Brasil se aproxima dos EUA e pode liderar exportações agrícolas, diz jornal britânico

Com as políticas tarifárias de Donald Trump, a China reduziu suas importações com o mercado estadunidense e migrou sua atenção para o Brasil, segundo Financial Times
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O Brasil está perto de assumir a liderança global nas exportações agrícolas e pode superar os Estados Unidos pela primeira vez na história. A avaliação é de uma reportagem publicada nesta terça-feira (21) pelo jornal britânico Financial Times.

Os Estados Unidos exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas em 2025, apenas US$ 2 bilhões a mais que o Brasil. A diferença é muito menor do que a registrada em 2021, quando os americanos exportavam US$ 56 bilhões a mais que os brasileiros.

O desempenho brasileiro é impulsionado pelo crescimento da produção e das exportações de soja, carne bovina, carne de frango e algodão, que tinha os EUA como seu principal exportador, mas que foi ultrapassado pelo Brasil. No primeiro semestre de 2026, o agronegócio nacional registrou exportações recordes de US$ 87 bilhões, alta de 6% em relação ao mesmo período do ano passado.

Segundo especialistas ouvidos pelo Financial Times, as “perturbações comerciais desencadeadas pelas tarifas impostas pelo presidente Donald Trump” sobre os chineses ainda durante seu primeiro mandato, em 2018, reduziu significativamente as importações do país, acelerando essa transformação. Logo, a China, principal compradora mundial de soja, reduziu a dependência do produto americano e consolidou o Brasil como seu principal fornecedor, criando uma mudança estrutural nas rotas do comércio internacional.

O gráfico que acompanha a análise indica que, em 2016, Brasil e Estados Unidos forneciam volumes parecidos de soja para a China. Naquele momento, as vendas brasileiras já apresentavam crescimento, mas de forma gradual.

A partir de 2018, com a resposta de Pequim às tarifas impostas por Washington, o avanço das exportações do Brasil ganhou força. Em 2025, o país vendeu mais de 80 milhões de toneladas de soja ao mercado chinês, enquanto os Estados Unidos ficaram abaixo da marca de dezenas de milhões de toneladas exportadas.

As informações são do UN Comtrade (United Nations Commodity Trade Statistics Database), a maior base pública de dados sobre comércio internacional de mercadorias.

De acordo com o jornal britânico, embora os EUA sigam capazes de produzir “safras extraordinárias”, “as margens de lucro estão desaparecendo à medida que as tensões comerciais e os preços baixos deixam sua marca no Meio-Oeste”.

Segundo a reportagem, a estimativa da American Farm Bureau Federation, a maior organização e grupo de lobby de agricultores e pecuaristas dos EUA, é de que o setor tenha no próximo ano prejuízos de US$ 138 por acre para a soja, US$ 167 para o milho, US$ 145 para o trigo e US$ 406 para o algodão.

Mercado brasileiro

O Financial Times destaca que “a força do setor agrícola do Brasil não é apenas consequência da política comercial americana”, mas resultado de um processo de transformação construído ao longo de décadas.

De acordo com os analistas escutados, o país, atualmente líder mundial nas exportações de café, cana-de-açúcar e suco de laranja, dependia de importações para abastecer sua população até a década de 1970. Esse cenário começou a mudar com o aproveitamento do potencial agrícola do território brasileiro, que permite a realização de duas ou até três safras por ano.

O jornal atribui esse avanço à combinação de terras disponíveis a custos relativamente baixos, especialmente em áreas de fronteira agrícola, e à expansão da produção para regiões antes consideradas inadequadas para o cultivo, graças ao “tratamento de solos pobres em nutrientes e ao desenvolvimento genético de culturas adaptadas ao clima”.

“Esse modelo de produção contínua ajuda a diluir os custos fixos e, normalmente, melhora as margens das propriedades rurais”, explicou Raphael Bulascoschi, analista da corretora de commodities StoneX, ao veículo britânico.

Eles completam afirmando que o Brasil também se prepara para possíveis desafios. Entre os fatores que podem afetar o setor estão os juros elevados no país, a queda dos preços das commodities e o aumento no custo dos fertilizantes, impulsionado pela guerra entre Irã e Israel. Como a maior parte desses insumos é importada, a alta dos preços pode pressionar a produção agrícola.

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