A derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de domingo (25) terá consequências para o futuro político e jurídico de Flávio Bolsonaro (PL). Além de não conseguir chegar à Presidência da República, o senador pelo Rio de Janeiro encerrará seu mandato em fevereiro de 2027, ficando sem cargo público e perdendo o foro privilegiado associado à função.
Será a primeira vez desde 2002 que o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ficará fora de um cargo eletivo. Flávio iniciou sua trajetória política aos 21 anos, quando foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro. Desde então, acumulou quatro mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa do estado (Alerj) e conquistou uma cadeira no Senado Federal em 2018.
Na disputa presidencial deste ano, Flávio recebeu 59,8 milhões de votos, o equivalente a 48,21% dos votos válidos. Lula, por sua vez, conquistou 64,3 milhões de votos (51,79%), garantindo seu quarto mandato como presidente da República.
Após a divulgação do resultado, o candidato derrotado classificou a eleição como uma “sacanagem”, afirmou ser “impossível” reconhecer a derrota e declarou que tentará anular o pleito.
Perda do foro e investigações no STF
Com o encerramento do mandato parlamentar, Flávio Bolsonaro deixará de ter foro privilegiado em razão do cargo de senador. Isso significa que eventuais novos processos poderão tramitar na primeira instância da Justiça, conforme a natureza dos fatos investigados.
A mudança, entretanto, não implica necessariamente a transferência das investigações já existentes. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu que crimes cometidos durante o exercício do mandato e relacionados às funções públicas continuam sob competência dos tribunais superiores mesmo após a saída do cargo.
Atualmente, Flávio é formalmente investigado em dois casos que tramitam no Supremo.
Um deles envolve o financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Segundo informações divulgadas pelo The Intercept Brasil, o senador negociou com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, um investimento de R$ 130 milhões na produção cinematográfica.
Documentos obtidos apontam que Vorcaro chegou a desembolsar R$ 61 milhões. Áudios e mensagens revelados pela imprensa também mostram conversas nas quais Flávio cobrava o empresário pelos pagamentos.
A segunda investigação envolve o advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro. De acordo com informações encontradas pela Polícia Federal (PF), Flávio foi registrado como “usuário master” de uma conta bancária vinculada ao advogado.

Na avaliação dos investigadores, o cadastro concedia ao senador acesso operacional à conta e levantava a hipótese de participação econômica ou societária em uma empresa ligada ao caso.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz reconhecem a amizade, mas negam manter negócios em conjunto.
Mandato no Senado chega ao fim
Eleito senador em 2018, Flávio Bolsonaro ainda terá aproximadamente três meses de mandato antes de deixar o Congresso Nacional.
Durante sua passagem pelo Senado, apenas dois projetos de sua autoria foram transformados em lei. O período também foi marcado pelo crescimento de seu patrimônio declarado, que passou de R$ 1,7 milhão para R$ 8,1 milhões.
Antes de chegar ao Senado, Flávio havia sido eleito deputado estadual em 2002, 2006, 2010 e 2014. Em 2016, tentou disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro, mas não conseguiu vencer a eleição.
Com a derrota presidencial de 2026, o parlamentar encerra uma sequência de 24 anos de ocupação de cargos eletivos, sem perspectiva imediata de assumir uma nova função pública.
Neste domingo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), comentou o resultado eleitoral e reconheceu a votação recebida pelo colega.
“Um colega senador disputou e teve 60 milhões de votos, e isso não é pouca coisa. Nosso reconhecimento incondicional à vontade do povo nas urnas”, declarou.
Alcolumbre também parabenizou Lula pela reeleição. Os dois se reaproximaram politicamente nos últimos meses, período em que o Congresso aprovou o fim da escala de trabalho 6×1, uma das principais conquistas legislativas do governo petista.