Um artigo de opinião escrito pelo correspondente do jornal inglês Financial Times no Brasil, Michael Pooler, destaca que uma crise diplomática sem precedentes entre Brasil e Estados Unidos coloca os maiores bancos brasileiros em uma situação de risco inédito.
Publicado nesta quinta-feira (4), o artigo intitulado “Bancos brasileiros no fogo cruzado entre Trump e ministro do STF” (tradução livre), aponta que bancos como Itaú Unibanco, Bradesco, Santander Brasil, BTG Pactual e Banco do Brasil estão sob pressão direta do governo norte-americano para aplicar sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal). O problema: o próprio STF ameaça punir qualquer banco que adote essas medidas.
Com a escalada da tensão entre Donald Trump e Moraes, visto como símbolo da oposição jurídica ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o impasse deixou de ser apenas político e passou a atingir diretamente o sistema financeiro brasileiro.
No mês passado, a Casa Branca intensificou tarifas sobre produtos agropecuários brasileiros, e agora mira os bancos por supostamente desrespeitarem as sanções da chamada Lei Magnitsky, usada contra autoridades estrangeiras acusadas de corrupção ou violações de direitos humanos. Moraes foi enquadrado na lei pelo governo Trump.
Trecho do artigo diz que “as ações dos principais bancos listados em São Paulo — Itaú Unibanco, Bradesco, Santander Brasil, BTG Pactual e o estatal Banco do Brasil — caíram no dia seguinte à decisão judicial. O episódio agravou o dilema enfrentado pelos diretores de compliance dessas instituições, que já tentavam entender o alcance e a profundidade das sanções impostas ao ministro Alexandre de Moraes, uma das figuras mais influentes de Brasília”diz, em referência ao fechamento do Ibovespa em 19 de agosto, com despencou devido à queda das ações dos bancos.
“Todo o mercado financeiro vê isso com extrema preocupação”, disse um banqueiro ao Financial Times. “Nenhuma instituição financeira brasileira quer estar no meio dessa briga política.”
O dilema dos bancos brasileiros
O FT destaca que bancos brasileiros já teriam começado a receber cartas do Departamento do Tesouro dos EUA exigindo a aplicação das sanções contra Moraes. O dilema é claro: acatar as ordens americanas pode proteger os bancos de punições internacionais, como a exclusão do sistema financeiro dos EUA — o que seria catastrófico para instituições com operações globais.
Por outro lado, seguir as determinações americanas pode violar decisões recentes do STF, como a do ministro Flávio Dino, que proibiu qualquer penalização a Moraes em território brasileiro.
A incerteza jurídica provocou reações imediatas no mercado financeiro. As ações dos principais bancos caíram após a decisão do Supremo, e investidores temem que o embate avance para outros magistrados, especialmente se Bolsonaro for condenado e novos ministros forem alvos do governo Trump.
Faria Lima em alerta máximo
A dúvida agora gira em torno da abrangência das sanções. De acordo com o FT, executivos do setor financeiro avaliam que as punições se aplicariam apenas a operações em dólares ou com instituições ligadas ao sistema financeiro dos EUA — como bandeiras de cartão de crédito como Visa e Mastercard —, mas não a transações em reais, realizadas exclusivamente no Brasil. Ainda assim, a possibilidade de uma interpretação mais dura por parte da Casa Branca, por razões políticas, não está descartada.
Caso a pressão aumente, Moraes poderia ser forçado a operar apenas com dinheiro em espécie ou a usar contas de terceiros. Mais grave seria se a retaliação atingisse os bancos em si: bloqueios de contas nos EUA ou restrições a empréstimos em dólar teriam impacto direto na economia brasileira.
Silêncio institucional e riscos futuros
Diante do impasse, os bancos mantêm discrição. Até o momento, nenhum deles se pronunciou oficialmente sobre o assunto, exceto o Santander, que afirmou à BBC News Brasil seguir rigorosamente todas as normas locais e internacionais, mas evitou abordar detalhes regulatórios.
A Febraban (Federação Brasileira de Bancos), por sua vez, disse à mesma BBC não ter recebido notificações formais sobre o tema, ressaltando que qualquer comunicação do Tesouro americano seria confidencial.
O artigo do FT conclui que, por ora, o embate gira em torno de um único ministro. Mas o temor no mercado é que, caso outros magistrados entrem na mira do governo americano, o Brasil possa enfrentar não apenas uma crise diplomática, mas uma grave desestabilização financeira — com potencial para afetar diretamente a credibilidade e a estabilidade do sistema bancário nacional.