Religião e política se encontram com frequência nas eleições brasileiras. Candidatos participam de cultos, lideranças religiosas manifestam suas preferências e temas ligados à fé entram nas campanhas. Essa participação é permitida em um país que garante tanto a liberdade religiosa quanto os direitos políticos de seus cidadãos.
Mas onde traçar a linha entre o engajamento legítimo e a manipulação da fé? Quando o púlpito vira palanque e a mensagem religiosa é distorcida para servir a interesses políticos, a democracia enfraquece. Até que ponto a fé inspira e em que momento ela é sequestrada por quem busca apenas o poder?
Entender essa relação exige separar algumas questões: o direito de pessoas religiosas participarem da política, as regras impostas às instituições durante as eleições e as formas pelas quais a fé pode ser utilizada para mobilizar votos.
O que significa ser um Estado laico?
O Brasil nem sempre separou formalmente religião e Estado. A Constituição de 1824 estabelecia o catolicismo como religião oficial. A separação foi consolidada após a proclamação da República, com a Constituição de 1891.
A Constituição de 1988 manteve esse princípio. O artigo 19 impede União, estados, Distrito Federal e municípios de estabelecer ou subvencionar cultos religiosos, dificultar seu funcionamento ou manter relações de dependência ou aliança com igrejas e seus representantes, ressalvada a colaboração de interesse público prevista em lei.
Na prática, a laicidade significa que o poder público não pode adotar uma religião como oficial nem orientar suas decisões pelas regras de uma crença específica. O Estado deve manter autonomia em relação às instituições religiosas e garantir que os cidadãos tenham seus direitos protegidos, independentemente da fé que professem. Isso permite que a pluralidade de crenças seja representada no debate público sem que uma delas seja imposta ao conjunto da sociedade.
Estado laico, portanto, não significa Estado antirreligioso. A laicidade é definida a partir da neutralidade: instituições religiosas podem manifestar suas posições, enquanto cidadãos permanecem livres para concordar ou discordar delas.
Essa liberdade também vale na política. Padres, pastores, lideranças de religiões de matriz afro-indígenas e integrantes de qualquer tradição religiosa podem votar, disputar eleições e participar do debate público. A separação ocorre entre instituições religiosas e Estado, não entre religião e sociedade.
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Como religião e política ganharam espaço nas eleições?

A participação religiosa na política brasileira atravessa diferentes períodos e correntes ideológicas. Na década de 1960, setores cristãos participaram de mobilizações políticas em campos distintos. Grupos religiosos conservadores estiveram presentes na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, marcada pelo anticomunismo às vésperas do golpe de 1964. Em outro campo, as Comunidades Eclesiais de Base aproximaram setores católicos de pautas sociais e da organização popular, sobretudo nas décadas seguintes.
A redemocratização marcou uma mudança nessa relação. A partir dos anos 1980, o crescimento das igrejas evangélicas foi acompanhado pela entrada de pastores, bispos e candidatos ligados a diferentes denominações na política institucional. A Assembleia Nacional Constituinte eleita em 1986 contou com 32 parlamentares evangélicos, número que representou uma ampliação dessa presença no Congresso.
Esse movimento também transformou as campanhas. Comunidades religiosas reúnem eleitores em torno de vínculos de confiança, valores compartilhados e lideranças capazes de alcançar grupos numerosos. Com a ampliação da representação evangélica e da presença das igrejas no debate público, candidatos e partidos passaram a disputar mais diretamente esse eleitorado, enquanto temas associados à religião ganharam espaço nos discursos eleitorais.
Isso não significa que exista uma posição política única entre pessoas religiosas. A participação política também envolve religiões de matriz africana e tradições indígenas, especialmente em debates sobre liberdade religiosa, território e reconhecimento de direitos.
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O que igrejas e líderes religiosos podem fazer nas eleições?
Líderes religiosos podem ter preferências políticas e manifestar apoio a candidatos. O TSE reconhece que declarações públicas desse tipo podem estar protegidas pelas liberdades de manifestação e religião.
A condição de pastor, padre ou outra autoridade religiosa não elimina direitos políticos. No entanto, a legislação estabelece limites, porém, quando a instituição e sua estrutura passam a ser utilizadas para fazer campanha.
A Lei das Eleições impede a veiculação de propaganda eleitoral em templos, uma vez que considera essas estruturas como bens públicos, para efeitos legais. Somado a isso, entidades religiosas são proibidas de fazer doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro para campanhas. A restrição impede que patrimônio e recursos institucionais sejam incorporados à estrutura eleitoral de uma candidatura.
A liberdade religiosa, portanto, não funciona como autorização para qualquer prática eleitoral. Ela protege crença, culto e manifestação, mas não afasta as regras aplicáveis à propaganda e aos abusos previstos pela legislação.
Da orientação política ao abuso sobre os fiéis
Candidatos podem se beneficiar tanto da estrutura material das igrejas quanto da influência exercida por seus dirigentes sobre os fiéis. Mas a influência exercida por uma liderança religiosa não se resume ao espaço físico do templo. Ela pode decorrer da relação de confiança e autoridade estabelecida com a comunidade.
Isso não torna uma orientação política automaticamente ilegal. A análise muda quando aparecem elementos capazes de comprometer a liberdade de escolha, como utilização irregular da estrutura religiosa ou condutas enquadráveis nas modalidades de abuso previstas pela legislação.
Também por isso, a expressão “abuso de poder religioso” precisa ser utilizada com precisão. O ordenamento eleitoral não prevê atualmente esse ilícito como categoria autônoma. O TSE admite, porém, que condutas envolvendo autoridades religiosas sejam examinadas quando relacionadas a abuso de poder político, econômico ou outras modalidades previstas em lei.
Nem toda participação religiosa configura abuso. A Justiça Eleitoral analisa as circunstâncias, os recursos utilizados, a atuação dos candidatos e a gravidade da conduta.
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A fé também se tornou instrumento de mobilização eleitoral

A mobilização religiosa pode assumir outra dimensão quando uma candidatura passa a ser apresentada como representante da vontade divina ou quando o adversário é associado a uma ameaça à própria religião.
Parte da mobilização que levou Jair Bolsonaro à Presidência em 2018 foi com o uso de uma linguagem baseada na disputa entre bem e mal e ao slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
A construção do adversário como ameaça religiosa também faz parte desse repertório. Nesse tipo de mobilização, propostas políticas podem dividir espaço com uma pergunta de outra natureza: quem ameaça ou protege a minha fé?
As fake news sobre o fechamento das igrejas nas eleições de 2022
Uma das mensagens que circularam durante a disputa presidencial de 2022 afirmava que o então candidato, Luiz Inácio Lula da Silva, fecharia igrejas caso fosse eleito.
A narrativa não surgiu naquele pleito. Acusações semelhantes já haviam aparecido contra Lula em 1989 e 1994, quando o candidato também foi apresentado como comunista e perseguidor de evangélicos. A tese identifica a permanência, em setores evangélicos conservadores, de discursos que associam uma vitória da esquerda à ameaça de fechamento de igrejas e a riscos à liberdade religiosa.
Em 2022, essas alegações voltaram a circular no ambiente digital. O caso é relevante porque a liberdade de culto está protegida pela Constituição. Uma mensagem falsa que associa o resultado da eleição à perda desse direito transforma uma preferência política em uma escolha baseada no medo de perseguição religiosa.
As redes sociais também ampliam o alcance desse tipo de conteúdo, através do uso intenso de grupos de WhatsApp e Telegram, por exemplo, entre evangélicos, em uma dinâmica de circulação de fake news.
As comunidades religiosas não aparecem apenas como espaços de mobilização eleitoral. Em 2026, organizações e lideranças de fé lançaram a campanha “Boto Fé no Voto”, voltada ao enfrentamento da desinformação. A iniciativa prevê atividades de formação e produção de conteúdos para ajudar eleitores a identificar informações falsas e consultar fontes confiáveis.
Liberdade religiosa exige liberdade de escolha
Religião e política podem coexistir no espaço democrático sem transformar instituições religiosas em estruturas de campanha. Líderes podem expressar suas posições, fiéis podem considerar suas crenças na hora de votar e comunidades religiosas podem participar das discussões sobre os rumos do país.
Essa participação também depende de limites. A liberdade religiosa perde parte de seu sentido se a crença for utilizada para pressionar fiéis, espalhar informações falsas ou apresentar uma escolha eleitoral como condição para preservar a própria fé. Da mesma forma, o Estado laico só funciona plenamente quando todos encontram espaço para participar da sociedade com os mesmos direitos, independentemente da vertente religiosa que seguem.
No momento do voto, essa garantia se traduz em autonomia. A democracia permite que valores religiosos façam parte das escolhas políticas, mas preserva de cada cidadão o direito de chegar às próprias conclusões. Proteger a liberdade de crença também significa proteger a liberdade de escolher, inclusive quando essa escolha é diferente daquela defendida por uma liderança ou comunidade religiosa.