Em tom firme, ata do Copom não sinaliza corte de juros no curto prazo

"O Comitê inicia um novo estágio em que opta por manter a taxa inalterada e seguir avaliando", diz trecho do documento divulgado nesta 3ª feira (23) pelo Banco Central
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O Banco Central divulgou, na manhã desta terça-feira (23), a ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), realizada na semana passada, na qual adota tom firme (hawkish, no jargão do mercado), indicando que os juros devem permanecer em patamar elevado por período prolongado. A justificativa são cenário de inflação persistente, expectativas desancoradas e incertezas internas e externas.

“O Comitê inicia um novo estágio em que opta por manter a taxa inalterada e seguir avaliando se, mantido o nível corrente por período bastante prolongado, tal estratégia será suficiente para a convergência da inflação à meta”, afirmou trecho do documento.

A ata do Copom não indica reinício do ciclo de alta dos juros, mas tampouco indica quando os cortes terão início. A estratégia agora é observar os efeitos da taxa elevada sobre a economia, mantendo a postura de cautela.

Ata do Copom: inflação segue acima da meta

Apesar de algum alívio recente na inflação de bens industrializados e alimentos, o Copom destacou que os núcleos de inflação continuam acima do nível compatível com a meta e que a inflação de serviços permanece resiliente, sustentada por um mercado de trabalho aquecido. As projeções de inflação seguem acima da meta em todos os horizontes relevantes.

Sobre isso, trecho da ata diz que: “No cenário de referência, as projeções para a inflação acumulada em quatro trimestres para 2025 e para 2026, são, respectivamente, 4,8% e 3,6%”.

Para o primeiro trimestre de 2027 — considerado o horizonte relevante — a inflação projetada está em 3,4%, ainda acima da meta de 3,0%.

Expectativas desancoradas exigem juros altos por mais tempo

Um dos pontos centrais do comunicado foi o alerta sobre a desancoragem das expectativas de inflação, fator que, segundo o Comitê, exige uma política monetária mais dura e prolongada: “Em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”.

Ainda que tenha havido uma leve melhora nas expectativas de curto prazo, as projeções de longo prazo continuam elevadas, o que compromete a credibilidade do regime de metas. O Copom reforçou o compromisso com a “reancoragem das expectativas” e deixou claro que a redução da Selic depende diretamente dessa evolução.

Riscos fiscais e externos reforçam cautela

O cenário fiscal doméstico também preocupa o Comitê, que voltou a destacar os riscos de um esmorecimento no esforço de controle da dívida pública e o impacto disso sobre a política monetária:“O  esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, […] tem o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia”.

Além disso, o ambiente internacional segue incerto, especialmente diante da indefinição sobre o início do ciclo de cortes de juros nos Estados Unidos e da possibilidade de novas tarifas comerciais. Esse contexto reforça a necessidade de manter uma postura vigilante e conservadora: “O cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária”.

Sem corte à vista

Apesar da manutenção da taxa, o Copom fez questão de deixar aberta a possibilidade de voltar a subir os juros, caso o cenário se deteriore: “O Comitê seguirá vigilante e não hesitará em retomar o ciclo de alta se julgar apropriado”.

Essa frase reforça o tom hawkish (mais duro com a inflação) adotado na comunicação. O recado é claro: a porta está mais aberta para uma nova alta do que para um corte no curto prazo.

 

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