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Capo do bicho e patrono da Mocidade: como Rogério de Andrade quer limpar imagem

Um pequeno adereço pode impedir Rogério de ir ao Sambódromo: a tornozeleira eletrônica
12 de fevereiro de 2024

Por Chico Alves/ Ilustrações: Camila Pizzolotto

O verão de 2014 foi bastante quente, mas a temperatura no barracão da Mocidade Independente de Padre Miguel subiu ainda mais na noite de terça-feira, dia 4 de fevereiro, quando o contraventor Rogério de Andrade entrou na sala da presidência. O sobrinho do lendário bicheiro Castor de Andrade surgiu sem avisar na reunião de diretoria para dar um ultimato. Depois de criticar a gestão de Paulo Vianna, que estava dez anos à frente da escola, anunciou, olho no olho: “Você agora vai sair e nunca mais concorrer ao posto.” Os presentes à reunião, alguns armados, observaram calados Vianna concordar. Estava selada a volta ao poder na verde e branco de Padre Miguel de um membro da família Andrade, 16 anos após a morte de Castor.

No dia seguinte, Vianna divulgou carta de renúncia que surpreendeu o mundo do samba. Mesmo depois de ser denunciado pelo Ministério Público por falsificar centenas de assinaturas de uma assembleia, ele nunca fizera menção de deixar o cargo. Só os poucos que souberam da conversa travada com Rogério de Andrade na noite anterior entenderam seu gesto. Logo após aquela reunião, as fotos, a bandeira do Vasco e outros pertences de Paulo Vianna foram retirados da sala da presidência e jogados no lixo. Oficialmente, Wandyr Trindade, vice-presidente, assumiu o posto. Mas todos na escola sabem: quem passava a mandar a partir dali era Rogério, pela primeira vez assumindo a condição de patrono.

Naquele momento começou a reviravolta no estilo normalmente discreto e distante do Carnaval pelo qual Rogério era conhecido. Nos anos anteriores, ele só tinha aparecido no noticiário por fatos ligados à disputa na contravenção: a acusação de assassinato do primo, Paulinho Andrade (da qual foi inocentado); apreensões de máquinas caça-níqueis e a sanguinária disputa com o genro de Castor e também contraventor Fernando Iggnacio, que rendeu de parte a parte vários atentados a tiros e até mesmo a bomba — em 2010, o filho adolescente de Rogério morreu quando seu carro explodiu à luz do dia, na Barra.

Quando assumiu o posto de patrono da Mocidade, Rogério não deixou de ter o nome ligado pela polícia a crimes dignos da máfia — entre os quais o assassinato de Fernando Iggnacio, no dia 11 de novembro de 2020, com vários tiros de fuzil na cabeça. Mas ele passou a ser associado também a assuntos mais amenos, como a organização da maior festa popular do Brasil. Seu objetivo é se beneficiar dessa espécie de passaporte para a aceitação social, tão usado pelos chefões da contravenção carioca, que ninguém explorou tão bem quanto Castor de Andrade.

Apesar de ter o mesmo sangue correndo nas veias, Rogério não tem um pingo do talento carnavalesco de Castor, que morreu em 1997. A lista de crimes atribuídos ao tio, comprovados ou não, também é extensa, mas mesmo assim ele conseguiu usar a folia para difundir na imprensa a imagem de benfeitor, brincalhão e bom de samba. Vestindo esse personagem, Castor era entrevistado amistosamente em programas do horário nobre da TV, exibia em público os seus amigos influentes — Boni, um dos criadores da Globo, era um deles — e desfilava aplaudido pelas arquibancadas do Sambódromo.

Já Rogério parece ter enorme dificuldade para mover os músculos da face que formam o sorriso — talvez também por causa das várias cirurgias plásticas que fez com objetivo de enganar a polícia, quando era um fugitivo. Está longe de ter o carisma pessoal do tio e nunca foi visto exibindo samba no pé.

Seu desempenho como patrono é sofrível. Depois que se tornou o chefão da Mocidade, investiu alto e a escola foi campeã em 2017. Do ano seguinte até 2022, Rogério teve as contas bancárias bloqueadas pela Justiça, chegou a ser preso duas vezes, ficou seis meses foragido por causa da acusação de organização criminosa, corrupção, lavagem de dinheiro e homicídio. Nesse período, botou pouco dinheiro na agremiação e no ano passado a Mocidade quase foi rebaixada. Ficou em penúltimo lugar.

Apesar da acusação do Ministério Público do Rio, de que o papel de patrono da escola é na verdade uma fachada para lavar dinheiro, ele voltou a financiar a preparação do desfile deste ano.

Parece disposto a tentar novamente a transformação de capo em patrono da Mocidade. Não que tenha desembolsado muito dinheiro nos últimos meses, mas, segundo contaram ao ICL Notícias integrantes do barracão da escola de Padre Miguel, atuou em momentos de emergência, quando faltavam recursos para finalizar um ou outro carro alegórico. Soltou R$ 50 mil aqui, R$ 100 mil ali, algo muito aquém da montanha milionária de dinheiro que os bicheiros dizem injetar a cada desfile.

Também por causa dessa ajuda, o clima atual da escola é de otimismo, o inverso do ano passado. Além disso, o enredo e o samba levados ao Sambódromo este ano caíram nas graças do povo. Tanto os ensaios de rua, no bairro da zona oeste, quanto os ensaios técnicos, na Marquês de Sapucaí, ficaram lotados e se desenrolaram em clima de empolgação.

No embalo desse alto astral, Rogério de Andrade quer estender a influência para além da Mocidade. Seus últimos movimentos mostram que pretende ter papel de destaque na Liga das Escolas de Samba (Liesa), a entidade que reúne os dirigentes do carnaval, quase todos contraventores. A ideia é disputar o protagonismo para ocupar espaço quando os atuais líderes da liga, todos de cabelos brancos, derem lugar aos jovens.

A sucessão será disputada por dois grupos. Do lado de Rogério estão Vinicius Drumond — filho do contraventor Luizinho Drumond, que morreu em 2020 — e Adilson Oliveira Coutinho Filho, da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio, de Duque de Caxias. Do outro, Gabriel David — filho do bicheiro Aniz Abraão David, o Anísio, da Beija-Flor — e Luiz Guimarães, o Luizinho — filho de Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, chefão da Vila Isabel.

Há um acordo para que Gabriel David seja o próximo presidente da Liesa, mas o plano de Rogério é de médio prazo. Ele entendeu que participar da cúpula do samba é também uma forma de sedimentar o seu domínio territorial na contravenção. Há entre os bicheiros um acordo tácito de que os verdadeiros chefões têm que estar bem representados na liga e quem não estiver perde prestígio.

Há ainda dúvidas do patrono da Mocidade sobre se o clima continuará pacífico entre os capos após a saída de cena dos contraventores mais velhos. Para a eventualidade de algum possível futuro embate, a atuação na Liesa serve também para formar alianças nas guerras do bicho.

Em suma: Rogério passou a ver a Liesa como uma ferramenta a mais para manter e fortalecer seus “negócios”.

Por isso, nas últimas semanas, vazou para a imprensa informações dando conta de que estava participativo como nunca na Mocidade, a ponto de se reunir com integrantes da verde e branco na reta final da preparação para o desfile e até dar a última palavra na escolha do microvestido com que a mulher, Fabíola Andrade, vai se apresentar como rainha da bateria. Ela vai usar uma peça de decote cavadíssimo. “Era isso mesmo que eu queria”, disse Rogério sobre a roupa da mulher, segundo informou a jornalista Vera Araújo, no jornal O Globo.

O que impediu Rogério de assistir o desfile de sua escola no Sambódromo é um pequeno adereço, que ele usa 24h por dia: a tornozeleira eletrônica.

Mesmo obrigado a retornar à residência até às 20h, o sobrinho de Castor tinha esperança de que a Justiça pudesse aliviar a restrição para conseguir estar na Sapuca. Mas com o tempo foi perdendo as esperanças de que isso acontecesse. Ele é acusado de chefiar uma organização criminosa que domina o jogo ilegal na Zona Oeste e de distribuir propinas a policiais. Chegou a ficar quatro meses preso por esse motivo, mas foi solto por ordem do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em dezembro de 2022. A prisão foi convertida em domiciliar, com tornozeleira.

São fatos assim, que constam de seu extenso prontuário policial, que o capo quer jogar para segundo plano. Continua não sendo um amante do Carnaval e tendo carisma negativo, mas vai se esforçar novamente e tentar que o papel de patrono da Mocidade, posto cheio de brilho e glamour, se sobreponha à relação de crimes sangrentos de que foi acusado.

A porta-bandeira e o mestre-sala da escola no ensaio técnico, a bandeira da Mocidade, Rogério de Andrade (com a tornozeleira no pé esquerdo) e a mulher, Fabíola

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