Por Cleber Lourenço
Um grupo de economistas dos maiores bancos e gestoras de investimentos do país passou a usar o fim da escala de trabalho 6×1 como argumento para defender cautela na redução dos juros até 2027. A avaliação foi divulgada nesta quarta-feira (4) pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), que incluiu os possíveis efeitos da mudança trabalhista entre os riscos para a inflação e projetou a Selic em 12,5% ao final do próximo ano.
O posicionamento foi apresentado pelo Grupo Consultivo Macroeconômico da entidade, coordenado por Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco. O colegiado reúne representantes de instituições como Itaú BBA, BTG Pactual, Santander, XP, JPMorgan, Bank of America e Morgan Stanley.
No comunicado oficial, a entidade associa a piora das expectativas de inflação aos preços internacionais do petróleo, aos efeitos do El Niño sobre a produção agrícola, à reforma tributária e aos possíveis impactos da alteração da jornada de trabalho.
A avaliação ocorre menos de três semanas depois da promulgação da Emenda Constitucional 141, que estabeleceu o fim da escala 6×1 e a transição para dois dias de descanso semanal, sem redução salarial.
Embora tenha incluído a conquista trabalhista entre os riscos inflacionários, a ANBIMA não apresentou no comunicado qualquer cálculo específico sobre quanto a redução da jornada poderia elevar os preços.
O grupo também revisou para baixo suas projeções de crescimento econômico. A expectativa para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2027 caiu de 1,34% para apenas 1%, enquanto a previsão de inflação subiu de 4,3% para 4,9%.
Mesmo diante da perspectiva de desaceleração da economia, os representantes do mercado financeiro esperam que o Banco Central mantenha os juros elevados, com retomada dos cortes somente em maio de 2027.
“O balanço de riscos piorou nos curto e médio prazos, com pressões vindas tanto do cenário externo quanto do doméstico”, afirmou Honorato, ao defender maior cautela do Banco Central.
Bancos estão entre os principais beneficiários dos juros elevados
A posição do setor financeiro ganha outra dimensão quando confrontada com os interesses econômicos das próprias instituições que participam dessas avaliações.
Conforme levantamento publicado pelo ICL Notícias na terça-feira (3), bancos e fundos de investimento concentram aproximadamente R$ 3,37 trilhões em títulos da dívida pública cuja remuneração acompanha a Selic. O montante representa quase 70% dos papéis dessa modalidade.
Os dados, extraídos do Tesouro Nacional, mostram que as instituições financeiras detêm R$ 1,81 trilhão desses títulos, enquanto os fundos administram outros R$ 1,56 trilhão.
Na prática, quanto maior a taxa básica de juros, maior tende a ser a remuneração desses investimentos e mais caro fica para o governo financiar sua dívida.
Somente entre janeiro e setembro de 2026, os juros incorporados à dívida pública federal somaram R$ 784,4 bilhões. No período, o endividamento cresceu mesmo com o Tesouro resgatando mais títulos do que emitiu.
A concentração desses investimentos evidencia o interesse financeiro envolvido na discussão sobre a política monetária. Enquanto os detentores de títulos vinculados à Selic se beneficiam de sua remuneração elevada, famílias e empresas enfrentam crédito mais caro, e o governo arca com custos maiores para financiar a dívida.
A contradição aparece nas próprias projeções da ANBIMA: o grupo prevê uma economia crescendo apenas 1% em 2027, mas continua trabalhando com juros de dois dígitos e inclui a redução da jornada de trabalho entre os fatores de preocupação inflacionária.
O documento mostra como uma conquista dos trabalhadores passou a integrar os argumentos econômicos utilizados pelo mercado financeiro para sustentar a expectativa de manutenção de juros elevados, uma política que também beneficia parte expressiva das instituições representadas pela entidade.