Por Deborah Magagna*
O governo de Mato Grosso resolveu “aplicar” recursos do próprio estado, como quem investe suas economias em um fundo financeiro. A grande questão é que esse fundo também recebeu dinheiro de outras fontes suspeitas, ligadas ao PCC, segundo a Polícia Federal.
O fundo MT Par FIDC foi inicialmente criado para comprar a dívida da concessionária Rota do Oeste, antiga empresa da Odebrecht. Um FIDC-NP (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados) é, basicamente, um tipo de investimento que compra dívidas que empresas ou pessoas têm a receber como boletos, financiamentos ou contratos de pagamento. No caso dos “não padronizados”, o fundo lida com dívidas mais específicas ou arriscadas, que não seguem regras comuns do mercado. O fundo compra “promessas de pagamento” e ganha quando essas dívidas são pagas. Por isso, esse tipo de fundo costuma ser mais complexo e exige muita transparência, já que é fácil esconder negócios ruins ou pouco claros dentro dele.
A operação, por si só, poderia despertar dúvidas sobre quem realmente saiu ganhando com o negócio, o Estado ou os antigos donos da concessionária. A grande questão é que esse mesmo fundo do governo, o MT Par FIDC, investiu R$ 1,1 milhão no fundo chamado Money Market.O problema é que o Money Market também recebeu dinheiro (R$ 845 mil) de outro fundo chamado Murren 41, que por sua vez está ligado ao Hans 95, um fundo citado pela Polícia Federal na operação Carbono Oculto por suspeita de movimentar dinheiro do PCC. O dinheiro público do governo e o dinheiro suspeito acabaram entrando no mesmo caminho financeiro, como se o governo tivesse colocado o dinheiro num cofre onde já havia notas de origem duvidosa, ninguém sabe exatamente de onde vieram, e isso, por si só, já acende o alerta. Mesmo que o governo não tenha feito nada ilegal, o simples fato de misturar recursos públicos com dinheiro investigado por ligação com o crime organizado pode colocar a credibilidade em xeque e requer explicações.
Outro ponto que levanta suspeitas é que auditorias encontraram falhas nas contas do fundo e apontaram falta de transparência. Há registros de investimentos feitos em outros fundos que nem sequer apresentaram suas demonstrações financeiras, o que impede saber com certeza onde o dinheiro foi parar. Quando isso acontece, o risco de mistura entre recursos públicos e dinheiro de origem suspeita aumenta, abrindo espaço para irregularidades e dificultando o rastreamento.
O caso levanta dúvidas sobre o porquê do governo ter aplicado dinheiro público em um ambiente financeiro de pouca visibilidade, ligado a fundos investigados por lavagem de dinheiro, após assumir uma dívida privada bilionária. Mesmo sem prova direta de crime, a combinação da falta de clareza, dúvidas em relação a auditoria e contradições nas explicações oficiais aponta para indícios de problemas de fiscalização. É como se estivéssemos diante de um labirinto financeiro cheio de portas trancadas, e o governo precisasse explicar quem tem as chaves e o mapa do labirinto e por qual caminho o dinheiro percorreu em meio a suas curvas.
*Formada em Economia pela PUC-SP, pós-graduada em Finanças Avançadas pelo Insper e historiadora pela Unifesp, pesquisa o papel do Estado na economia e a história da música, além dos diálogos entre cultura e sociedade. Professora e apresentadora do ICL, combina política, economia e história com foco no pensamento crítico.