Por Nicole Pamplona
(Folhapress) – Com a nova escalada das cotações internacionais do petróleo, a defasagem no preço do diesel no Brasil atingiu patamares equivalentes aos do início da guerra no Irã, jogando pressão sobre a Petrobras e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) às vésperas da eleição presidencial.
Nesta quarta-feira (9), a cotação do petróleo Brent voltou a bater a casa dos US$ 100 (R$ 510) por barril pela primeira vez em três meses, em reação à retomada de ataques dos Estados Unidos e do Irã, que tiveram como alvos preferenciais navios-petroleiros.
O presidente Lula assinou medida provisória que libera mais R$ 6,6 bilhões para subsídios aos combustíveis, em uma mudança de rota após declarações do Ministério da Fazenda sobre interrupção gradual dos subsídios.
O cenário preocupa o mercado: com a hipótese de que o conflito se estenda até 2027, o banco Goldman Sachs elevou em US$ 5 (R$ 26) por barril a projeção para a cotação ao fim de 2026. O banco fala em risco de petróleo a US$ 120 (R$ 612) no próximo ano, caso a interrupção do Estreito de Hormuz se mantenha.

Preocupação
No Brasil, a principal preocupação é o abastecimento de diesel, produto em que o Brasil é deficitário e cuja demanda é aquecida pelo transporte da safra de grãos no segundo semestre. É também o produto com maior risco de escassez global caso os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia sejam duradouros.
Na abertura do mercado desta terça-feira (8), o preço do diesel nas refinarias da estatal custava R$ 3,08 por litro a menos do que a paridade de importação medida pela Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis).
É praticamente o mesmo valor do recorde de R$ 3,09 por litro atingido no início de março, logo após os primeiros ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã. Na média nacional, a defasagem era de R$ 2,77 por litro.
A situação melhorou um pouco na quarta, com a defasagem nas refinarias da Petrobras caindo para R$ 2,87 por litro. Ainda assim, com um subsídio de apenas R$ 1,12 por litro, estatal e importadores perderiam R$ 1,75 a cada litro importado.
As empresas privadas repassam a alta de custos ao consumidor final. A Petrobras não mexe no preço do diesel em suas refinarias desde junho, quando reduziu o valor para compensar parte da retirada de subsídios pelo governo Lula.
Executivos do setor esperam que a Petrobras assuma as perdas nesse momento para não impactar o cenário eleitoral.
O que diz a Petrobras
Em nota, a Petrobras diz que “monitora diariamente os fundamentos do mercado internacional e possíveis desdobramentos para o mercado brasileiro, tendo como premissas a prática de preços competitivos com as principais alternativas de suprimento e o não repasse da volatilidade externa para os preços internos”.
A empresa priorizava a venda de diesel produzido nas refinarias próprias para evitar perdas com importações, estratégia que levou a recordes de refino no segundo trimestre. Mas, segundo fontes do mercado, voltou a importar: para setembro, a expectativa é que a estatal responda por pouco mais de um terço das importações brasileiras de diesel.
Até o fim de agosto, os subsídios concedidos às vendas de diesel e gasolina e GLP (gás liquefeito de petróleo), o gás de cozinha, custaram ao contribuinte brasileiro R$ 7,8 bilhões, segundo os últimos dados disponibilizados pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis).
Esse é o valor desembolsado pela agência. O valor real tende a ser maior já que houve atrasos na liberação dos recursos. Com a medida provisória desta quarta, Lula separa R$ 5,6 bilhões para o diesel e pouco menos de R$ 1 bilhão para outros combustíveis.