Os Correios receberam na terça-feira (30) R$ 10 bilhões referentes a um financiamento total de R$ 12 bilhões contratado junto a um consórcio de bancos públicos e privados. A liberação dos recursos ocorreu após a PGFN (Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional) publicar o contrato de garantia que formaliza a União como avalista da operação, reduzindo o risco para as instituições financeiras envolvidas.
O financiamento conta com a participação de Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Bradesco, que aportarão R$ 3 bilhões cada, além de Itaú e Santander, responsáveis por R$ 1,5 bilhão cada. Os R$ 2 bilhões restantes devem ser liberados em janeiro de 2026.
O contrato, publicado no Diário Oficial da União (DOU), tem validade até 2040, prevê carência de três anos e início dos pagamentos em dezembro de 2029, com amortizações mensais. A taxa de juros foi fixada em 115% do CDI, abaixo do teto de 120% autorizado pelo Tesouro Nacional.
Com o aval concedido em 18 de dezembro, o governo federal assume a obrigação de honrar a dívida caso os Correios se tornem inadimplentes — mecanismo que, na prática, transfere parte relevante do risco da operação para a União.
Fôlego com adiamento de precatórios trabalhistas
Em paralelo à captação financeira, os Correios obtiveram uma decisão favorável no TST (Tribunal Superior do Trabalho) para aliviar a pressão judicial sobre o caixa da empresa. Na noite de segunda-feira (29), o presidente do TST, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, autorizou o adiamento e parcelamento do pagamento de R$ 702 milhões em precatórios trabalhistas que deveriam ser quitados até 31 de dezembro.
A decisão suspende por 90 dias a cobrança desses valores e permite o parcelamento em nove parcelas mensais, a serem pagas entre abril e dezembro de 2026. Também ficou determinado que tribunais regionais do Trabalho estão proibidos de bloquear bens dos Correios relativos a essas dívidas, e que os credores não poderão contestar a medida.
Segundo o ministro, a decisão se justifica pelo “risco iminente de prejuízos irreparáveis” e pela necessidade de preservar a atividade empresarial diante da função social desempenhada pela estatal.
Os precatórios decorrem de causas trabalhistas acumuladas ao longo de anos e tiveram crescimento expressivo após a empresa firmar um acordo de cooperação técnica com o TST, que resultou na desistência de recursos em 3.781 processos. A medida reduziu a litigiosidade, mas antecipou o reconhecimento de dívidas judiciais, elevando significativamente o volume de precatórios inscritos.
Explosão dos precatórios agrava cenário fiscal
Dados das demonstrações financeiras mostram que as despesas com precatórios dispararam entre 2023 e 2025, alcançando R$ 2 bilhões em setembro de 2025 — mais de quatro vezes o valor registrado em 2022. Com o adiamento autorizado pelo TST, a previsão de pagamento de precatórios em 2026 subiu de R$ 1,2 bilhão para R$ 1,9 bilhão.
A decisão judicial, embora alivie o curto prazo, empurra parte relevante do passivo para exercícios futuros, ampliando os desafios da reestruturação financeira da empresa.
Na terça-feira, o TST também encerrou o dissídio coletivo entre os Correios e seus trabalhadores, definindo os termos do acordo coletivo válido para 2025 e 2026. A decisão garantiu reajuste salarial de 5,1%, retroativo a 1º de agosto, recompondo a inflação do período.
Além disso, foram mantidas cláusulas que ampliam os custos trabalhistas, como gratificação de férias de 70% — acima do mínimo legal previsto na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) — e pagamento de 200% do salário por hora extra. Também ficou decidido que o ponto eletrônico será exigido apenas para quem realizar horas extras, assegurando o pagamento integral da jornada padrão.
A proposta inicial dos trabalhadores previa reajuste de 14%, mas o tribunal optou por limitar o aumento à reposição inflacionária.
Plano de reestruturação mira corte de custos
Diante de 12 trimestres consecutivos de prejuízos, a direção dos Correios apresentou um plano de reestruturação considerado essencial para a sobrevivência da estatal. Segundo o presidente da empresa, Emmanoel Rondon, o modelo econômico-financeiro atual deixou de ser viável.
O plano prevê:
- redução de R$ 2,1 bilhões nos custos com pessoal;
- implementação de um Programa de Demissão Voluntária (PDV), com expectativa de
- desligamento de até 15 mil funcionários em dois anos (18% da força de trabalho);
- fechamento de cerca de mil agências deficitárias, de um total aproximado de 5 mil;
- venda de R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais;
- reformulação do plano de saúde, com economia estimada em R$ 500 milhões anuais.
A meta é equilibrar as contas em 2026 e voltar a registrar lucro a partir de 2027. Sem ajustes, segundo Rondon, o prejuízo pode alcançar R$ 23 bilhões em 2026.
Receitas em queda e perda de espaço no mercado
Do lado das receitas, o cenário segue desafiador. Os Correios encerraram 2024 com faturamento de R$ 18,9 bilhões, abaixo dos anos anteriores. Até setembro de 2025, a empresa registrou queda de quase R$ 2 bilhões na receita em comparação com o mesmo período de 2024.
Parte dessa retração é atribuída ao programa Remessa Conforme, que instituiu imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 e abriu o mercado de distribuição de encomendas internacionais para empresas privadas. Com isso, os Correios perderam exclusividade e viram sua participação no mercado de encomendas cair de 51% em 2019 para 22% em 2025.
Orçamento de 2026 projeta desequilíbrio
A previsão orçamentária para 2026, publicada no DOU, projeta queda de 26% nas receitas correntes, para R$ 17,7 bilhões, e aumento de 21% nas despesas, que devem atingir R$ 29 bilhões. O crescimento dos gastos é impulsionado principalmente por despesas com pessoal e pelos efeitos do PDV.
O documento reforça a dependência crescente da estatal de receitas de capital, especialmente novos empréstimos, para manter suas operações.
Apesar do empréstimo recém-contratado, a direção dos Correios não descarta novas captações de até R$ 8 bilhões, seja por meio do Tesouro Nacional, seja por novas operações de crédito. A proposta inicial de captar R$ 20 bilhões foi barrada pelo Tesouro devido às taxas consideradas elevadas.
Além disso, a empresa planeja investir R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030 com recursos do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics (grupo que inicialmente reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), destinados à automação, modernização logística, renovação da frota e descarbonização.