Por Leila Cangussu
O turismo sempre esteve associado ao lazer, ao deslocamento e ao consumo cultural. Na América Latina, porém, ele ganhou novas camadas de significado. O debate sobre turismo sustentável AL cresceu nas últimas décadas e se consolidou como pauta central para governos, organismos multilaterais, comunidades e até empresas privadas.
A noção de o que é turismo sustentável vai além de reciclagem, trilhas em áreas preservadas ou hospedagens com painéis solares. Trata-se de um modelo que considera os impactos sociais, econômicos e ambientais das viagens. Na prática, significa que o turismo só pode ser sustentável se gerar benefícios para as comunidades, proteger o território e reduzir desigualdades.
O que é turismo sustentável
De acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT), o turismo sustentável é aquele que atende às necessidades da indústria, dos visitantes, do meio ambiente e das comunidades anfitriãs, levando em conta impactos atuais e futuros. Isso envolve três dimensões:
- Econômica: fortalecer cadeias produtivas locais e reduzir a dependência de corporações internacionais.
- Ambiental: preservar ecossistemas, reduzir emissões e evitar sobrecarga em destinos turísticos.
- Social: incluir populações historicamente excluídas, respeitar culturas locais e promover trabalho decente
Essa definição ganha força na América Latina, onde estão algumas das maiores reservas de biodiversidade do planeta, além de comunidades indígenas, quilombolas e afrodescendentes que mantêm modos de vida próprios. O turismo sustentável na região não é apenas prática ambiental, mas também projeto político e disputa de soberania.
Países da América Latina e o protagonismo no turismo sustentável
A América Latina foi classificada em relatórios internacionais como a região com maior potencial para turismo e investimentos sustentáveis. Esse destaque tem relação com:
- A presença de biomas únicos, como a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado, os Andes e o Caribe.
- A diversidade cultural de povos indígenas e comunidades tradicionais.
- A pressão de acordos multilaterais ligados à Agenda 2030 da ONU e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Governos latinos passaram a usar o turismo sustentável como vitrine internacional. Em encontros da Cepal, por exemplo, foram discutidas estratégias regionais para combater as mudanças climáticas e reforçar a cooperação Sul-Sul. A América Latina se apresentou não só como destino turístico, mas como espaço de experimentação de políticas públicas de sustentabilidade.
Turismo sustentável no Brasil: legislação e políticas públicas
O turismo sustentável no Brasil ganhou visibilidade em fóruns da ONU Turismo. O país apresentou sua Lei Geral do Turismo (2024) como modelo legal que alia crescimento econômico e sustentabilidade. Entre os pontos debatidos:
- Incentivo a práticas ambientais responsáveis.
- Mecanismos de inclusão social e diversidade.
- Ordenamento territorial sustentável para evitar a exploração predatória.
Além da lei, o país tem programas como o Bandeira Azul, que certifica praias e marinas com práticas ambientais. O Brasil lidera a América do Sul nesse quesito, com dezenas de certificações ativas.
Nos fóruns internacionais, autoridades brasileiras destacaram ainda experiências de turismo acessível e comunitário. Exemplos incluem o Camping Acessível no Rio Grande do Sul e as Rotas Negras, voltadas para o afroturismo. Essas iniciativas mostram que o turismo sustentável também é instrumento de democratização do lazer e valorização cultural.

Casos de referência na América Latina
O turismo sustentável nos países da América Latina não segue um modelo único. Cada governo, comunidade e iniciativa local construiu estratégias próprias para equilibrar preservação ambiental, economia e inclusão social. Esse mosaico de experiências ajuda a projetar a região como espaço de inovação no cenário global. Além das políticas nacionais, certificações internacionais e prêmios reforçam o protagonismo latino-americano no debate sobre sustentabilidade.
Costa Rica: economia verde e política de Estado
A Costa Rica é um dos modelos mais citados mundialmente. O país conseguiu ampliar sua cobertura florestal para cerca de 60%, revertendo décadas de desmatamento. Quase toda a energia consumida vem de fontes renováveis e aproximadamente um quarto do território é protegido. Essa combinação transformou a Costa Rica em referência global. Mais do que iniciativas isoladas, trata-se de uma política de Estado de longo prazo, que alia conservação, bem-estar social e turismo sustentável.
Colômbia: biodiversidade e certificações
A Colômbia possui dezenas de destinos certificados como sustentáveis. O governo aposta no turismo como ferramenta para reconstruir territórios afetados por conflitos armados, ampliando renda em áreas rurais. O país também é membro fundador da Future of Tourism Coalition, reforçando compromissos com padrões sustentáveis e distribuição justa de renda.
Chile: turismo de aventura aliado à sustentabilidade
O Chile concentra alguns dos principais destinos de turismo de aventura. Regiões como Torres del Paine e o Deserto do Atacama abrigam hotéis sustentáveis reconhecidos internacionalmente, como o EcoCamp Patagonia e o Tierra Atacama Hotel & Spa. O país alia a preservação das paisagens com uma infraestrutura turística planejada para reduzir impactos ambientais.
Peru: preservação em Machu Picchu
No Peru, Machu Picchu é exemplo de como conciliar turismo de massa e conservação. Políticas de controle de fluxo de visitantes foram implementadas para reduzir impactos no sítio arqueológico. No Vale Sagrado dos Incas, iniciativas comunitárias mantêm práticas agrícolas e culturais vivas ao mesmo tempo em que recebem visitantes interessados em ecoturismo.

República Dominicana: políticas públicas com apoio internacional
Na República Dominicana, programas governamentais apoiados pela ONU investem em eficiência energética, redução do uso de plásticos e combate à poluição marinha. O país busca integrar práticas de sustentabilidade à hotelaria e à promoção internacional de seus destinos.
Brasil: certificações e prêmios internacionais
O Brasil se consolidou como referência regional em turismo sustentável por meio de certificações e premiações. O Programa Bandeira Azul é exemplo: em 2024/25, o país liderou a América do Sul em número de praias e marinas certificadas. Essa conquista coloca destinos brasileiros em posição de destaque em rankings internacionais de sustentabilidade.
O país também vem sendo reconhecido por iniciativas premiadas no exterior. No Prêmio de Turismo Responsável da WTM Latin America, projetos brasileiros receberam destaque: a Biofábrica de Corais, em Porto de Galinhas, mobiliza jangadeiros e comunidades locais na restauração de recifes. Além disso, o estado de Mato Grosso do Sul foi premiado em fóruns internacionais por práticas de governança, uso de tecnologia e projetos de descarbonização, como o Bonito Carbono Neutro.

Iniciativas comunitárias e inclusivas
O turismo sustentável não se resume a grandes políticas de Estado. A região é marcada por projetos comunitários e experiências locais que colocam trabalhadores e comunidades como protagonistas.
- Afroturismo no Brasil: rotas que resgatam a memória negra, valorizam quilombos e geram renda.
- Turismo indígena: iniciativas apoiadas por organizações internacionais que garantem autonomia aos povos originários.
- Costa Magia no México: operadora comunitária que une turismo, monitoramento ambiental e ciência cidadã.
Esses exemplos mostram como a sustentabilidade também passa pela justiça social. São práticas que reforçam a ideia de que o turismo pode ser uma ferramenta de resistência cultural e econômica.
Certificações e prêmios internacionais
O reconhecimento internacional tem sido central para consolidar a imagem da América Latina no turismo sustentável.
- O Prêmio de Turismo Responsável WTM Latin America 2025 premiou projetos em categorias como mudanças climáticas, diversidade, turismo indígena e valorização do patrimônio histórico.
- Entre os vencedores, destaque para a Biofábrica de Corais (Brasil), que restaura recifes em Porto de Galinhas, e a Costa Magia (México), que combina turismo comunitário e conservação.
- O Programa Bandeira Azul consolidou o Brasil como líder em certificações ambientais na América do Sul.
Esses selos e premiações funcionam como moeda simbólica no mercado global de turismo, mas também levantam debates sobre quem define os padrões de sustentabilidade e quais interesses estão por trás dessas certificações.
Perfil do viajante latino-americano
Pesquisas realizadas por plataformas de reservas mostraram que viajantes latino-americanos são os que mais valorizam práticas sustentáveis. Alguns dados:
- 94% consideram fundamental que as viagens sejam sustentáveis.
- 75% reconhecem o impacto econômico do turismo nas comunidades.
- Destinos como Bonito (Brasil), Bogotá (Colômbia), Córdoba (Argentina), Puebla (México) e San José (Costa Rica) se destacam por acomodações certificadas.
Esses números revelam que há demanda concreta para o turismo sustentável, não apenas retórica institucional. O comportamento do viajante é parte central dessa transformação.
Turismo sustentável e Agenda 2030
Nos fóruns da Cepal e da ONU Turismo, a Agenda 2030 foi apontada como referência para políticas públicas na América Latina. Entre os compromissos assumidos:
- Reduzir emissões de carbono.
- Proteger 30% do planeta até 2030.
- Fortalecer a diversidade no setor.
- Promover inclusão social por meio do turismo.
O turismo foi tratado como estratégia de enfrentamento às mudanças climáticas e como setor capaz de estimular justiça social. A América Latina busca se consolidar como região de liderança nesse processo.
Desafios e contradições
Apesar dos avanços, o turismo sustentável na América Latina enfrenta obstáculos estruturais:
- Pressão da especulação imobiliária sobre áreas costeiras.
- Conflito com agronegócio, mineração e empreendimentos de grande escala.
- Persistência de desigualdades sociais que limitam a participação de comunidades locais.
- Turistificação que transforma modos de vida em mercadoria.
Essas contradições mostram que o turismo sustentável é, antes de tudo, um campo de disputa. Ele pode tanto reforçar a lógica de mercado quanto abrir caminho para alternativas baseadas em solidariedade, inclusão e soberania.
Conclusão
O debate sobre turismo sustentável AL revela como a atividade turística está no centro de questões econômicas, sociais e ambientais. Na América Latina, esse modelo se conecta a disputas históricas por território, à luta de comunidades tradicionais e às pressões internacionais por sustentabilidade.
O Brasil, com sua legislação e certificações, a Costa Rica, com sua política ambiental de Estado, e países como Colômbia, Chile, Peru e República Dominicana, cada um a seu modo, buscam projetar-se como exemplos. O continente se apresenta como espaço de experiências que combinam resistência cultural, preservação e inovação.
Mais do que tendência de mercado, o turismo sustentável na América Latina é expressão de um embate político sobre como viajar, quem se beneficia e quais caminhos podem garantir justiça social e ambiental para a região.