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Cordeiros: o pior emprego do Carnaval de Salvador tem diária de R$ 80

Encarregados de garantir espaço privilegiado a foliões, trabalhadores enfrentam violência e condições insalubres
12 de fevereiro de 2024

Jairo Costa Júnior — Projeto Colabora

Na cadeia do trabalho do Carnaval em Salvador, os cordeiros compõem a casta mais baixa da numerosa mão de obra que ocupa as ruas da capital baiana no período da folia. Ao lado dos catadores de latinhas, integram o que se poderia chamar no vocabulário marxista de lumpemproletariado (camada mais degradada dos trabalhadores) da festa de maior popularidade do planeta, abaixo até dos ambulantes e garis da Limpurb, a empresa pública de limpeza urbana da cidade.

A cada fevereiro, o batalhão formado por aproximadamente 15 mil trabalhadores, segundo os cálculos atuais do Sindicato dos Cordeiros do Estado da Bahia (Sindicorda), suporta a rotina de, pelo menos, oito horas de desfile para garantir que os blocos de trios sejam espaços exclusivos de foliões dispostos a pagar (caro) pelos abadás — além, é claro, de assegurar os lucros dos empresários que comandam o segmento. Muitos cordeiros dobram essa jornada e trabalham em dois blocos por dia, para garantir uma renda maior durante a folia baiana.

Com mais de três décadas de experiência nas cordas, Valdenice Santos, 60 anos, esmiúça em detalhes o que torna a atividade o pior emprego do Carnaval.

“É trabalho feito na base da humilhação. A começar pela forma de pagamento. Sempre com filas imensa, brigas e muita confusão para receber dos blocos”, inicia Nice Cordeira, como se tornou conhecida em Praia Grande, bairro do Subúrbio, o mais populoso bolsão de pobreza e miséria de Salvador.

Matriarca de uma família onde praticamente todos são cordeiros no Carnaval, Nice faz uma viagem a um tempo em que as condições de trabalho eram infinitamente piores que as de hoje.

“Quando comecei a trabalhar com blocos, lá por 1993, 1994, não existiam regras. Era um bando de gente de pé descalço, sem luva. Não tinha direito nem a água. Também não havia valor mínimo de diária. Cada um pagava o que queria. E ainda davam calote”, lembra.

O panorama de hoje é menos degradante. Mas antes de mostrar os avanços — grandes em relação ao passado, mas pequenos no que diz respeito à humanização das relações de trabalho —, vale abordar o que não mudou desde quando o modelo atual da folia soteropolitana foi consolidado.

“Sofremos ainda violência de quem está do outro lado da corda. Provocações, agressões. É comum que um endemoniado apareça do nada e dê um murro na cara do cordeiro”, afirma Nice.

 

“Há também quem passe a mão em uma menina que está trabalhando com roupinha mais apertada na corda ou tente agarrar a cordeira na marra. Como parte das mulheres trabalha com o namorado, marido, pai ou irmão, acaba em briga”, acrescenta.

Ela conta que seu filho, Joelson Santos, anos atrás reagiu fisicamente quando um folião da pipoca tentou beijar à força sua esposa. “Há também os cordeiros brigões, mas eles são poucos. A maioria é da paz. Vai lá para garantir um dinheiro extra no Carnaval”, emenda.

Para o presidente do Sindicorda, Mateus Santos, a violência é resultado de um tipo de apartheid carnavalesco.

“Do lado de dentro das cordas, está o folião que pagou pelo abadá e quer curtir separado do povão. Do outro, estão aqueles que não podem bancar o bloco. No meio dos dois, está o cordeiro”, explica, ao destacar também que a violência policial contra a categoria, embora exista, se tornou menor nos últimos anos.

“Antes víamos com frequência cenas de PMs agredindo cordeiros com cassetetes. Isso praticamente deixou de existir. Muito por causa da vigilância ativa da imprensa a casos como esses”, emenda. Para quem testemunha anualmente a rotina dos cordeiros há duas décadas e meia, caso deste repórter, ainda impressiona o dobrado que corta a turma da corda por tão pouco e sob níveis extremos de desgaste físico e emocional.

Cordeiros durante desfile de trios elétricos em Salvador: barreira de contenção para separar quem pagou caro por abadá dos foliões comuns. Foto: Reprodução

DIÁRIA DE R$ 80 E DOIS PACOTES DE BISCOITO

A odisseia dos cordeiros começa a partir do momento em que se é arregimentado pelas empresas de segurança, grandes atravessadores de mão de obra para os blocos. São elas as responsáveis por identificar líderes, como Nice, e subcontratá-los para montar grupos com 50 e 200 pessoas interessadas em enfrentar horas a fios segurando a corrente de corda grossa que mantém, em um imenso espaço retangular, os vips longe da massa.

“É uma quarteirização. O dono de bloco terceiriza a segurança para uma empresa de segurança, que quarteiriza a contratação de cordeiros para os chamados líderes, que recebem uma ponta a mais por cada cabeça (profissional convocado). Por região o Subúrbio é a grande fornecedora de mão de obra”, detalha o presidente do Sindicorda, que ainda atua na pista, só que agora como coordenador do pessoal das cordas, e como sindicalista, à frente da tropa da fiscalização.

A partir da contratação, é que começa o trabalho pesado. Primeiro, é preciso ter o dinheiro do transporte e estar alimentado para chegar duas horas antes na concentração do bloco. Depois vem a parte mais difícil: segurar o tranco por no mínimo seis horas de apresentação, sem intervalos para descanso.

Embora não sejam seguranças, os cordeiros formam a primeira barreira de contenção, cuja intensidade da pressão sobre ela vai de acordo com a atração. Quando o trio começa a se movimentar, a longa jornada de trabalho — muitas vezes sob sol forte e temperatura perto dos 35 graus, outras debaixo de chuva — não tem mais intervalo; a cada Carnaval, repetem-se desmaios devido ao calor.

Assim como Nice, o cordeiro Edson Conceição Damasceno, 32 anos, também de Praia Grande, elenca Bell Marques (ex-líder do Chiclete com Banana), os pagodeiros da banda La Fúria e o cantor Leo Santana, Timbalada e Ivete Sangalo como as cordas mais árduas de segurar.

“Trabalhei ano passado no Vumbora, bloco de Bell, e foi pesado demais. Era muita gente empurrando, ameaçando. É chute, cotovelada, tapa e até murro. Tem que ter sangue no olho”, recomenda.

Toda cruzada dos cordeiros em busca de um ganho a mais no Carnaval se resume, por cada dia trabalhado, a R$ 80 reais, dois pacotes de biscoito, um doce e outro salgado, uma lata de refrigerante ou um suco de caixinha, quatro garrafas de água mineral de 500 ml, para blocos que saem antes das 17h, e três para aqueles que partem a partir das 17h. Mais protetor auricular, luva e camisa válidos para todos os dias.

Esses foram os direitos assegurados graças ao Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2017 entre o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Associação de Blocos e Trios (ABT), entidade que concentra os empresários da folia na pista, após uma longa queda de braço travado pelo Sindicorda contra as más condições enfrentadas pelos cordeiros e o deserto de leis que regia as relações do patrão com o subempregado.

“As condições, nem de longe se assemelham ao passado. Hoje existe piso, que cresceu este ano em 35%. Ninguém reajustou tanto assim no período. Não existem mais calotes. Passamos a fornecer os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) e a cumprir todas as determinações do TAC, incluindo a alimentação definida no acordo. Há blocos, como o meu, que pagam diária pouco maior”, garante Washington Paganelli, presidente da ABT (Associação de Blocos e Trios) e do Conselho Municipal do Carnaval (Comcar), instância deliberativa máxima da folia em Salvador.

Multidão de abadás cor de rosa acompanha trio elétrico no Carnaval de Salvador: espaço privilegiado na folia custa caro e é garantido por cordeiros. Foto: Manu Dias/ Governo da Bahia

ABADÁS CHEGAM A R$ 5 MIL

Sócio e principal executivo do bloco As Muquiranas, um dos mais bombados, Paganelli afirma que contratará 800 cordeiros para os 2,5 mil foliões que pagaram R$ 750 pelos abadás para os dois dias de desfile.

“Estamos definindo se será R$ 90 ou R$ 100 a diária. Pode parecer pouco, mas não é. Há blocos que vendem abadás a R$ 100 por dia. Esses precisam manter o negócio de pé também. Para estes, é impossível pagar mais de R$ 80”, ressalta. “Mas o importante é que todos os blocos filiados à ABT vêm cumprindo o TAC”, assegura.

Embora existam cerca de 200 blocos cadastrados para atuar no Carnaval e nos dias de pré-folia na capital, Matias Santos diz que apenas 19 cumprem integralmente o TAC. Entre os quais, As Muquiranas (La Fúria e Psirico), Crocodilo (Daniela Mercuri), Coruja (Ivete Sangalo), Me Abraça (Durval Lélys), Largadinho (Claudia Leitte), Olodum, Bloco da Anitta, Vumbora e Camaleão, ambos pilotados por Bell Marques. Todos pertencem à lista dos mais cobiçados e chegam a custar até R$ 5,2 mil por três dias, caso do Camaleão.

“Para nossa surpresa, vimos um bloco, o Afropunk, que desfila um dia este ano, pagar R$ 150 a diária para os cordeiros, por decisão própria. Apenas nos comunicaram. Por outro lado, ainda enfrentamos dificuldades para que o TAC seja cumprido, sobretudo nos blocos afros, incluindo os grandes”, afirma o presidente do Sindicorda, que preferiu não citar nomes enquanto as negociações com essas entidades não estiverem concluídas.

“A luta dos cordeiros por condições dignas foi consolidada com o TAC. De lá para cá, houve avanços gradativamente. Hoje, foi estabelecido um novo piso, melhorias na alimentação, EPIs, seguro de vida coletivo. Ainda há muito o que avançar, mas a conquista recente de um acento permanente pelo Sindicorda no Conselho do Carnaval já representa um salto gigantesco”, afirma a procuradora do trabalho Marina Pimenta, integrante do Grupo de Trabalho do Carnaval do MPT.

Entre os avanços possíveis, tanto Mateus Santos quanto Marina Pimenta destacam a construção de um centro de convivência e descanso nos principais circuitos da folia: Centro (Campo Grande-Praça Castro Alves) e Orla (Barra-Ondina). “Os blocos precisam também fornecer água gelada para o pessoal da corda. A que eles recebem muitas vezes está morna, sem qualquer refrigeração”, acrescenta o líder sindical e um dos fundadores da entidade em 2006.

A administração municipal, poder público responsável pela festa, respondeu em nota ao #Colabora, ao ser indagada sobre como atuará para garantir os direitos da categoria:

“A Prefeitura de Salvador informa que a atividade dos cordeiros e regulamentada. Na lei, há diversas responsabilidades que precisam ser cumpridas pelos blocos de corda para garantir condições dignas de atuação dos trabalhadores. A Prefeitura irá fiscalizar e, caso os critérios não sejam seguidos, os blocos podem ter seus alvarás cassados”.

Alheios às promessas, os cordeiros ouvidos para esta reportagem compartilham em comum um senso de dever cumprindo. Sabem que, sem seu suor, nem blocos conseguiriam e nem trios também sair no Carnaval de Salvador, já que os cordeiros são obrigatórios para evitar o arriscado contato dos foliões com os trios em movimento. Veem como exemplo de dignidade de ganhar de forma honesta algum dinheiro, em meio ao desemprego que assola a Bahia, campeã nacional em desocupados pelo ranking do IBGE.

“Tem mãe e pai de família que me agradece por poder comprar uma TV, um ventilador, poder colocar comida em casa, sair de um sufoco com o trabalho que arranjei pra eles junto comigo nas cordas. Eu sinto que ajudo gente da minha comunidade. Tem família que trabalha unida no bloco que chega a tirar mais de R$ 2 mil em todos os dias do Carnaval”, afirma Nice Cordeira.

“Graças a Deus, posso ganhar um extra. Emprego tá osso. Fazer o quê, cidadão?”, diz Edson Damasceno, ao citar a célebre expressão eternizada no refrão de um dos hits de Bell Marques, o mesmo que lhe rendeu o maior suplício de sua carreira nas cordas.

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