O Sul Global e a reorganização do poder internacional

Muito além da posição geográfica, o termo representa um bloco de países que desafia a hegemonia tradicional e busca protagonismo na nova ordem mundial
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Por Iago Filgueiras* 

Com conflitos armados e disputas econômicas ganhando as manchetes diariamente, “Sul Global” passou a ser uma expressão cada vez mais presente no cotidiano. O aumento das referências ao conceito também mostra como compreender essa ideia tem se tornado cada vez mais importante para quem busca entender as mudanças no cenário internacional.

Embora a vida corrida faça com que as preocupações estejam sempre voltadas para o cenário interno do país, uma das marcas de um mundo globalizado é que o contexto geopolítico internacional tem grande potencial de impactar o cotidiano. O preço dos alimentos, do combustível, a taxa de juros… Tudo isso é atravessado por decisões que, muitas vezes, são tomadas em gabinetes do outro lado do mundo.

Neste artigo, você vai entender como as mudanças no cenário internacional se relacionam com transformações mais profundas na forma como o poder se organiza e qual é o papel do Sul Global nesse processo.

O que é Sul Global?

Entender o Sul Global vai muito além de observar a posição geográfica dos países no mapa-múndi. Para quem ouve a expressão pela primeira vez, pode parecer estranho incluir países como Rússia e China — nações localizadas no hemisfério norte — em um bloco associado ao sul. Mas a verdade é que o conceito de Sul Global carrega uma forte dimensão política.

O bloco é composto por cerca de 150 países, distribuídos em diferentes áreas geográficas, tanto ao norte quanto ao sul. O grupo não é exatamente homogêneo do ponto de vista socioeconômico. Países como a China, por exemplo, possuem uma economia mais robusta e conquistaram feitos como a erradicação da extrema pobreza. Por outro lado, o bloco também inclui Mianmar, nação do sudeste asiático que, segundo dados de 2024, convive com níveis de pobreza em torno de 75%.

No entanto, essas nações compartilham experiências em comum com termos de colonização e de estruturação do capitalismo. Todas elas foram atravessadas pelos desafios impostos por uma ordem mundial que se formou a partir do Norte e influenciadas por países que, durante muito tempo, foram chamados de desenvolvidos.

Da ideia de Terceiro Mundo ao Sul Global

O uso do termo Sul Global para se referir a esse grupo tão extenso e complexo de países é fruto de diversos desdobramentos políticos e sociais ocorridos ao longo das últimas décadas.

Durante grande parte do século XX, essas nações eram, em sua maioria, associadas à ideia de “Terceiro Mundo”. O conceito, porém, revela uma hierarquização das experiências nacionais, baseada em critérios econômicos e em um mundo marcado pela Guerra Fria, que dividiu a ordem internacional entre países capitalistas e socialistas.

  • Primeiro Mundo: países associados a altos índices de escolaridade, industrialização e crescimento econômico.
  • Segundo Mundo: nações sob influência da União Soviética.
  • Terceiro Mundo: países considerados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.

Em meio a essa ordem bipolar, já existiam países interessados em seguir um caminho próprio. Um marco desse movimento foi a Conferência de Bandung, realizada na Indonésia, em 1955. O encontro reuniu 29 países asiáticos, africanos e do Oriente Médio, em sua maioria recém-independentes do colonialismo europeu. Sem mediação das potências ocidentais, eles defenderam cooperação, anticolonialismo e o não alinhamento à Guerra Fria.

O conceito de Sul Global surge justamente para romper com essa lógica de desenvolvimento e “modernização”, que colocava o “Primeiro Mundo” como modelo a ser alcançado. A ideia, além de geopolítica, também dialoga com um pensamento decolonial.

O Sul Global propõe pensar o mundo a partir de sua própria realidade. Mais do que um bloco homogêneo, trata-se de um conjunto de países que compartilham experiências históricas semelhantes de colonização, inserção desigual no capitalismo e desafios comuns a superar.

Em um cenário de profundas transformações, entender o Sul Global é essencial para compreender a nova ordem mundial que emerge no século XXI.

Por que o Sul Global ganhou força no século XXI?

Se durante grande parte do século XX os países do Sul Global foram tratados como periferia da ordem mundial, no século XXI esse papel passou a ser contestado. Atualmente, o grupo reúne países com peso demográfico, econômico e estratégico suficiente para influenciar decisões antes concentradas entre Estados Unidos e Europa Ocidental.

Uma das principais razões para esse protagonismo está no crescimento econômico de diversas nações emergentes nas últimas décadas. A China, por exemplo, viu seu Produto Interno Bruto (PIB) saltar de US$ 150 bilhões, em 1978, para US$ 19,4 trilhões em 2025, consolidando-se como a segunda maior economia mundial. Nesse período, nações africanas, latinoamericanas e outros países da Ásia e do Oriente Médio também experienciaram transformações econômicas.

Com a ampliação de mercados consumidores e o fortalecimento de cadeias produtivas, esses países passaram a ocupar posições mais relevantes no comércio internacional. Além disso, com o colapso da União Soviética, em 1991, e o fim da Guerra Fria, a lógica bipolar que organizava o mundo chegou ao fim, abrindo caminho para uma nova configuração global.

Durante décadas, os Estados Unidos exerceram hegemonia quase incontestável. A dissolução dessa ordem também abriu espaço para que outras nações priorizassem agendas próprias, diversificando parceiros comerciais, fontes de investimento e estratégias de desenvolvimento.

Somado a isso, o Sul Global concentra parcela significativa da população mundial, recursos estratégicos e crescente peso diplomático, ampliando sua capacidade de negociar em bloco, pressionar por reformas institucionais e defender maior representatividade nos organismos multilaterais.

Fileira de bandeiras das nações do BRICS, incluindo África do Sul, China, Brasil, Índia e Rússia, ondulando ao vento sob um céu azul. A imagem ilustra a cooperação diplomática entre as potências emergentes do Sul Global.
O fortalecimento dos países do Sul Global desafia a hegemonia tradicional e propõe uma nova governança baseada na multipolaridade. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A crise da ordem internacional do pós-guerra

Grande parte das estruturas que organizam a política e a economia internacional surgiu no contexto posterior à Segunda Guerra Mundial. Organismos como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial nasceram com o objetivo de estabilizar um mundo devastado pelo conflito, evitar novas guerras em escala global e reconstruir economias destruídas.

Ao mesmo tempo, essas instituições consolidaram a distribuição de poder existente naquele momento histórico. Em outras palavras, refletiam a correlação de forças de 1945, marcada pela centralidade dos Estados Unidos e das potências europeias vencedoras.

Durante décadas, esse arranjo garantiu previsibilidade ao sistema internacional e serviu como base para a expansão do comércio global, da cooperação multilateral e da integração financeira. O problema é que o mundo mudou muito, mas a hierarquia de poder desses organismos continuou a mesma.

Com a ascensão de novas potências econômicas, o crescimento demográfico de países emergentes e a ampliação do peso político do Sul Global, também aumentaram os questionamentos sobre a legitimidade de uma ordem internacional desenhada há quase oito décadas. Esse processo inaugurou uma crise que vai além da esfera institucional e também se tornou uma crise de representatividade.

Vista aérea da mesa circular em formato de ferradura do Conselho de Segurança da ONU em Nova York, com delegados sentados e alguns com mãos levantadas em votação. O elemento destaca o centro das decisões da governança mundial.
Criado no pós-guerra, o Conselho de Segurança enfrenta pressões por reformas que refletem a realidade demográfica e política do século XXI. Foto: Stan Honda/ AFP

ONU, FMI e os limites do sistema multilateral

Um dos exemplos mais visíveis dessa crise está na Organização das Nações Unidas (ONU). Embora reúna 193 Estados-membros e siga como principal fórum diplomático do planeta, o órgão com maior poder e capacidade de estabelecer decisões vinculantes é o Conselho de Segurança.

Dos 15 assentos do conselho, apenas cinco são permanentes e contam com poder de veto:

  • Estados Unidos
  • Rússia
  • China
  • França
  • Reino Unido

Definida em 1945, essa estrutura refletia a correlação de forças do pós-guerra. O problema é que ela permaneceu praticamente intacta, mesmo após a independência de dezenas de países, a ascensão de novas economias e profundas mudanças demográficas.

Nenhum país africano possui assento permanente. Nenhum país da América Latina tem direito a veto. Países do sul e do sudeste asiático também ficaram de fora.

Bretton Woods, dólar e poder financeiro global

Debate semelhante ocorre no campo econômico. Em 1944, ainda durante a guerra, a Conferência de Bretton Woods lançou as bases da governança financeira internacional com a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Essas instituições tiveram papel central na reconstrução do pós-guerra e na expansão do sistema financeiro global.

No entanto, sua estrutura de poder também preservou o protagonismo das economias centrais. No FMI, o peso de voto de cada país é definido por cotas, sendo necessário 85% de apoio para aprovar medidas. Como os Estados Unidos detêm mais de 15% das cotas, o país possui poder de veto.

Grande plano de uma nota de 100 dólares americanos sendo consumida pelo fogo em uma das extremidades. A imagem simboliza os debates sobre desdolarização e a perda de hegemonia financeira dos Estados Unidos.
A hegemonia do dólar como moeda global de reserva é contestada por blocos que buscam autonomia financeira e proteção contra sanções. Foto: Pixabay

Para muitos países do Sul Global, o acesso a crédito internacional historicamente veio acompanhado de exigências como programas de austeridade, privatizações e abertura de mercados.

Além disso, o arranjo do pós-guerra consolidou a hegemonia do dólar como principal moeda do comércio internacional e das reservas cambiais. Esse processo, além de gerar vantagens econômicas aos Estados Unidos, também transformou a moeda em instrumento de pressão geopolítica. Sanções financeiras, bloqueios de ativos e restrições de acesso ao sistema internacional de pagamentos mostraram, nas últimas décadas, que moeda também pode ser ferramenta de poder.

Diante desse cenário, cresce entre países do Sul Global a defesa por reformas institucionais e pela construção de alternativas que reduzam dependências históricas.

BRICS: o avanço político do Sul Global

A insatisfação de parte do Sul Global com a ordem internacional construída no pós-guerra não ficou apenas no campo do discurso. Nas últimas décadas, ela também impulsionou iniciativas concretas de articulação política e econômica. Nesse contexto, o BRICS se consolidou como um dos principais símbolos da reorganização do poder global no século XXI.

O agrupamento realizou sua primeira cúpula em 2009, reunindo Brasil, Rússia, Índia e China. No ano seguinte, a África do Sul passou a integrar o bloco, ampliando sua representatividade geográfica e política. Desde então, o grupo deixou de ser visto apenas como uma reunião de economias emergentes e passou a atuar como espaço de coordenação diplomática entre países que defendem maior equilíbrio na governança global.

Os líderes do Brasil, China, África do Sul, Índia e o representante da Rússia (Lula, Xi Jinping, Ramaphosa, Modi e Lavrov) posam de mãos dadas durante a 15ª Cúpula do BRICS. Representa a união política do Sul Global.
A cúpula do BRICS em Joanesburgo, em 2023, marcou o início de uma expansão histórica que alterou o equilíbrio de forças no comércio internacional. Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

Juntos, os membros do BRICS concentram parcela expressiva da população mundial, grande peso econômico e influência crescente sobre temas estratégicos, como energia, comércio, segurança alimentar e infraestrutura.

Em 2023, o bloco passou por sua maior expansão desde a fundação, incorporando novos integrantes, como Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Em 2025, a Indonésia também formalizou sua entrada. Outro país que mantém relações próximas com o grupo é a Arábia Saudita, embora ainda não tenha confirmado oficialmente sua adesão.

O peso econômico e estratégico do BRICS

O peso e o potencial de transformação do BRICS na ordem internacional vigente também se sustentam em dados expressivos, o que ajuda a explicar por que o grupo e, de forma mais ampla, o Sul Global têm ganhado tanta relevância.

O crescimento acelerado das economias que compõem o agrupamento confere ao BRICS papel cada vez mais importante na dinâmica global. Em 2024, considerando o PIB combinado de seus membros, o bloco já representava cerca de 40% da economia mundial, superando o G7, um grupo formado por sete das nações mais industrializadas do planeta: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá.

No campo energético, os números também chamam atenção. Segundo dados do Ministério de Minas e Energia (MME), os países do BRICS concentram 44% das reservas globais de petróleo e 53% das reservas de gás natural. Além disso, respondem por 43% da produção mundial de petróleo e 35% da produção de gás.

Em recursos estratégicos, o bloco também ocupa posição central. Brasil e Rússia reúnem algumas das maiores reservas de água doce do planeta, enquanto os países membros concentram cerca de 72% das reservas mundiais de terras raras (minerais essenciais para a indústria tecnológica, a defesa e a transição energética).

Vista aérea panorâmica de uma vasta mina a céu aberto em Minaçu, Goiás, com escavações em degraus e áreas de mata nativa ao redor. Ilustra as reservas estratégicas de minerais essenciais para a transição energética.
Com o Sul Global concentrando 72% das reservas de terras raras, o Brasil assume uma posição estratégica. A mina de Minaçu (GO) torna o país o único produtor em escala desses minerais fora da China. Foto: José Cícero/Agência Pública

No campo financeiro, o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado em 2014, busca ampliar fontes de financiamento para infraestrutura e desenvolvimento sustentável. Paralelamente, o grupo discute mecanismos para expandir o uso de moedas locais no comércio entre seus membros e reduzir custos de transação.

Tudo isso não significa que o BRICS atue de forma coesa ou sem divergências internas. Porém, demonstra que o bloco reúne escala econômica, recursos estratégicos e influência política suficientes para participar da redefinição da ordem mundial.

Sob o comando de Dilma Rousseff, o Banco do BRICS busca financiar o desenvolvimento sustentável sem as condicionalidades do FMI. Foto: Ricardo Stuckert

Os limites e desafios do Sul Global

Embora o conceito de Sul Global seja útil para compreender mudanças na ordem internacional, ele não representa um bloco homogêneo. As diferenças políticas, econômicas e sociais entre seus integrantes são profundas, o que limita a construção de agendas comuns e estratégias coordenadas.

No caso do Brics, por exemplo, o grupo reúne países com rivalidades relevantes. China e Índia disputam influência regional e mantêm tensões fronteiriças históricas. Além disso, interesses nacionais distintos fazem com que os países caminhem em direções opostas em diversos momentos.

A falta de coesão também aparece em cenários de conflito. No início de 2026, durante a guerra no Irã, contradições ficaram evidentes quando o país retaliou bases dos Estados Unidos instaladas na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. Países que, junto ao Irã, também integram o Brics.

Por isso, é importante considerar que o Sul Global não representa uma massa homogênea de países. No curso Filosofia: outra jornada, disponível para membros do ICL, a professora Suze Piza, doutora em filosofia pela Unicamp, afirma que o conceito “é territorial, mas ao mesmo tempo tem um sentido metafórico”.

Segundo ela, a ideia de Sul Global permite pensar territórios que não estão necessariamente no sul geográfico, “mas são atravessados pelas mesmas experiências em termos de estruturação do capitalismo, do patriarcado e dos processos de colonização”.

Desenho em traços pretos de Joaquín Torres García mostrando o mapa da América do Sul invertido, com o polo sul no topo. O mapa inclui nomes de cidades como La Paz, Cusco e Bogotá, simbolizando o pensamento decolonial.
A icônica obra de Torres García simboliza o esforço do Sul Global em reafirmar sua própria identidade e perspectiva geopolítica. América Invertida de Joaquín Torres García.

A nova ordem mundial em disputa

Toda essa reorganização do cenário internacional ocorre em meio a forte instabilidade. O enfraquecimento de estruturas multilaterais e a ascensão de novos pólos de poder têm sido acompanhados pelo avanço de conflitos armados, disputas comerciais, tensões tecnológicas e crescente competição entre grandes potências.

Nesse contexto, cresce também o risco do unilateralismo: decisões tomadas por países mais poderosos sem amplo consenso internacional. Países como os Estados Unidos, têm usado tarifas comerciais, sanções econômicas, bloqueios financeiros e intervenções externas como instrumentos políticos e econômicos para influenciar decisões e conduzir o cenário global rumo a seus próprios interesses.

A rivalidade entre Estados Unidos e China se tornou um dos exemplos mais marcantes desse novo cenário. De um lado, Washington usa a força para preservar sua liderança militar, financeira e tecnológica. Do outro, Pequim amplia influência por meio do comércio, investimentos, infraestrutura e presença diplomática em diferentes regiões.

Ao mesmo tempo, conflitos regionais e crises sucessivas expõem os limites das instituições criadas no pós-guerra, como a Organização das Nações Unidas (ONU), frequentemente incapazes de responder com rapidez e consenso. O resultado é um mundo em transição: menos previsível, mais fragmentado e disputado.

 


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