenses nos territórios ocupados estão sujeitos à lei civil israelense. Checkpoints militares restringem a liberdade de movimento palestina, transformando deslocamentos de poucos quilômetros em jornadas de horas.

Na Cisjordânia, mais de 700 mil colonos israelenses vivem em assentamentos conectados por estradas exclusivas, enquanto palestinos enfrentam restrições severas para construir casas, perfurar poços ou plantar oliveiras em suas próprias terras.

A Faixa de Gaza, lar de mais de 2,3 milhões de palestinos comprimidos em 365 quilômetros quadrados, experimenta a forma mais extrema dessa opressão.

Desde 2007, Israel impõe um bloqueio que controla todas as entradas e saídas do território, regulando até mesmo quantas calorias por dia os gazenses podem consumir. Foi assim que a ONU caracterizou Gaza como uma “prisão a céu aberto“, onde antes da escalada de outubro de 2023, 80% da população já dependia de assistência humanitária.

O deslocamento forçado de 750 mil palestinos entre 1947 e 1949 foi parte de um plano sistemático documentado por historiadores israelenses. Imagem: Observatório de Política Externa 
O deslocamento forçado de 750 mil palestinos entre 1947 e 1949 foi parte de um plano sistemático documentado por historiadores israelenses. Imagem: Observatório de Política Externa

A luta por terra, reconhecimento e existência

Geopoliticamente, as divisões são profundas.

Enquanto a maioria dos países árabes não reconhece Israel, a Palestina viu seu direito à existência negado por décadas através das potências ocidentais.

Durante décadas, o não reconhecimento mútuo alimentou a impossibilidade de paz. Israel se recusou a negociar com a Organização para Libertação da Palestina até os Acordos de Oslo em 1993, tratando a resistência palestina exclusivamente como terrorismo.

Ao mesmo tempo, países árabes mantiveram por décadas o não reconhecimento de Israel, embora essa posição tenha se fragmentado com os Acordos de Abraham a partir de 2020, quando Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão normalizaram relações com Israel, frequentemente ignorando a questão palestina.

Para os palestinos, a luta por reconhecimento internacional do seu Estado tornou-se a principal estratégia entre os acontecimentos.

Em 2012, a Palestina foi reconhecida como “Estado observador não-membro” pela Assembleia Geral da ONU, com 138 votos favoráveis. Desde então, o número de países que reconhecem oficialmente o Estado da Palestina cresceu significativamente. Nos últimos anos, Espanha, Irlanda e Noruega anunciaram reconhecimento formal, quebrando a resistência europeia e sinalizando uma mudança gradual na geopolítica mundial.

Após a onda mais recente de reconhecimentos, durante a semana da Assembleia Geral da ONU em 2025, esse número subiu para 151 dos 193 Estados-membros da ONU. Entre os novos países que aderiram ao reconhecimento estão Reino Unido, Canadá, Austrália, Portugal, França, Luxemburgo, Malta, Mônaco, Andorra e Bélgica, reforçando o movimento internacional por legitimidade e soberania palestina.

E assim as condições de vida nos territórios palestinos refletem a negação sistemática de direitos básicos. Em Gaza, antes da guerra atual, 97% da água disponível estava contaminada e imprópria para consumo humano, segundo a ONU.

O desemprego superava 45%, entre os mais altos do mundo.

Na Cisjordânia, demolições de casas palestinas tornaram-se rotina — em 2022, Israel demoliu 902 estruturas palestinas, deslocando 1.147 pessoas, incluindo 575 crianças, de acordo com o Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários.

Entre outubro de 2023 e julho de 2025, 78% dos edifícios da Faixa de Gaza foram completamente destruídos, segundo levantamento do Centro de Satélites da ONU (UNOSAT). A análise aponta que 192 mil edifícios foram devastados total ou parcialmente.

A guerra entre Israel e Irã também se conecta a essa disputa existencial. O Irã, que não reconhece Israel, fornece apoio militar e financeiro ao Hamas e ao Hezbollah, grupos que integram o chamado “eixo de resistência”.

Essa estratégia transforma a Palestina em arena onde competem projetos geopolíticos regionais: de um lado, Israel e seus aliados do Golfo buscando hegemonia pró-ocidental, do outro, o Irã expandindo influência através de grupos não-estatais.

O chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas e a delegação palestina aplaudem a decisão. Foto: Stan Honda
O chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas e a delegação palestina aplaudem a decisão. Foto: Stan Honda

A violência da Guerra em Gaza em números

Os ataques do Hamas em 07 de outubro de 2023 mataram aproximadamente 1.200 israelenses, a maioria civis, no maior ataque a judeus desde o Holocausto.

Cerca de 240 pessoas foram levadas como reféns para Gaza. A resposta militar israelense foi imediata e devastadora, inaugurando o que analistas descrevem como a campanha de bombardeio mais intensa do século 21 em área urbana densamente povoada.

Até o início de 2025, os números da violência são estarrecedores e desproporcionais.

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza — cujos dados são considerados confiáveis inclusive por agências da ONU e organizações israelenses de direitos humanos — mais de 67.000 palestinos foram mortos, dos quais aproximadamente 70% são mulheres e crianças. Mais de 160.000 ficaram feridos, muitos com mutilações permanentes devido à escassez de tratamento médico adequado.

O genocídio não é apenas numérico, mas estrutural. Israel bombardeou sistematicamente infraestrutura civil: hospitais, escolas, campos de refugiados da ONU, instalações de água e esgoto.

Até dezembro de 2024, cerca de 1,9 milhão de palestinos, 85% da população de Gaza, foram deslocados internamente, muitos deles múltiplas vezes.

A destruição de moradias é quase total em áreas como o norte de Gaza: imagens de satélite mostram bairros inteiros transformados em escombros.

Organizações humanitárias alertam para a fome em massa. A introdução de alimentos em Gaza foi reduzida a menos de 10% dos níveis pré-guerra, criando condições de fome artificial como instrumento de guerra.

Médicos relatam crianças morrendo de desnutrição e doenças evitáveis.

A ONU classificou a situação como “catástrofe humanitária sem precedentes“, e especialistas em genocídio advertem que Israel pode estar violando a Convenção sobre Genocídio de 1948.

Do lado israelense, além das vítimas iniciais de outubro de 2023, soldados continuam morrendo em combates em Gaza e na fronteira com o Líbano. O trauma coletivo na sociedade israelense é profundo, mas desproporcional em escala ao sofrimento palestino.

De acordo com a ONU, 70% dos mortos verificados na guerra de Gaza são mulheres e crianças. Reprodução: CNN Brasil 
De acordo com a ONU, 70% dos mortos verificados na guerra de Gaza são mulheres e crianças. Reprodução: CNN Brasil

A escalada entre Israel e Irã na Guerra em Gaza

O conflito ainda alimenta tensões regionais, como a escalada entre Israel e Irã, e é instrumentalizado por setores da extrema-direita global, que usam narrativas bíblicas para apoiar a ocupação.

A guerra Irã e Israel opera através de uma estratégia: enquanto o Irã apoia Hamas, Hezbollah no Líbano e milícias no Iraque e Síria, Israel realiza ataques preventivos contra instalações iranianas e assassinatos seletivos de comandantes.

Em abril de 2024, pela primeira vez, o Irã atacou diretamente território israelense com centenas de drones e mísseis, em retaliação ao bombardeio israelense do consulado iraniano em Damasco.

Embora a maioria dos projéteis tenha sido interceptada, o ataque marcou nova fase na guerra entre Israel e Irã, elevando riscos de conflito regional aberto que poderia envolver Estados Unidos, Rússia e potências do Golfo.

A dimensão ideológica também é crucial.  Movimentos da extrema-direita global, incluindo evangélicos e cristãos nos EUA e Brasil, mobilizam interpretações apocalípticas da Bíblia para justificar a ocupação israelense como cumprimento de profecias.

Essa aliança entre nacionalismo judaico de direita e fundamentalismo cristão reforça a guerra em Gaza transformando um conflito territorial em uma verdadeira cruzada religiosa.

A guerra em Israel e na Palestina não é apenas um embate militar ou territorial. É o reflexo brutal de um sistema de opressão colonial, racializado e sustentado por décadas de impunidade internacional. Diante da catástrofe em curso, é preciso romper com a indiferença e com a desinformação.

É assim que a empatia precisa ser acompanhada de conhecimento, e a solidariedade precisa se traduzir em ação política, denúncia e formação crítica.

A compreensão da história, das estruturas de dominação e dos interesses geopolíticos por trás desse conflito é o primeiro passo para pararmos de naturalizar a violência e apoiar de forma consciente a luta do povo palestino por autodeterminação, dignidade e justiça.

Se você quer entender a fundo os fundamentos históricos, políticos e coloniais que explicam a guerra em Gaza, acesse o curso gratuito “A Faixa de Gaza: guerra e colonialismo” com 5 aulas gratuitas ministradas pela Doutora em Relações Internacionais, Isabela Agostinelli.

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