Retirada do Brasil do Mapa da Fome da ONU: o significado e as metodologias por trás desse dado

Depois de uma década fora do Mapa da Fome da ONU, o Brasil voltou à lista em meio à crise sanitária da pandemia da Covid-19
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A notícia de que o Brasil foi retirado do Mapa da Fome da ONU em 2014 representou, para muitos, um momento histórico: a vitória de políticas públicas eficazes, voltadas à garantia do direito humano à alimentação.

Mas que indicador é usado para traçar essa linha entre ausência e presença de fome? Quais os avanços permitiram esse feito e o que levou o país a retroceder nos anos seguintes?

Hoje, com o desafio de superar os efeitos da pandemia e reverter o quadro de insegurança alimentar, o Brasil se mobiliza com novas estratégias e metas ambiciosas.

Neste texto, vamos compreender o que é o Mapa da Fome da ONU, como funciona sua principal métrica, a Prevalência de Subalimentação (PoU), e explorar a trajetória brasileira nessa luta: das políticas que nos tiraram do mapa até os esforços mais recentes para garantir o direito à alimentação para todas e todos.

O que é o Mapa da Fome da ONU?

O Mapa da Fome da ONU é um instrumento derivado do O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (SOFI, na sigla em inglês), relatório anual da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), que monitora o progresso global contra a fome.

Mas como isso acontece? É a partir da métrica do país no estudo de Prevalência de Subalimentação (PoU) — aquele que mede o percentual da população habitual cujo consumo energético não atinge o mínimo necessário para uma vida ativa e saudável.

Ou seja, um país é incluído no Mapa da Fome quando sua PoU média em um período é igual ou acima de 2,5%, e considerado fora desse mapa quando esse indicador cai abaixo desse limiar.

E como essa metodologia funciona na prática? A gente te explica.

Segundo dados da Rede Penssan, cerca de 9% da população brasileira enfrenta insegurança alimentar grave. Imagem: Elineudo Meira
Segundo dados da Rede Penssan, cerca de 9% da população brasileira enfrenta insegurança alimentar grave. Imagem: Elineudo Meira

Metodologia do Mapa da Fome da ONU

A Prevalência de Subalimentação (PoU) é o principal indicador utilizado pela FAO para definir se um país integra ou não o Mapa da Fome da ONU. Trata-se de uma estimativa do percentual da população cujo consumo calórico habitual é insuficiente para manter uma vida ativa e saudável.

No contexto do relatório, o termo fome é definido como “uma sensação desconfortável ou dolorosa causada por energia insuficiente da dieta”. Em termos técnicos, a fome é tratada como sinônimo de subalimentação crônica. E é justamente isso que a PoU busca mensurar.

Essa métrica se baseia em três componentes fundamentais:

  1. Estimativa de consumo habitual de energia por pessoa, derivada dos balanços alimentares dos países e ajustados às necessidades nutricionais da população.
  2. Modelagem estatística para distribuir esse consumo entre os indivíduos. Como se baseia em estimativas, o modelo pode acabar subestimando bolsões de extrema pobreza.
  3. Cálculo da PoU como proporção da população com ingestão calórica insuficiente, comunicado em médias trienais. Essa média suaviza possíveis picos ou quedas, gerando estabilidade e comparabilidade.

Embora bastante útil para comparações internacionais, a PoU tem limitações.

Ela não capta todas as dimensões da insegurança alimentar como qualidade nutricional, acesso regular a alimentos ou experiências individuais com a fome. Ainda assim, é uma ferramenta central para que a ONU e os governos acompanhem a evolução da fome em escala global.

Em 2022, 17,2 milhões de brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar severa, segundo o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar. Imagem: reprodução 
Em 2022, 17,2 milhões de brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar severa, segundo o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar. Imagem: reprodução

Brasil no Mapa da Fome da ONU

Antes de sua retirada histórica em 2014, o Brasil esteve presente no Mapa da Fome da ONU por cerca de 11 anos consecutivos, desde o início dos anos 2000.

Foi um período marcado por altos índices de subalimentação e exclusão social, que começou a ser revertido com a chegada de políticas públicas voltadas à segurança alimentar e à redução das desigualdades.

Saída em 2014: o papel do Fome Zero e Sisan

A saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU em 2014 foi resultado de uma queda expressiva da PoU, impulsionada por políticas estruturantes como o programa Fome Zero durante o governo Lula de 2003 e a criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), com destaque para o Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional).

Segundo dados da FAO, a PoU brasileira caiu de mais de 5% no início dos anos 2000 para cerca de 1,7% até 2013, após uma redução de 82% na população subalimentada entre 2002 e 2013. Na época, a então ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, destacou que, em 2014, apenas 1,7% dos brasileiros estavam subalimentados, configurando 98,3% da população com segurança alimentar. Hoje, conseguimos analisar que esse resultado veio da combinação de:

  • Aumento da disponibilidade energética.
  • Elevação real do salário mínimo (cerca de 59% entre 2003 e 2016).
  • Inclusão produtiva e geração de empregos.
  • Programas de transferência de renda, como Bolsa Família e inserção de jovens na escola com merenda garantida.
  • Fortalecimento institucional, com participação da sociedade no Consea.
A ilustração nos lembra: a fome tem pressa, e o combate a ela também deveria ter. Imagem: Cris Vector
A ilustração nos lembra: a fome tem pressa, e o combate a ela também deveria ter. Imagem: Cris Vector

Retorno à lista: impacto da pandemia e recessão

Entre 2015 e 2019, o Brasil iniciou um recuo significativo no combate à fome, consequência direta do desmonte de políticas públicas e da crescente crise econômica.

A retração de investimentos em programas sociais, aliada à desestruturação de mecanismos como o Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) comprometeu seriamente a capacidade do Estado de garantir segurança alimentar à população mais vulnerável.

Tudo isso foi suficiente para que a PoU voltasse a subir acima de 2,5%, e em 2018 o país retornou ao Mapa da Fome da ONU, regredindo para níveis similares aos de 2004. A situação só foi superada em 2025, quando o resultado do triênio de 2022 à 2024 revelou que o país havia reduzido significativamente o número de pessoas com risco de subnutrição.

O Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) foi reativado em 28 de fevereiro de 2023, durante a nova gestão do governo Lula. Imagem: WFP 
O Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) foi reativado em 28 de fevereiro de 2023, durante a nova gestão do governo Lula. Imagem: WFP

O impacto da pandemia

Com a pandemia de COVID-19 (início em 2020), houve outro agravamento histórico: com o aumento da inflação, desemprego, diminuição do poder de compra e encarecimento dos alimentos. Estima-se que, em abril de 2021, cerca de 116,8 milhões de brasileiros viviam com insegurança alimentar, sendo 43,3 milhões em situação moderada e 19 milhões em situação grave.

A PoU média triangular de 2020 a 2022 ficou em impressionantes 4,7%, o que levou à incontestável inclusão do Brasil de volta ao Mapa da Fome.

A crise sanitária combinando fome, obesidade e doenças crônicas e o contexto macroeconômico desfavorável acentuaram a vulnerabilidade: em 2022, mais de 33 milhões de brasileiros enfrentavam insegurança alimentar grave.

É importante dizer que a fome deixou de ser um recorte apenas rural e passou a atingir fortemente a população urbana. Famílias da periferia das grandes metrópoles enfrentam escolhas dramáticas entre se alimentar ou pagar conta de luz e transporte.

Essa realidade precisa ser compreendida em sua dimensão estrutural: mesmo exportando alimentos, o Brasil convive com desigualdades fundiárias, raciais, problemas na distribuição e falta de renda real para a maioria da população e isso foi, infelizmente, escancarado durante a pandemia.

Em 2021, mais de 116 milhões de pessoas no Brasil viviam com algum grau de insegurança alimentar e 33 milhões enfrentavam a fome de forma severa. Foto: Ednubia Ghisi e Regis Luís Cardoso / Fotos Públicas
Em 2021, mais de 116 milhões de pessoas no Brasil viviam com algum grau de insegurança alimentar e 33 milhões enfrentavam a fome de forma severa. Foto: Ednubia Ghisi e Regis Luís Cardoso / Fotos Públicas

As políticas públicas contra a fome

As políticas públicas são a espinha dorsal do combate à fome. Não se trata apenas de distribuir alimentos, mas de criar um sistema estruturado que garanta acesso digno, regular e saudável à alimentação.

Para além de ações emergenciais, o enfrentamento da insegurança alimentar exige uma abordagem integrada e contínua, que articule renda, produção local, educação nutricional e participação social.

No caso brasileiro, os programas sociais desempenham papel decisivo nesse processo, sendo instrumentos concretos de redistribuição de riqueza, fortalecimento da agricultura familiar e garantia de direitos básicos. Aqui destacamos alguns dos principais projetos sociais presentes no Brasil:

Bolsa Família e renda direta

Em junho de 2023, o programa foi recriado pela MP 1.164 e pela Lei nº 14.601, mantendo o foco na erradicação da pobreza e da fome. Essa atualização gerou um reforço no Bolsa Família e aumentou o valor médio para R$ 670, com acréscimo por criança — incrementando o poder de compra das famílias, contribuindo para reduzir a insegurança alimentar.

PAA e agricultura familiar

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) foi instituído em 2003, por meio da Lei nº 10.696 de julho, no âmbito do Programa Fome Zero. Após ser substituído em 2021 pelo Alimenta Brasil, foi relançado com força em 2023.

Hoje, ele garante a compra da produção rural camponesa e distribuição pública, reduzindo desperdícios e ampliando acesso a alimentos saudáveis.

Educação alimentar e merenda

A legislação que estrutura a merenda escolar tem raízes na Lei nº 11.947 de junho de 2009, regulamentada pelo FNDE, seguida por resoluções que vêm sendo atualizadas desde então. Em fevereiro de 2025, o governo federal anunciou novas diretrizes para diminuir a presença de alimentos processados no cardápio escolar — prevendo uma redução para 15% em 2025 e 10% em 2026.

A história do Brasil no Mapa da Fome da ONU mostra algo muito importante: combater a fome é uma escolha política. Quando o governo decide cuidar das pessoas, investe em programas sociais e garante direitos básicos, o país avança — como vimos acontecer quando saímos do mapa em 2014 e em 2025.

Mas quando essas políticas são deixadas de lado, e a desigualdade aumenta, a fome volta.

A pandemia piorou um problema que já existia, mas também deixou claro o quanto é urgente enfrentá-lo. Hoje, com programas como o Bolsa Família, o PAA e novas regras para a merenda escolar, o Brasil tem atuado para virar esse jogo outra vez e é o que tem feito.

Em julho de 2025, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura anunciou que, após três anos, o Brasil deixou o Mapa da Fome novamente. O feito reafirmou o compromisso do governo brasileiro em ouvir a população e continuar investindo em quem mais precisa.

Mais do que melhorar um número num relatório, combater a fome é garantir vida digna para todos. Porque ninguém deveria passar fome em um país tão rico como o nosso e acabar com isso é um dever de todos.

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