“O Sertão das Nossas Memórias”, novo filme da roteirista e diretora Lúcia Murat, revisita o episódio que resultou, em setembro de 1971, na morte do capitão Carlos Lamarca e do líder operário José Campos Barreto, o Zequinha, durante a repressão à luta armada na ditadura militar. Em formato de road movie, o documentário acompanha Lucia e outros dois sobreviventes da ditadura militar, Paulo Jabur e João Lopes Salgado, em uma viagem de cerca de 2 mil quilômetros entre o Rio de Janeiro e o sertão da Bahia.
O filme foi selecionado para a competição de longas-metragens documentais da Première Brasil, no Festival do Rio 2026, que acontece entre 1 e 11 de outubro. O longa terá estreia mundial no evento e concorrerá ao Troféu Redentor.
Carlos Lamarca (1937–1971) foi capitão do Exército, que desertou durante a Ditadura e se tornou uma das principais lideranças da luta armada contra o regime. Na clandestinidade, participou de ações como o sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Após a morte de sua companheira Iara Iavelberg em Salvador, Lamarca e o militante Zequinha (José Campos Barreto) caminharam cerca de 300 quilômetros pelo sertão da Bahia.
Lamarca e Zequinha foram mortos em 17 de setembro de 1971, no povoado de Pintada, na Bahia, durante a Operação Pajussara, após serem perseguidos por forças de segurança. A versão oficial da época apontava que Lamarca havia morrido em confronto, mas investigações posteriores concluíram que ele foi executado quando já estava ferido e sem condições de resistência.
A produção também aborda a relação das comunidades de Pintada e Brotas de Macaúbas, na Bahia, com o episódio. Após anos de silêncio e medo, os moradores passaram a realizar uma missa e uma romaria anual em homenagem a Lamarca e Zequinha em 17 de setembro, data das mortes que se tornou feriado nos municípios.
O filme combina relatos dos sobreviventes com fotografias, manchetes de jornais, cartazes e imagens de arquivo. “Decidimos não fazer entrevistas formais, mas irmos registrando as memórias de ex-militantes, entre os quais me incluo, durante o trajeto, através de conversas informais”, afirma a diretora. Lucia Murat participou da luta armada e foi presa em 1971.
“Contamos essa história mantendo o clima de suspense que ela comporta. Ao mesmo tempo, a surpreendente realidade de hoje, com missas e romarias, faz o contraponto pela participação democrática ao clima de tensão dos anos 70”, explica Lucia.
